Fé Cristã: quando a oração pede uma coisa, mas o voto escolhe outra


Vladimir Chaves

Existe uma contradição que precisa ser encarada com honestidade dentro da igreja: não faz sentido pedir a Deus que transforme as consequências de escolhas que, conscientemente, ajudamos a promover. A fé cristã não pode se limitar às palavras que pronunciamos dentro do templo; ela precisa alcançar nossas decisões, nossos valores e também a maneira como exercemos nossa cidadania.

Imagine alguém que pede à igreja: “Orem pelo meu filho, ele está escravizado pelas drogas”. A igreja ora, jejua e clama pela libertação daquele jovem. Entretanto, essa mesma pessoa apoia politicamente quem defende políticas de legalização das drogas. Há aí uma contradição absurda. Cabe perguntar: as escolhas que faço nas urnas são coerentes com aquilo que peço a Deus em oração?

O mesmo acontece quando alguém reclama da violência que tomou conta das ruas, teme pela segurança dos filhos e lamenta a impunidade, mas apoia políticos e partidos que relativizam a responsabilidade individual do criminoso ou adotam políticas que, na prática, enfraquecem o combate à criminalidade. Não é coerente transformar o criminoso em vítima e, ao mesmo tempo, esperar que Deus proteja a família das consequências de uma sociedade que não responsabiliza adequadamente quem pratica o mal.

Há ainda uma questão particularmente delicada: pais que choram porque uma filha adolescente engravidou e enfrentam todas as dificuldades emocionais, sociais e financeiras decorrentes disso, mas votam em candidatos que defendem projetos políticos e culturais incompatíveis com os valores que desejam transmitir aos próprios filhos. Novamente, a incoerência fala mais alto, e é preciso perguntar: quais valores estamos querendo que sejam ensinados na sociedade e nas instituições de ensino?

Também é contraditório alguém defender apaixonadamente a Bíblia dentro da igreja, julgar constantemente a fé dos irmãos e, ao mesmo tempo, votar em políticos que defendem a restrição da liberdade religiosa ou que tratam a Bíblia como algo que deve ser criminalizado. O cristão não pode exigir respeito pela própria fé e votar em políticos que desejam enfraquecer o direito dos cristãos de professá-la.

Da mesma maneira, quem sofre com o fracasso do casamento, lamenta a destruição da família e sente na própria pele as consequências de uma separação precisa refletir sobre quais concepções de família está ajudando a fortalecer por meio de suas escolhas nas urnas. E, novamente, a incoerência fala mais alto quando escolhe políticos que são contra o casamento tradicional.

E quando alguém reclama da precariedade da saúde, da educação, da corrupção e da má administração dos recursos públicos, mas continua votando em políticos envolvidos em escândalos ou práticas incompatíveis com aquilo que exige dos governantes, surge outra pergunta inevitável: por que toleramos no político aquilo que não toleramos no vizinho?

A questão central, portanto, não é simplesmente “em quem o cristão deve votar”. A Bíblia não apresenta uma lista de candidatos modernos nem transforma o voto em um sacramento. O ponto é muito mais profundo: o cristão precisa submeter suas escolhas aos princípios bíblicos que afirma professar.

A contradição também aparece quando o cristão visita orfanatos, hospitais e instituições de acolhimento, ora pelas crianças, pede a Deus que as proteja e se emociona diante do sofrimento infantil, mas, na esfera política, apoia candidatos que defendem o aborto. É preciso ter coerência: não se pode afirmar que toda vida é preciosa diante de Deus quando estamos diante de uma criança já nascida e, ao mesmo tempo, tratar como descartável a vida humana em sua fase mais vulnerável.

Se choramos pela criança que está no hospital, cuidamos do órfão e oramos pelo abandonado, precisamos também refletir seriamente sobre a vida que ainda está no ventre.

Jesus ensinou: “E por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo?” Lucas 6:46

Esse versículo toca diretamente na raiz do problema. Jesus confronta uma fé que reconhece sua autoridade apenas com os lábios, mas não se transforma em obediência. É possível dizer “Senhor, Senhor”, frequentar a igreja, participar de cultos, pedir oração e conhecer versículos e, ainda assim, viver de maneira incoerente com aquilo que se afirma crer.

