Dele, por meio dele e para ele: uma reflexão sobre Romanos 11:36


Vladimir Chaves

“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente.” Romanos 11:36

Há uma verdade em Romanos 11:36 que precisa ser compreendida com atenção: Deus não ocupa apenas uma parte da nossa vida. Ele está na origem, no desenvolvimento e no propósito de todas as coisas.

“Dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas.”

Essa pequena frase apresenta três dimensões importantes: a origem, o meio e o propósito.

Tudo começa em Deus

Paulo começa dizendo: “dele”.

A expressão aponta para Deus como a fonte de todas as coisas. Antes de pensarmos naquilo que fazemos, conquistamos ou possuímos, existe uma realidade que não podemos ignorar: recebemos a própria vida.

Temos capacidades diferentes, histórias diferentes, oportunidades diferentes e responsabilidades diferentes. Trabalhamos para alcançar objetivos e, muitas vezes, nossas escolhas produzem consequências concretas. Porém, nenhuma dessas coisas elimina nossa dependência do Criador.

Reconhecer Deus como a origem não significa desprezar o esforço humano. Significa apenas não confundir instrumento com origem.

Podemos trabalhar para conquistar alguma coisa, mas não criamos a nossa própria existência.

Podemos desenvolver uma habilidade, mas não fomos nós que criamos a capacidade de aprender.

Podemos construir uma carreira, mas recebemos a vida antes de qualquer profissão.

Essa percepção deveria produzir uma atitude mais equilibrada diante daquilo que temos.

Deus não está apenas no começo

Paulo continua: “por meio dele”.

Aqui encontramos outra dimensão da nossa dependência.

Deus não é apresentado apenas como aquele que criou todas as coisas no princípio. A Bíblia também apresenta sua ação sustentadora.

Em Atos 17:28, Paulo declara: “Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos.”

Isso nos lembra de que nossa dependência de Deus não termina depois que recebemos aquilo que pedimos.

Existe uma tendência humana de procurar Deus principalmente quando precisamos de uma solução. Depois que o problema passa, podemos voltar a conduzir a vida como se dependêssemos exclusivamente de nós mesmos.

Romanos 11:36 apresenta uma perspectiva diferente.

Tudo é “por meio dele”.

Isso significa que nossa caminhada também acontece dentro da dependência de Deus. Não conhecemos todas as circunstâncias, não controlamos todos os acontecimentos e não conseguimos prever todas as consequências das nossas decisões.

Nem sempre teremos respostas para tudo. Mas a ausência de respostas não significa ausência de Deus.

Para quem estamos vivendo?

A terceira expressão talvez seja a que mais confronta nossas prioridades: “E para ele são todas as coisas.”

Aqui Paulo não está falando apenas de origem ou sustentação. Ele está falando de finalidade.

Se todas as coisas são para Deus, então precisamos olhar para nossa própria vida e perguntar: Qual é a finalidade daquilo que estou fazendo?

Trabalhar é necessário. Estudar é importante. Cuidar da família é uma responsabilidade. Construir projetos faz parte da vida. Buscar melhores condições também pode ser legítimo.

A questão não está necessariamente naquilo que fazemos, mas em quem ocupa o centro dos nossos propósitos.

É possível construir uma vida inteira em torno de objetivos pessoais e, somente depois, perceber que aquilo que conquistamos não respondeu às perguntas mais importantes.

Romanos 11:36 nos chama a colocar nossas atividades dentro de uma perspectiva maior.

O trabalho não precisa ser separado da fé.

A honestidade no trabalho é uma questão de fé.

A maneira como tratamos nossa família é uma questão de fé.

A forma como administramos nossos recursos é uma questão de fé.

A maneira como usamos conhecimento, influência e oportunidades também revela aquilo que consideramos realmente importante.

A glória não é nossa

Depois dessas três afirmações, Paulo conclui: “A ele, pois, a glória eternamente.”

A conclusão está diretamente ligada ao que foi dito antes.

Se todas as coisas são dele, não podemos reivindicar a posição de origem.

Se são por meio dele, não podemos agir como se nossa força fosse suficiente para sustentar tudo.

Se são para ele, não podemos transformar nossa própria vontade no propósito final da existência.

A glória, portanto, pertence a Deus.

Isso não significa que o ser humano não possa reconhecer suas responsabilidades ou suas realizações. Significa que devemos saber distinguir entre reconhecer o próprio trabalho e atribuir a nós mesmos aquilo que, em última análise, recebemos de Deus.

Existe uma diferença entre satisfação pelo que realizamos e orgulho que nos faz esquecer de onde recebemos aquilo que temos.

Uma mudança de perspectiva

Romanos 11:36 nos faz pensar a maneira como enxergamos a vida.

“Dele” nos leva a olhar para a origem.

“Por meio dele” nos leva a reconhecer nossa dependência.

“Para ele” nos leva a examinar nossos propósitos.

E “a ele a glória” nos lembra que Deus não deve ser colocado como um detalhe dentro de uma vida construída inteiramente ao redor dos nossos interesses.

A questão não é abandonar nossos planos, mas submetê-los a uma realidade maior.

Não é deixar de trabalhar, mas compreender para que estamos trabalhando.

Não é deixar de conquistar, mas compreender o que faremos com aquilo que conquistarmos.

Não é deixar de sonhar, mas perguntar se nossos sonhos também podem ser colocados diante de Deus.

O contexto de Romanos 11

Essa declaração de Paulo não aparece isoladamente.

Nos capítulos 9, 10 e 11, Paulo trata dos propósitos de Deus relacionados a Israel, aos gentios, à incredulidade, à misericórdia e à salvação. Ao chegar ao final dessa exposição, ele reconhece que os caminhos e a sabedoria de Deus estão acima da capacidade humana de compreender tudo.

Por isso, Romanos 11:36 não é simplesmente uma frase sobre prosperidade, sucesso ou realizações pessoais.

É uma declaração muito mais ampla sobre Deus e seus propósitos.

Paulo olha para a grandeza desses propósitos e termina em adoração.

Isso nos ensina algo importante: conhecer a Bíblia não deve produzir apenas informação. Deve também corrigir nossa maneira de enxergar Deus, a nós mesmos e a vida.

Todas essas coisas têm seu lugar. Mas nenhuma delas deve ocupar o lugar que pertence a Deus.

Romanos 11:36 nos apresenta uma ordem que merece ser reservada:

Dele nos leva a origem.

Por meio dele, a dependência.

Para ele, o propósito.

A ele a glória, a conclusão.

Quando essa ordem é invertida, o homem passa a ocupar o centro e Deus se torna apenas um recurso para alcançar objetivos pessoais.

Quando essa ordem é compreendida, nossa maneira de olhar para a vida começa a mudar.

Não porque todas as perguntas serão respondidas, mas porque passamos a entender melhor a quem pertencemos, de quem dependemos e para quem devemos viver.

E Paulo encerra sua reflexão com uma declaração que permanece atual: “A ele, pois, a glória eternamente.” Romanos 11:36

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