O novo nascimento não pode
ser reduzido a um simples recomeço moral, como se fosse apenas o apagamento da
culpa do passado. Embora o perdão dos pecados seja uma realidade gloriosa, a
essência do novo nascimento é mais profunda: trata-se do recebimento de uma
nova natureza. A Escritura afirma que Deus, “segundo o seu querer, nos gerou
pela Palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas
criaturas” (Tg 1.18). Ser gerado por Deus implica origem, vida e
identidade novas, provenientes não da vontade humana, mas da ação soberana do
Criador.
Quando Jesus declara a
Nicodemos: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo,
não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3.3), Ele não fala de uma reforma
exterior, mas de uma transformação interior radical. O próprio Cristo esclarece
que “o que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é
espírito” (Jo 3.6). Aqui se estabelece uma distinção clara entre duas
naturezas: a natural, herdada de Adão, e a espiritual, concedida por Deus no
novo nascimento.
Paulo aprofunda essa verdade
ao afirmar: “O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o último Adão,
porém, é espírito vivificante” (1Co 15.45). O primeiro Adão recebeu
vida; o último Adão, Cristo, comunica vida. Tudo o que existe foi criado por
meio d’Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez (Jo 1.3). Assim,
Aquele que participou da criação também é o agente da nova criação. Cristo vem
cumprir o propósito que Adão não conseguiu levar adiante: viver em perfeita
comunhão com Deus, em santidade e obediência plena.
Jesus não apenas veio
perdoar, mas gerar filhos semelhantes a Ele. A essência do evangelho é a
reprodução da imagem de Cristo nos que creem. Por isso, a Escritura afirma que
Deus “aos que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à
imagem de seu Filho” (Rm 8.29). O alvo do novo nascimento não é apenas
livrar o homem da condenação, mas conduzi-lo à conformidade com Cristo,
restaurando nele o propósito original de Deus.
Essa nova vida se expressa
de maneira prática. “Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele
andou” (1Jo 2.6). Não se trata de imitação superficial, mas de uma vida
moldada pelo caráter de Cristo. Paulo reforça esse princípio ao dizer: “Sede
meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co 11.1), e exorta os
crentes a terem “o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fp
2.5). A nova natureza se manifesta em novos desejos, novas prioridades e
uma nova maneira de viver.
Entretanto, é fundamental
compreender que o novo nascimento não elimina automaticamente a velha natureza.
A natureza pecaminosa da carne permanece presente enquanto vivemos neste corpo.
Por isso, muitos que duvidam da autenticidade de sua experiência espiritual
acabam se confundindo ao perceberem lutas internas e inclinações antigas. O
problema não está na inexistência da nova natureza, mas no conflito entre o que
é da carne e o que é do Espírito.
O novo nascimento não apaga
a velha natureza, mas introduz uma nova realidade espiritual que agora governa
a vida daquele que se rende ao Espírito Santo. A vitória cristã não consiste na
ausência de conflitos, mas em aprender a viver segundo a nova natureza recebida
em Cristo. Assim, o crente é chamado diariamente a negar a carne e a permitir
que a vida de Cristo se manifeste nele, até que a imagem do Filho seja
plenamente formada.






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