Existe uma contradição que
precisa ser encarada com honestidade dentro da igreja: não faz sentido pedir a
Deus que transforme as consequências de escolhas que, conscientemente, ajudamos
a promover. A fé cristã não pode se limitar às palavras que pronunciamos dentro
do templo; ela precisa alcançar nossas decisões, nossos valores e também a
maneira como exercemos nossa cidadania.
Imagine alguém que pede à
igreja: “Orem pelo meu filho, ele está escravizado pelas drogas”. A igreja ora,
jejua e clama pela libertação daquele jovem. Entretanto, essa mesma pessoa
apoia politicamente quem defende políticas de legalização das drogas. Há aí uma
contradição absurda. Cabe perguntar: as escolhas que faço nas urnas são
coerentes com aquilo que peço a Deus em oração?
O mesmo acontece quando
alguém reclama da violência que tomou conta das ruas, teme pela segurança dos
filhos e lamenta a impunidade, mas apoia políticos e partidos que relativizam a
responsabilidade individual do criminoso ou adotam políticas que, na prática,
enfraquecem o combate à criminalidade. Não é coerente transformar o criminoso
em vítima e, ao mesmo tempo, esperar que Deus proteja a família das
consequências de uma sociedade que não responsabiliza adequadamente quem
pratica o mal.
Há ainda uma questão particularmente delicada: pais que choram porque uma filha adolescente engravidou e enfrentam todas as dificuldades emocionais, sociais e financeiras decorrentes disso, mas votam em candidatos que defendem projetos políticos e culturais incompatíveis com os valores que desejam transmitir aos próprios filhos. Novamente, a incoerência fala mais alto, e é preciso perguntar: quais valores estamos querendo que sejam ensinados na sociedade e nas instituições de ensino?
Também é contraditório
alguém defender apaixonadamente a Bíblia dentro da igreja, julgar
constantemente a fé dos irmãos e, ao mesmo tempo, votar em políticos que
defendem a restrição da liberdade religiosa ou que tratam a Bíblia como algo
que deve ser criminalizado. O cristão não pode exigir respeito pela própria fé
e votar em políticos que desejam enfraquecer o direito dos cristãos de
professá-la.
Da mesma maneira, quem sofre
com o fracasso do casamento, lamenta a destruição da família e sente na própria
pele as consequências de uma separação precisa refletir sobre quais concepções
de família está ajudando a fortalecer por meio de suas escolhas nas urnas. E,
novamente, a incoerência fala mais alto quando escolhe políticos que são contra
o casamento tradicional.
E quando alguém reclama da
precariedade da saúde, da educação, da corrupção e da má administração dos
recursos públicos, mas continua votando em políticos envolvidos em escândalos
ou práticas incompatíveis com aquilo que exige dos governantes, surge outra
pergunta inevitável: por que toleramos no político aquilo que não toleramos no
vizinho?
A questão central, portanto,
não é simplesmente “em quem o cristão deve votar”. A Bíblia não apresenta uma
lista de candidatos modernos nem transforma o voto em um sacramento. O ponto é
muito mais profundo: o cristão precisa submeter suas escolhas aos princípios
bíblicos que afirma professar.
A contradição também aparece
quando o cristão visita orfanatos, hospitais e instituições de acolhimento, ora
pelas crianças, pede a Deus que as proteja e se emociona diante do sofrimento
infantil, mas, na esfera política, apoia candidatos que defendem o aborto. É
preciso ter coerência: não se pode afirmar que toda vida é preciosa diante de
Deus quando estamos diante de uma criança já nascida e, ao mesmo tempo, tratar
como descartável a vida humana em sua fase mais vulnerável.
Se choramos pela criança que
está no hospital, cuidamos do órfão e oramos pelo abandonado, precisamos também
refletir seriamente sobre a vida que ainda está no ventre.
Jesus ensinou: “E por que me
chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo?” Lucas 6:46
Esse versículo toca
diretamente na raiz do problema. Jesus confronta uma fé que reconhece sua
autoridade apenas com os lábios, mas não se transforma em obediência. É
possível dizer “Senhor, Senhor”, frequentar a igreja, participar de cultos,
pedir oração e conhecer versículos e, ainda assim, viver de maneira incoerente
com aquilo que se afirma crer.
