Quando a igreja troca Cristo pela Copa


Vladimir Chaves

Existe uma contradição que precisa ser dita, ainda que incomode.

“Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia” (Colossenses 1:18). Quando a igreja substitui a autoridade, a centralidade e a primazia de Cristo por qualquer outra coisa (seja um político, uma ideologia, um projeto religioso ou um evento), ela continua parecendo uma igreja, mas já não é conduzida por sua Cabeça.

Permanece o corpo, mas a cabeça foi removida.

No Brasil, infelizmente, isso já vem acontecendo há algum tempo. Em muitos púlpitos, Cristo tem sido substituído por políticos fantasiados de cristãos, por ideologias e por pregações que geram mais aplausos do que arrependimento.

Agora, com a Copa do Mundo, parece que resolveram dobrar a aposta.

Deixo claro que a minha preocupação não é com a Copa.

Futebol é esporte, cultura, lazer e paixão de milhões de pessoas. Não há pecado em assistir a uma partida, torcer pela seleção ou comemorar um gol. Condenar o futebol em si seria um exagero que a própria Bíblia não me autoriza a fazer.

A minha preocupação é outra.

É ver igrejas que silenciam diante das restrições da FIFA às manifestações cristãs dentro dos estádios, mas que, ao mesmo tempo, abrem seus templos para a exibição dos jogos da Copa.

A FIFA pode até não aceitar manifestações de fé; ela nunca recebeu a missão de anunciar o Evangelho.

A Igreja, sim.

O estádio nunca foi chamado de casa de oração.

A Igreja, sim.

E Jesus declarou: “A minha casa será chamada casa de oração” (Mateus 21:13).

Por isso, é impossível não perceber a incoerência.

O mundo retira Cristo de determinados ambientes e, agora, nós mesmos o retiramos do centro do culto para dar lugar ao entretenimento deste mundo. O mais lamentável é que, além de não reagirmos quando o nome de Jesus é silenciado nos estádios, ainda trazemos voluntariamente esse espetáculo para dentro dos nossos templos.

A pergunta inevitável é: Quem está ocupando o centro?

Porque, se Cristo é, de fato, a Cabeça da Igreja, nenhum evento esportivo deveria ocupar o espaço que pertence exclusivamente a Ele.

Mas há algo ainda mais grave.

Nesta mesma Copa participam países onde irmãos em Cristo enfrentam perseguição, discriminação e, em alguns casos, prisão e morte por causa de sua fé. Entre eles estão Irã, Arábia Saudita, Iraque, Argélia, Marrocos, Uzbequistão, República Democrática do Congo, México, Tunísia, Turquia, Egito, Catar, Colômbia e Jordânia.

Enquanto discutimos escalações, estatísticas e resultados, mais de 300 milhões de cristãos no mundo vivem sob algum nível de perseguição nesses países.

Isso deveria nos constranger.

O apóstolo Paulo escreveu: “De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele” (1 Coríntios 12:26).

A Igreja de Cristo é um só corpo. O sofrimento de um irmão no Oriente Médio, na África ou na Ásia também deveria ser o nosso sofrimento.

A maior oportunidade que uma Copa do Mundo deveria oferecer à Igreja não é instalar telões nos templos, mas lembrar ao povo de Deus que existem irmãos sendo presos, torturados, discriminados e mortos simplesmente por fazerem aquilo que nós fazemos livremente: reunir-se para adorar Jesus.

Enquanto alguns transformam os templos em arquibancadas, milhões de cristãos dariam tudo para ter a liberdade de entrar em uma igreja sem medo.

Enquanto alguns suspendem cultos para acompanhar noventa minutos de futebol, há irmãos que caminham horas, escondidos, apenas para participar de alguns minutos de oração.

Enquanto alguns discutem quem levantará a taça, outros oram para não perder a própria vida por levantar a Bíblia Sagrada.

A Escritura nos ordena: “Lembrai-vos dos encarcerados, como se presos com eles, dos que sofrem maus-tratos, como se, com efeito, vós mesmos em pessoa fôsseis os maltratados” (Hebreus 13:3).

Será que estamos nos lembrando deles?

Ou nossa atenção foi completamente absorvida pelo espetáculo?

Não se trata de condenar a Copa.

Trata-se de não perder a sensibilidade espiritual.

Não se trata de proibir o futebol.

Trata-se de não permitir que ele ocupe um lugar que pertence exclusivamente a Cristo.

Porque o maior problema da Igreja nunca foi o mundo retirar Cristo de seus ambientes. O maior problema sempre foi a própria Igreja retirar Cristo de dentro de casa.

Quando o entretenimento se torna mais importante que a oração, quando a programação esportiva se torna mais relevante que a adoração e quando o culto é tratado como algo negociável, o problema já não está na FIFA nem na sociedade secular.

O problema está no altar.

O corpo pode sobreviver sem alguns de seus membros, mas não pode sobreviver sem a sua cabeça. Da mesma forma, uma igreja pode manter sua estrutura, seus programas e até suas multidões, mas, se Cristo deixa de ser o centro, ela perde a própria razão de existir.

A Bíblia encerra essa discussão com uma afirmação poderosa: “Porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mateus 6:21).

A Copa passa.

Os campeões mudam.

As taças enferrujam.

Os estádios se esvaziam.

Mas Cristo permanece.

E o seu povo perseguido continua precisando de nossas orações, de nossa solidariedade e de nossa voz.

É uma triste contradição lamentar que o mundo silencie algumas expressões da fé cristã, enquanto nós mesmos, por algumas horas, silenciamos a adoração e nos esquecemos daqueles que pagam um preço altíssimo para confessar o nome de Jesus.

Talvez o maior gol que a Igreja possa marcar durante uma Copa do Mundo seja este: lembrar que existe uma Igreja perseguida e que, em qualquer lugar do planeta, o Corpo de Cristo sofre junto, ora junto e permanece fiel ao seu Senhor.

Isso é milenar: a Igreja nunca perde quando Cristo continua sendo a sua Cabeça. Mas, toda vez que o tira do centro, ela perde tudo.

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