A fé que agrada a Deus nem sempre atrai multidões


Vladimir Chaves

A Bíblia nos mostra que existe um padrão que se repete ao longo da história: quando o coração do homem se afasta de Deus, a verdade passa a incomodar.

Em 2 Timóteo 4:3, Paulo alerta que chegaria um tempo em que as pessoas não suportariam a sã doutrina. Não é que a Palavra deixaria de existir, mas que o desejo de ouvi-la desapareceria. Em seu lugar, surgiria a busca por mensagens que agradam, confortam e confirmam vontades pessoais.

Esse mesmo alerta aparece em Atos 20, quando Paulo se despede dos líderes da igreja de Éfeso. Ele afirma, com lágrimas, que lobos ferozes surgiriam, até mesmo de dentro da própria comunidade, distorcendo a verdade para atrair discípulos. O perigo não estava apenas fora, mas no abandono silencioso da fidelidade à Palavra.

Muito antes disso, o profeta Isaías já havia descrito esse comportamento. Em Isaías 30, o povo pede aos profetas que não falem o que é reto, mas que anunciem coisas agradáveis. Eles preferem ilusões à verdade. É como se dissessem: “Não nos confrontem, não nos chamem ao arrependimento, apenas nos façam sentir bem.”

Já em Amós 8, Deus revela uma consequência ainda mais séria: viria um tempo de fome, não de pão ou de água, mas fome de ouvir a Palavra do Senhor. As pessoas correriam de um lado para o outro procurando a mensagem de Deus, mas não a encontrariam. Não porque Deus se calou primeiro, mas porque a rejeitaram quando Ele falou.

Ao olharmos para os nossos dias, esse cenário se torna ainda mais evidente. Igrejas que permanecem firmes na exposição fiel das Escrituras muitas vezes se veem quase vazias, enquanto congregações que prometem apenas fartura, sucesso, prosperidade e bênçãos sem arrependimento ficam cheias. Não é a fé que cresce, mas a expectativa de benefícios pessoais.

O mesmo acontece com a música. Cânticos profundamente bíblicos, que exaltam a cruz, o arrependimento e a santidade, dão lugar a músicas sem conteúdo bíblico, algumas com linguagem, valores e espírito tão próximos do mundo que mal se distinguem do que é tocado fora da igreja. Ainda assim, esses louvores atraem multidões, porque emocionam, entretêm e agradam; mas não edificam.

Isso não é apenas uma questão de estilo, mas de mensagem. Quando a Palavra deixa de ser central, o culto passa a girar em torno do homem, de suas emoções e desejos. O resultado é uma fé barulhenta, porém rasa; animada, porém frágil; cheia de promessas, mas vazia de cruz.

Resumindo:

O problema nunca foi a falta de voz de Deus, mas a falta de disposição do homem para ouvir.

Onde a verdade é substituída por entretenimento, a igreja pode até lotar, mas o discipulado desaparece.

Onde não há correção, não há crescimento. Onde não há confronto, não há transformação.

Essas passagens nos chamam à reflexão pessoal e coletiva:

Estamos buscando a Palavra que nos transforma ou apenas a que nos agrada?

Queremos uma igreja cheia de pessoas ou cheia da presença de Deus?

A sã doutrina pode confrontar, mas também cura. Pode ferir o orgulho, mas salva a alma.

Ela não foi dada para agradar os ouvidos, mas para endireitar o coração.

Permanecer na verdade, mesmo quando ela não atrai multidões, é sinal de fidelidade a Cristo.

Melhor uma igreja pequena e fiel à Palavra do que grandes ajuntamentos vazios da verdade.

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