É triste, e, mais do que
triste, alarmante perceber a desmotivação que vem atingindo muitas Escolas
Bíblicas Dominicais. Há especialistas, pesquisas, métodos pedagógicos e
inúmeras explicações para tentar identificar as causas desse problema. Fala-se
sobre falta de estrutura, ausência de incentivo, mudanças culturais, rotina das
famílias, falta de formação dos professores e tantas outras questões.
Tudo isso pode ter sua
parcela de responsabilidade. Mas existe uma causa que precisa ser encarada com
seriedade: o afastamento da própria Bíblia da sala de aula.
Em alguns lugares, a cena
parece contraditória: fecham-se as Bíblias e abrem-se as revistas. A revista
passa a ocupar o lugar que deveria pertencer às Escrituras. Ela deixa de ser
uma ferramenta auxiliar e passa a ser, na prática, a principal fonte do ensino.
E aqui está um problema
fundamental: a revista pode orientar o estudo, mas não pode substituir a
Palavra de Deus.
“Examinais as Escrituras,
porque vós julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de
mim.” João 5:39
Jesus não mandou seus
discípulos examinarem revistas, comentários ou materiais didáticos. Ele apontou
para as Escrituras.
A revista é instrumento; a
Bíblia é fundamento
Não há problema algum em
utilizar uma boa revista de Escola Bíblica. Pelo contrário, um material bem
elaborado pode organizar temas, apresentar perguntas, oferecer subsídios e
ajudar o professor a conduzir a aula.
O problema começa quando o
instrumento toma o lugar da fonte.
Uma revista pode explicar um
texto bíblico, mas não possui autoridade superior à Escritura. Um comentário
pode ajudar na compreensão, mas não substitui o texto inspirado. Um professor
pode possuir experiência, conhecimento e boa comunicação, mas sua autoridade no
ensino cristão precisa estar submetida à Palavra de Deus.
Paulo escreveu: “Toda a
Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir,
para corrigir, para instruir em justiça.” 2 Timóteo 3:16
Observe a profundidade dessa
afirmação. A Escritura é útil para ensinar, corrigir, repreender e instruir.
Portanto, se queremos recuperar a qualidade espiritual da Escola Bíblica,
precisamos recuperar também aquilo que deveria estar no centro dela: a Palavra
de Deus.
O professor precisa ser,
antes de tudo, um estudante da Bíblia
Existe uma pergunta que
precisamos fazer com honestidade: como alguém pode ensinar aquilo que não
estuda?
Não basta possuir uma
revista nas mãos. Não basta saber acompanhar os tópicos da lição. Não basta ler
os comentários preparados por outra pessoa.
O professor da Escola
Bíblica Dominical precisa ser alguém que ama a Palavra e procura conhecê-la.
A Bíblia diz: “Procura
apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar,
que maneja bem a palavra da verdade.” 2 Timóteo 2:15
“Manejar bem a palavra da
verdade” exige estudo.
Não é simplesmente abrir a
revista alguns minutos antes da aula. É ler o texto bíblico, compreender seu
contexto, comparar Escritura com Escritura, observar personagens,
acontecimentos, doutrinas, princípios e aplicações.
Para ensinar melhor,
precisamos estudar mais a Palavra.
Quanto menos o professor
estuda a Bíblia, mais dependente fica da revista. E quanto mais dependente fica
da revista, maior é o risco de transformar a aula bíblica em uma simples
leitura de conteúdo didático.
A tecnologia pode ser uma
grande aliada.
Mas existe uma diferença
entre usar a tecnologia para estudar a Bíblia e usar a tecnologia para não
estudar a Bíblia.
Quando o professor passa
toda a aula olhando para uma tela de celular ou tablet e praticamente não abre
a Bíblia, algo precisa ser questionado.
O problema não é o aparelho.
O problema é aquilo que ele representa quando a Palavra deixa de ocupar o
centro.
Imagine uma aula de
matemática em que o professor apresenta apenas o comentário sobre uma fórmula,
mas nunca mostra a fórmula. Imagine uma aula de história em que o professor só
lê um resumo e nunca apresenta os fatos históricos. Agora imagine uma Escola
Bíblica em que se fala durante quase uma hora sobre determinado assunto, mas a
Bíblia permanece fechada.
Precisamos perguntar: isso
ainda é uma Escola Bíblica ou apenas uma aula sobre religião?
O aluno também precisa levar
a Bíblia para a sala
Outro sinal preocupante é
quando o aluno chega à Escola Bíblica apenas com a revista.
A revista pode estar na mão,
mas a Bíblia deveria estar no coração e, também, aberta diante dos olhos.
