Deus meu, Deus meu: uma profecia cumprida na cruz


Vladimir Chaves

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que se acham longe de minha salvação as palavras de meu bramido?Salmo 22:1

Há palavras na Bíblia que atravessam os séculos e encontram seu pleno significado em outro momento da história. O Salmo 22 é um desses textos.

Davi começa com um profundo clamor: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. À primeira vista, parecem palavras de alguém tomado pela dor e pela sensação de abandono. Porém, diante dos acontecimentos da crucificação, percebemos algo muito maior.

Séculos depois, pendurado na cruz, Jesus pronunciou palavras praticamente idênticas:

“Eli, Eli, lemá sabactâni?”

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Mateus 27:46

Marcos também registra:

“Eloí, Eloí, lamá sabactâni?”

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Marcos 15:34

Não foi apenas uma coincidência. Jesus estava vivendo, diante dos olhos das pessoas, aquilo que havia sido anunciado no Salmo 22.

A dor de Cristo já estava anunciada

O Salmo 22 apresenta acontecimentos impressionantes relacionados ao sofrimento do Messias.

O salmista fala de zombaria: “Todos os que me veem zombam de mim...” Salmo 22:7

Na cruz, Jesus também foi ridicularizado.

O salmo declara: “Confiou no Senhor! Livre-o ele...” Salmo 22:8

E, durante a crucificação, aqueles que estavam ao redor de Jesus zombavam de sua confiança em Deus.

Mais adiante encontramos outra imagem impressionante:

“Repartem entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica deitam sortes.” Salmo 22:18

Séculos depois, os soldados fizeram exatamente isso com as roupas de Jesus.

Quando colocamos essas passagens lado a lado, percebemos que o Salmo 22 não é apenas um lamento sobre sofrimento. Ele aponta para algo que encontraria sua expressão plena na cruz.

“Por que me desamparaste?”

Talvez esta seja uma das frases mais difíceis de compreender.

Jesus, o Filho de Deus, clama: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”

Isso não significa que Jesus tivesse deixado de confiar no Pai.

Observe a primeira palavra: “Deus meu”.

Mesmo no momento mais profundo de sua agonia, Jesus se dirige a Deus como “meu Deus”. Existe dor, mas também confiança; existe sofrimento, mas não abandono da fé.

Em meio à escuridão da cruz, Jesus estava apontando para o Salmo 22, mostrando que aquilo que acontecia fazia parte do propósito de Deus.

A cruz não foi um acidente, nem a crucificação uma derrota. A cruz fazia parte do plano de redenção.

O sofrimento não significava que Deus havia perdido o controle. Pelo contrário: na cruz, Deus realizava aquilo que havia sido anunciado nas Escrituras.

O que para os homens parecia fracasso, para Deus era redenção. O que parecia derrota era o caminho para a vitória.

Do clamor ao louvor

Existe algo muito importante no Salmo 22: ele começa com um grito de angústia: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”

Mas não termina no desespero.

Ao longo do salmo, a esperança volta a aparecer, e o texto termina exaltando a fidelidade de Deus. Isso nos ensina uma grande verdade: a dor não é o capítulo final para quem confia em Deus.

A cruz teve o sofrimento da sexta-feira, mas não terminou ali.

Veio a ressurreição.

Por isso, quando Jesus pronuncia as palavras do Salmo 22 na cruz, devemos olhar não apenas para a dor daquele momento, mas também para aquilo que estava sendo realizado através dela.

Uma palavra para nós

Talvez existam momentos em nossa vida em que também perguntamos: “Deus meu, por que isso está acontecendo?”

Há momentos em que oramos e parece que Deus está em silêncio. A dor pode ser tão grande que não conseguimos enxergar o propósito.

Mas o Salmo 22 nos ensina que podemos levar nossa dor a Deus sem abandonar nossa confiança.

Jesus também passou pelo sofrimento, experimentou a angústia e clamou.

Mas a história não terminou na cruz. A cruz foi o caminho para a ressurreição.

Assim também, aquilo que hoje parece incompreensível pode não ser o fim da história.

Quando Jesus disse: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”

Ele não estava apenas expressando a profundidade de seu sofrimento. Suas palavras também nos levam de volta ao Salmo 22, que descreve de maneira extraordinária aspectos do sofrimento que seriam vistos na crucificação.

O Salmo 22 aponta para a cruz.

A cruz aponta para a redenção.

E a ressurreição revela que o sofrimento não teve a palavra final.

Por isso, quando passarmos por momentos de dor, podemos aprender com Cristo: podemos chorar, perguntar e sentir a angústia, mas ainda podemos dizer: “Deus meu.”

Porque, mesmo quando não entendemos o caminho, Deus continua sendo Deus.

E aquele que transforma a cruz em ressurreição também pode transformar nossas lágrimas em testemunho, nossa dor em aprendizado e nossa noite em uma manhã de esperança.

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