A coragem que edificou a Igreja e o medo que hoje a silencia


Vladimir Chaves

Um contraste atravessa os séculos e confronta a consciência da Igreja: de um lado, a ousadia dos apóstolos; de outro, a acomodação de muitos líderes espirituais da atualidade. Não se trata de idealizar o passado nem de demonizar o presente, mas de reconhecer uma verdade incontornável: o Evangelho jamais foi chamado a se moldar ao sistema, e sim a transformá-lo.

Após a ressurreição de Jesus Cristo, os apóstolos não receberam promessas de conforto, prestígio ou segurança institucional. Receberam uma missão; e a cumpriram com coragem. Pregaram o que era proibido, falaram mesmo quando ameaçados e permaneceram fiéis quando o silêncio parecia a opção mais segura. Sua ousadia não brotava de ambição pessoal, mas da convicção profunda de que obedecer a Deus vale mais do que agradar aos homens. Por isso, foram perseguidos, presos e mortos; não como derrotados, mas como testemunhas fiéis.

Em contraste, o cenário atual revela uma realidade inquietante: líderes que negociam a verdade para preservar posições, ajustam a mensagem para evitar o confronto com o pecado e preferem a aprovação do sistema vigente à fidelidade às Escrituras. A cruz, antes o centro da mensagem, torna-se mero ornamento. O arrependimento cede espaço à autoajuda. A santidade é relativizada para manter audiência. Onde antes havia fogo, agora há cálculo.

Essa adaptação ao sistema não é neutra. Ela cobra um preço elevado: a perda da autoridade espiritual. Quando a Igreja deixa de ser profética, passa a ser apenas decorativa. Quando sua voz se cala para não desagradar, sua luz se apaga para não incomodar. O Evangelho, então, já não confronta; limita-se a confirmar o status quo.

Os apóstolos sabiam que o destino de uma fé ousada poderia ser o martírio, e, ainda assim, avançaram. Muitos líderes contemporâneos, porém, temem o custo da fidelidade e escolhem a rota da conveniência. O resultado é uma fé sem cicatrizes, mas também sem poder; sem perseguição, porém sem impacto.

A pergunta que permanece não diz respeito a métodos, estilos ou plataformas, mas à lealdade. A quem servimos quando a verdade nos custa algo? O sistema sempre recompensará os que se adaptam. Deus, porém, honra os que permanecem fiéis. A história testemunha: a Igreja cresceu não quando se misturou ao sistema, mas quando teve coragem de enfrentá-lo com amor, verdade e ousadia.

Ser ousado hoje talvez não conduza à cruz física, mas certamente exigirá renúncia, perdas e incompreensão. Ainda assim, esse é o caminho que ecoa o testemunho apostólico. Porque, no fim, não é a aprovação do sistema que define o destino eterno, mas a fidelidade ao chamado.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

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