O salmista declarou: “Lâmpada
para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho.” Salmos 119:105
A Escola Bíblica deveria
ensinar o aluno a encontrar essa luz diretamente nas Escrituras.
O aluno precisa aprender a
procurar o texto. Precisa aprender a ler o contexto. Precisa aprender a
comparar passagens. Precisa aprender a fazer perguntas ao texto bíblico.
Se durante anos ensinarem o
aluno a depender exclusivamente da revista, estarão produzindo uma geração que
conhece a lição, mas não conhece a Bíblia.
E essa diferença é enorme.
Não podemos formar cristãos
que conhecem a revista, mas desconhecem as Escrituras
Talvez uma das maiores
crises da igreja contemporânea não seja a falta de informação, mas a falta de
conhecimento bíblico profundo.
Há pessoas que frequentam
cultos há décadas, conhecem cânticos, frases religiosas e determinados
personagens bíblicos, mas têm dificuldade para localizar livros, compreender
contextos e explicar doutrinas fundamentais das Escrituras.
Isso deveria nos preocupar.
O profeta Oséias registrou
uma palavra duríssima:
“O meu povo foi destruído,
porque lhe faltou o conhecimento.” Oséias 4:6
O contexto imediato dessa
passagem trata do conhecimento relacionado a Deus e à sua lei. Isso nos lembra
de uma verdade que continua extremamente atual: ignorância espiritual não é uma
questão pequena.
Uma igreja biblicamente
fraca torna-se vulnerável a qualquer vento de doutrina.
Paulo advertiu: “Para que
não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao
redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia dos
que induzem ao erro.” Efésios 4:14
A Escola Bíblica tem uma
responsabilidade gigantesca nesse processo de amadurecimento.
Ler a Bíblia no púlpito não
é o mesmo que estudar a Bíblia
Também precisamos fazer uma
distinção importante.
Uma pessoa pode ler vários
versículos durante uma aula e, ainda assim, não estar ensinando profundamente
as Escrituras.
Ler a Bíblia é diferente de
estudar a Bíblia.
Estudar significa perguntar:
O que esse texto diz?
Para quem foi escrito?
Qual era o contexto?
O que significa?
Como esse texto se relaciona
com outras passagens?
O que ele revela sobre Deus?
Que princípio espiritual
apresenta?
Como devemos aplicá-lo à
nossa vida?
Neemias apresenta um belo
exemplo: “Leram no livro, na Lei de Deus, claramente; dando explicações, de
maneira que entendessem o que se lia.” Neemias 8:8
Aqui encontramos um princípio extraordinário: ler e dar o sentido para que o povo compreenda.
Essa deveria ser uma das
grandes missões da Escola Bíblica Dominical.
Não basta colocar a Bíblia
sobre a mesa. É necessário abrir, ler, compreender e aplicar.
Professores precisam voltar
a ser alunos
Talvez uma das maiores
necessidades da Escola Bíblica seja esta: o professor precisa voltar a ser
aluno da Bíblia.
Quem ensina não pode parar
de aprender.
O conhecimento bíblico não é
adquirido por transferência automática. Não existe revista capaz de compensar
completamente a ausência de estudo pessoal.
O professor precisa separar
tempo para ler a Bíblia.
Precisa meditar.
Precisa fazer perguntas.
Precisa pesquisar.
Precisa comparar textos.
Precisa reconhecer quando
não sabe.
Precisa ter humildade para
dizer: “Eu não sei, vamos estudar.”
Isso não diminui o
professor. Pelo contrário, demonstra maturidade.
Jesus disse: “Tomai sobre
vós o meu julgo e aprendei de mim.” Mateus 11:29
O discípulo é alguém que
continua aprendendo.
A desmotivação talvez seja
também um sintoma
Talvez este seja o ponto
mais profundo de toda essa reflexão.
Será que estamos perguntando
apenas por que os alunos estão desmotivados?
Ou estamos perguntando
também se estamos oferecendo a eles aquilo que deveria motivá-los?
A Palavra de Deus é viva.
“Porque a palavra de Deus é
viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes.” Hebreus
4:12
Quando a Bíblia é ensinada
com fidelidade, clareza e aplicação, ela confronta, consola, corrige,
transforma e desperta fome espiritual.
Talvez parte da solução para
a crise da Escola Bíblica não esteja em criar cada vez mais novidades, mas em
voltar ao básico.
Voltar à Bíblia.
Voltar ao estudo.
Voltar à oração.
Voltar à preparação.
Voltar à reverência.
Voltar à disposição de
aprender.
