Existe uma contradição que
precisa ser dita, ainda que incomode.
“Ele é a cabeça do corpo, da
igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as
coisas ter a primazia” (Colossenses 1:18). Quando a igreja
substitui a autoridade, a centralidade e a primazia de Cristo por qualquer
outra coisa (seja um político, uma ideologia, um projeto religioso ou um
evento), ela continua parecendo uma igreja, mas já não é conduzida por sua
Cabeça.
Permanece o corpo, mas a
cabeça foi removida.
No Brasil, infelizmente,
isso já vem acontecendo há algum tempo. Em muitos púlpitos, Cristo tem sido
substituído por políticos fantasiados de cristãos, por ideologias e por
pregações que geram mais aplausos do que arrependimento.
Agora, com a Copa do Mundo,
parece que resolveram dobrar a aposta.
Deixo claro que a minha
preocupação não é com a Copa.
Futebol é esporte, cultura,
lazer e paixão de milhões de pessoas. Não há pecado em assistir a uma partida,
torcer pela seleção ou comemorar um gol. Condenar o futebol em si seria um
exagero que a própria Bíblia não me autoriza a fazer.
A minha preocupação é outra.
É ver igrejas que silenciam
diante das restrições da FIFA às manifestações cristãs dentro dos estádios, mas
que, ao mesmo tempo, abrem seus templos para a exibição dos jogos da Copa.
A FIFA pode até não aceitar
manifestações de fé; ela nunca recebeu a missão de anunciar o Evangelho.
A Igreja, sim.
O estádio nunca foi chamado
de casa de oração.
A Igreja, sim.
E Jesus declarou: “A
minha casa será chamada casa de oração” (Mateus 21:13).
Por isso, é impossível não
perceber a incoerência.
O mundo retira Cristo de
determinados ambientes e, agora, nós mesmos o retiramos do centro do culto para
dar lugar ao entretenimento deste mundo. O mais lamentável é que, além de não
reagirmos quando o nome de Jesus é silenciado nos estádios, ainda trazemos
voluntariamente esse espetáculo para dentro dos nossos templos.
A pergunta inevitável é: Quem
está ocupando o centro?
Porque, se Cristo é, de
fato, a Cabeça da Igreja, nenhum evento esportivo deveria ocupar o espaço que
pertence exclusivamente a Ele.
Mas há algo ainda mais
grave.
Nesta mesma Copa participam
países onde irmãos em Cristo enfrentam perseguição, discriminação e, em alguns
casos, prisão e morte por causa de sua fé. Entre eles estão Irã, Arábia
Saudita, Iraque, Argélia, Marrocos, Uzbequistão, República Democrática do
Congo, México, Tunísia, Turquia, Egito, Catar, Colômbia e Jordânia.
Enquanto discutimos
escalações, estatísticas e resultados, mais de 300 milhões de cristãos no mundo
vivem sob algum nível de perseguição nesses países.
Isso deveria nos
constranger.
O apóstolo Paulo escreveu: “De
maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele” (1 Coríntios 12:26).
A Igreja de Cristo é um só
corpo. O sofrimento de um irmão no Oriente Médio, na África ou na Ásia também
deveria ser o nosso sofrimento.
A maior oportunidade que uma
Copa do Mundo deveria oferecer à Igreja não é instalar telões nos templos, mas
lembrar ao povo de Deus que existem irmãos sendo presos, torturados,
discriminados e mortos simplesmente por fazerem aquilo que nós fazemos livremente:
reunir-se para adorar Jesus.
Enquanto alguns transformam
os templos em arquibancadas, milhões de cristãos dariam tudo para ter a
liberdade de entrar em uma igreja sem medo.
Enquanto alguns suspendem
cultos para acompanhar noventa minutos de futebol, há irmãos que caminham
horas, escondidos, apenas para participar de alguns minutos de oração.
Enquanto alguns discutem
quem levantará a taça, outros oram para não perder a própria vida por levantar
a Bíblia Sagrada.
A Escritura nos ordena: “Lembrai-vos
dos encarcerados, como se presos com eles, dos que sofrem maus-tratos, como se,
com efeito, vós mesmos em pessoa fôsseis os maltratados” (Hebreus 13:3).
Será que estamos nos
lembrando deles?
Ou nossa atenção foi
completamente absorvida pelo espetáculo?
Não se trata de condenar a
Copa.
Trata-se de não perder a
sensibilidade espiritual.
Não se trata de proibir o
futebol.
Trata-se de não permitir que
ele ocupe um lugar que pertence exclusivamente a Cristo.
Porque o maior problema da
Igreja nunca foi o mundo retirar Cristo de seus ambientes. O maior problema
sempre foi a própria Igreja retirar Cristo de dentro de casa.
Quando o entretenimento se
torna mais importante que a oração, quando a programação esportiva se torna
mais relevante que a adoração e quando o culto é tratado como algo negociável,
o problema já não está na FIFA nem na sociedade secular.
O problema está no altar.
O corpo pode sobreviver sem
alguns de seus membros, mas não pode sobreviver sem a sua cabeça. Da mesma
forma, uma igreja pode manter sua estrutura, seus programas e até suas
multidões, mas, se Cristo deixa de ser o centro, ela perde a própria razão de
existir.
A Bíblia encerra essa
discussão com uma afirmação poderosa: “Porque, onde está o teu tesouro, aí
estará também o teu coração” (Mateus 6:21).
A Copa passa.
Os campeões mudam.
As taças enferrujam.
Os estádios se esvaziam.
Mas Cristo permanece.
E o seu povo perseguido
continua precisando de nossas orações, de nossa solidariedade e de nossa voz.
É uma triste contradição
lamentar que o mundo silencie algumas expressões da fé cristã, enquanto nós
mesmos, por algumas horas, silenciamos a adoração e nos esquecemos daqueles que
pagam um preço altíssimo para confessar o nome de Jesus.
Talvez o maior gol que a
Igreja possa marcar durante uma Copa do Mundo seja este: lembrar que existe uma
Igreja perseguida e que, em qualquer lugar do planeta, o Corpo de Cristo sofre
junto, ora junto e permanece fiel ao seu Senhor.
Isso é milenar: a Igreja
nunca perde quando Cristo continua sendo a sua Cabeça. Mas, toda vez que o tira
do centro, ela perde tudo.






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