Tiago também apresenta um princípio contundente:

“Tornai-vos, pois, praticantes da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.” Tiago 1:22

A fé bíblica não termina no discurso. Ela produz comportamento. Se a Palavra orienta nossos valores, esses valores precisam aparecer em nossas escolhas pessoais, familiares, profissionais e também na maneira como avaliamos aqueles que pretendemos colocar no poder.

Isso não significa transformar a igreja em palanque político. Igreja não é comitê eleitoral, pastor não é cabo eleitoral e o púlpito não deve ser transformado em instrumento de propaganda partidária. Mas também não significa que o cristão deva abandonar sua consciência bíblica quando entra na cabine de votação.

O voto é uma decisão de responsabilidade pública. Portanto, o cristão deveria avaliar candidatos e propostas à luz de critérios como verdade, honestidade, responsabilidade, defesa da vida, liberdade religiosa, justiça, responsabilidade fiscal, combate à corrupção, proteção da família e compromisso com o bem comum. Nenhum candidato será perfeito. Não existe político sem defeitos, e nenhum partido representa integralmente os princípios do Evangelho. Por isso, o cristão precisa exercer discernimento.

Não existe coerência em condenar o pecado quando ele está do lado que não apoiamos e justificá-lo quando está do lado que apoiamos. Se a corrupção é errada, continua sendo errada quando praticada pelo nosso candidato. Se a mentira é pecado, continua sendo pecado quando beneficia o nosso grupo político. Se a injustiça é condenável, continua sendo condenável quando favorece aqueles com quem simpatizamos.

O problema começa quando transformamos nossa preferência política em uma espécie de religião. Passamos a defender pessoas em vez de princípios, partidos em vez da verdade e líderes em vez de valores. Nesse momento, deixamos de avaliar a política pela Bíblia e começamos a interpretar a Bíblia pela política.

O cristão precisa recuperar uma coisa fundamental: coerência.

Não basta pedir oração pela família e depois apoiar tudo aquilo que enfraquece os valores que desejamos para ela.

Não basta lamentar a violência e ignorar políticas que promovem a impunidade.

Não basta chorar pelos filhos e permanecer indiferente aos valores que influenciam sua formação.

Não basta defender a Bíblia dentro da igreja e apoiar restrições à liberdade de expressão religiosa.

Não basta reclamar da corrupção e votar repetidamente em corruptos.

Não basta dizer que Deus é o Senhor e colocar nossas convicções políticas acima da Palavra.

A pergunta que o cristão deveria fazer antes de qualquer escolha não é apenas: “Qual político eu gosto?”, mas: “Quais valores estou ajudando a colocar em prática com a minha decisão?”

A oração é indispensável. Mas oração não substitui responsabilidade.

Pedimos a Deus que proteja nossos filhos, mas também precisamos escolher com sabedoria aquilo que defendemos. Pedimos segurança, mas também precisamos refletir sobre justiça e responsabilidade. Pedimos famílias fortes, mas precisamos valorizar o casamento e a formação moral dos filhos. Pedimos governantes honestos, mas precisamos rejeitar a corrupção independentemente de quem a pratique.

A verdadeira fé não é apenas aquilo que dizemos que acreditamos; é aquilo que estamos dispostos a viver quando nossas convicções são colocadas à prova.

O cristão não deve ter princípios apenas da boca para fora. Se afirma seguir Cristo, precisa buscar coerência entre aquilo que professa no templo, aquilo que ensina dentro de casa e aquilo que defende diante da sociedade.

Porque, no final, a pergunta não será apenas se levantamos as mãos no culto, se conhecemos muitos versículos ou se fizemos belas orações. Haverá também uma pergunta muito mais incômoda: nossas escolhas demonstraram que realmente levávamos a sério aquilo que dizíamos crer?

Fé verdadeira não é apenas discurso. Fé verdadeira produz escolhas.

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