Não precisamos abandonar a
revista; precisamos colocá-la no lugar certo
É importante deixar claro: o
problema não é a revista da Escola Bíblica Dominical.
O problema é quando ela
deixa de ser ferramenta e passa a ser fundamento.
A revista deve ajudar o
professor a chegar à Bíblia, não impedir que ele chegue a ela.
Ela deve abrir caminhos para
as Escrituras, estimular perguntas, organizar conteúdos e auxiliar na
preparação.
Mas, no momento em que a
revista é fechada, a Bíblia não pode ser fechada junto.
O professor deveria chegar à
aula tendo estudado muito mais do que aquilo que está escrito na revista.
Se a revista possui quatro
páginas sobre determinado tema, o professor deveria ter disposição para estudar
dezenas de páginas da Bíblia relacionadas ao assunto.
Porque a revista prepara a
aula; a Bíblia prepara o professor.
Precisamos recuperar o
prazer de abrir a Bíblia
Talvez o maior desafio não
seja simplesmente fazer professores e alunos carregarem uma Bíblia para a sala.
É fazer com que eles tenham
fome da Palavra.
Pedro escreveu: “Desejai
ardentemente, como criança recém-nascida, o genuíno leite espiritual, para que,
vos seja dado crescimento de salvação.” 1 Pedro 2:2
A Bíblia não deveria ser um
objeto obrigatório levado para o culto. Ela deveria ser alimento desejado.
Quando a igreja perde o
prazer de estudar a Palavra, começa a procurar substitutos.
Mais entretenimento.
Mais recursos.
Mais apresentações.
Mais novidades.
Mais conteúdos prontos.
Mas nenhuma ferramenta
humana consegue ocupar o lugar da Palavra de Deus.
Uma mudança precisa começar
Talvez seja necessário
recuperar uma prática simples: professor, antes de preparar a aula, prepare-se
diante da Bíblia.
Leia o texto.
Ore sobre o texto.
Estude o texto.
Procure compreender o texto.
Deixe o texto confrontar
você primeiro.
Só depois pense em como
ensiná-lo aos outros.
Esdras nos oferece um
princípio precioso:
“Porque Esdras tinha disposto
o coração para buscar a Lei do Senhor, e para a cumprir, e para ensinar...” Esdras
7:10
Observe a ordem:
buscar - cumprir - ensinar.
Essa sequência é
fundamental.
Primeiro, o professor busca.
Depois, vive.
Então, ensina.
Não podemos ensinar aquilo
que não queremos aprender e muito menos ensinar aquilo que não estamos
dispostos a viver.
Enfim: precisamos abrir
novamente as Bíblias
A crise da Escola Bíblica
Dominical não será resolvida apenas com novas metodologias.
Metodologias são
importantes.
Recursos são importantes.
Revistas são importantes.
Tecnologia pode ser útil.
Mas existe algo que não pode
ser substituído: a Palavra de Deus.
Precisamos voltar a abrir
nossas Bíblias.
Precisamos ensinar nossos
filhos a abrir suas Bíblias.
Precisamos ensinar nossos
jovens a estudar suas Bíblias.
Precisamos desafiar nossos
adultos a conhecer profundamente suas Bíblias.
E precisamos lembrar aos
professores que ninguém deveria assumir a responsabilidade de ensinar a Bíblia
sem primeiro assumir o compromisso de estudá-la.
A Escola Bíblica Dominical
precisa voltar a ser um lugar onde a Bíblia é aberta, lida, explicada,
compreendida, discutida e aplicada.
Porque quando fechamos a
Bíblia e abrimos apenas a revista, corremos o risco de formar alunos
dependentes de material.
Mas quando abrimos a Bíblia
e usamos a revista como instrumento, podemos formar discípulos que aprendem a
pensar biblicamente e a caminhar pela verdade das Escrituras.
Jesus declarou: “E
conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8:32
Portanto, talvez a pergunta
mais importante que a Escola Bíblica precise fazer hoje não seja:
“Por que nossos alunos estão
desmotivados?”
Mas: “Será que estamos
colocando diante deles aquilo que realmente pode despertar fome e sede pela
Palavra de Deus?”
Que nossas Bíblias voltem a
ser abertas.
Que nossos professores
voltem a estudar.
Que nossos alunos voltem a
pesquisar.
Que nossas classes voltem a
mergulhar nas Escrituras.
E que a Escola Bíblica
Dominical volte a cumprir aquilo que seu próprio nome anuncia: ser uma escola
onde se aprende a Bíblia.
“Santifica-os na verdade; a
tua palavra é a verdade.” João 17:17





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