Igrejas com gula de entretenimento e desnutrida de Palavra


Vladimir Chaves

“Desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação.” 1 Pedro 2:2

Há igrejas que desenvolveram um apetite desproporcional pelo entretenimento, e proporcional a isso o desinteresse pela Palavra de Deus. Cultos são cuidadosamente planejados para emocionar, músicas são preparadas para envolver e atividades se multiplicam para manter as pessoas ocupadas. Entretanto, quando chega o momento de abrir as Escrituras e ensinar com profundidade, falta tempo, disposição e, algumas vezes, até interesse.

O problema não está na criatividade, na música, na tecnologia ou nos recursos utilizados pela igreja. Tudo isso pode servir ao evangelho. O problema surge quando o recurso se torna o centro e o entretenimento passa a ocupar o lugar que deveria pertencer à Palavra.

A igreja não foi chamada para entreter pessoas, mas para formar discípulos.

Jesus ordenou: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações...” (Mateus 28:19)

Fazer discípulos exige ensino, conhecimento das Escrituras, oração, arrependimento e compromisso com Cristo. Uma multidão pode ser atraída por aquilo que emociona ou diverte; discípulos permanecem porque compreenderam quem Cristo é e decidiram segui-lo, inclusive quando o caminho exige renúncia.

Isso fica evidente em João 6. Depois de ouvir um ensinamento difícil, muitos abandonaram Jesus. Ele não correu atrás da multidão para suavizar sua mensagem.

Perguntou aos discípulos: “Quereis também vós outros retirar-vos?” (João 6:67)

Pedro respondeu: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna.” (João 6:68)

Essa é a diferença entre uma fé sustentada pelo estímulo e uma fé fundamentada na verdade. O entretenimento pode produzir entusiasmo; a Palavra produz fundamento. Pode provocar aplausos, mas não necessariamente transformação. Pode encher um ambiente, mas não necessariamente o coração.

Paulo advertiu que chegaria um tempo em que muitos não suportariam a sã doutrina e procurariam mestres dispostos a dizer aquilo que desejavam ouvir (2Tm 4:3-4). Quando a igreja adapta sua mensagem apenas para não desagradar, corre o risco de trocar a verdade pela conveniência.

É possível ter uma agenda cheia e uma vida espiritual vazia. Pessoas podem conhecer dezenas de músicas, viver dentro de uma igreja, acompanhar pregadores e compartilhar frases religiosas, mas continuar desconhecendo os fundamentos da própria fé.

Por isso, a igreja precisa recuperar o prazer pelas Escrituras. Jesus declarou: “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.” (Mateus 4:4)

Se a Palavra é alimento, uma igreja que pouco a conhece é espiritualmente subnutrida. E quem não conhece as Escrituras torna-se vulnerável a qualquer discurso religioso.

A solução não é eliminar a alegria, a criatividade ou os recursos. É colocá-los no devido lugar. O culto pode ser excelente sem se transformar em espetáculo; a música pode emocionar sem substituir a mensagem; a tecnologia pode ajudar sem ocupar o centro.

Uma geração que recebe muito entretenimento, mas pouco ensino bíblico, pode permanecer dentro da igreja e, ainda assim, não estar preparada para enfrentar crises, tentações e falsos ensinamentos.

A igreja precisa recuperar o apetite pela Palavra, trocar a superficialidade pela profundidade e devolver a Cristo o centro de tudo.

Entretenimento pode prender a atenção por algumas horas. A Palavra de Deus, porém, transforma a vida e conduz o discípulo à maturidade

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