Tiago também apresenta um
princípio contundente:
“Tornai-vos, pois,
praticantes da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.” Tiago
1:22
A fé bíblica não termina no
discurso. Ela produz comportamento. Se a Palavra orienta nossos valores, esses
valores precisam aparecer em nossas escolhas pessoais, familiares,
profissionais e também na maneira como avaliamos aqueles que pretendemos
colocar no poder.
Isso não significa
transformar a igreja em palanque político. Igreja não é comitê eleitoral,
pastor não é cabo eleitoral e o púlpito não deve ser transformado em
instrumento de propaganda partidária. Mas também não significa que o cristão
deva abandonar sua consciência bíblica quando entra na cabine de votação.
O voto é uma decisão de
responsabilidade pública. Portanto, o cristão deveria avaliar candidatos e
propostas à luz de critérios como verdade, honestidade, responsabilidade,
defesa da vida, liberdade religiosa, justiça, responsabilidade fiscal, combate
à corrupção, proteção da família e compromisso com o bem comum. Nenhum
candidato será perfeito. Não existe político sem defeitos, e nenhum partido
representa integralmente os princípios do Evangelho. Por isso, o cristão
precisa exercer discernimento.
Não existe coerência em
condenar o pecado quando ele está do lado que não apoiamos e justificá-lo
quando está do lado que apoiamos. Se a corrupção é errada, continua sendo
errada quando praticada pelo nosso candidato. Se a mentira é pecado, continua
sendo pecado quando beneficia o nosso grupo político. Se a injustiça é
condenável, continua sendo condenável quando favorece aqueles com quem
simpatizamos.
O problema começa quando
transformamos nossa preferência política em uma espécie de religião. Passamos a
defender pessoas em vez de princípios, partidos em vez da verdade e líderes em
vez de valores. Nesse momento, deixamos de avaliar a política pela Bíblia e
começamos a interpretar a Bíblia pela política.
O cristão precisa recuperar
uma coisa fundamental: coerência.
Não basta pedir oração pela
família e depois apoiar tudo aquilo que enfraquece os valores que desejamos
para ela.
Não basta lamentar a
violência e ignorar políticas que promovem a impunidade.
Não basta chorar pelos
filhos e permanecer indiferente aos valores que influenciam sua formação.
Não basta defender a Bíblia
dentro da igreja e apoiar restrições à liberdade de expressão religiosa.
Não basta reclamar da
corrupção e votar repetidamente em corruptos.
Não basta dizer que Deus é o
Senhor e colocar nossas convicções políticas acima da Palavra.
A pergunta que o cristão
deveria fazer antes de qualquer escolha não é apenas: “Qual político eu
gosto?”, mas: “Quais valores estou ajudando a colocar em prática com a minha
decisão?”
A oração é indispensável.
Mas oração não substitui responsabilidade.
Pedimos a Deus que proteja
nossos filhos, mas também precisamos escolher com sabedoria aquilo que
defendemos. Pedimos segurança, mas também precisamos refletir sobre justiça e
responsabilidade. Pedimos famílias fortes, mas precisamos valorizar o casamento
e a formação moral dos filhos. Pedimos governantes honestos, mas precisamos
rejeitar a corrupção independentemente de quem a pratique.
A verdadeira fé não é apenas
aquilo que dizemos que acreditamos; é aquilo que estamos dispostos a viver
quando nossas convicções são colocadas à prova.
O cristão não deve ter
princípios apenas da boca para fora. Se afirma seguir Cristo, precisa buscar
coerência entre aquilo que professa no templo, aquilo que ensina dentro de casa
e aquilo que defende diante da sociedade.
Porque, no final, a pergunta
não será apenas se levantamos as mãos no culto, se conhecemos muitos versículos
ou se fizemos belas orações. Haverá também uma pergunta muito mais incômoda:
nossas escolhas demonstraram que realmente levávamos a sério aquilo que
dizíamos crer?
Fé verdadeira não é apenas
discurso. Fé verdadeira produz escolhas.






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