Fé Cristã: quando a oração pede uma coisa, mas o voto escolhe outra


Vladimir Chaves

Existe uma contradição que precisa ser encarada com honestidade dentro da igreja: não faz sentido pedir a Deus que transforme as consequências de escolhas que, conscientemente, ajudamos a promover. A fé cristã não pode se limitar às palavras que pronunciamos dentro do templo; ela precisa alcançar nossas decisões, nossos valores e também a maneira como exercemos nossa cidadania.

Imagine alguém que pede à igreja: “Orem pelo meu filho, ele está escravizado pelas drogas”. A igreja ora, jejua e clama pela libertação daquele jovem. Entretanto, essa mesma pessoa apoia politicamente quem defende políticas de legalização das drogas. Há aí uma contradição absurda. Cabe perguntar: as escolhas que faço nas urnas são coerentes com aquilo que peço a Deus em oração?

O mesmo acontece quando alguém reclama da violência que tomou conta das ruas, teme pela segurança dos filhos e lamenta a impunidade, mas apoia políticos e partidos que relativizam a responsabilidade individual do criminoso ou adotam políticas que, na prática, enfraquecem o combate à criminalidade. Não é coerente transformar o criminoso em vítima e, ao mesmo tempo, esperar que Deus proteja a família das consequências de uma sociedade que não responsabiliza adequadamente quem pratica o mal.

Há ainda uma questão particularmente delicada: pais que choram porque uma filha adolescente engravidou e enfrentam todas as dificuldades emocionais, sociais e financeiras decorrentes disso, mas votam em candidatos que defendem projetos políticos e culturais incompatíveis com os valores que desejam transmitir aos próprios filhos. Novamente, a incoerência fala mais alto, e é preciso perguntar: quais valores estamos querendo que sejam ensinados na sociedade e nas instituições de ensino?

Também é contraditório alguém defender apaixonadamente a Bíblia dentro da igreja, julgar constantemente a fé dos irmãos e, ao mesmo tempo, votar em políticos que defendem a restrição da liberdade religiosa ou que tratam a Bíblia como algo que deve ser criminalizado. O cristão não pode exigir respeito pela própria fé e votar em políticos que desejam enfraquecer o direito dos cristãos de professá-la.

Da mesma maneira, quem sofre com o fracasso do casamento, lamenta a destruição da família e sente na própria pele as consequências de uma separação precisa refletir sobre quais concepções de família está ajudando a fortalecer por meio de suas escolhas nas urnas. E, novamente, a incoerência fala mais alto quando escolhe políticos que são contra o casamento tradicional.

E quando alguém reclama da precariedade da saúde, da educação, da corrupção e da má administração dos recursos públicos, mas continua votando em políticos envolvidos em escândalos ou práticas incompatíveis com aquilo que exige dos governantes, surge outra pergunta inevitável: por que toleramos no político aquilo que não toleramos no vizinho?

A questão central, portanto, não é simplesmente “em quem o cristão deve votar”. A Bíblia não apresenta uma lista de candidatos modernos nem transforma o voto em um sacramento. O ponto é muito mais profundo: o cristão precisa submeter suas escolhas aos princípios bíblicos que afirma professar.

A contradição também aparece quando o cristão visita orfanatos, hospitais e instituições de acolhimento, ora pelas crianças, pede a Deus que as proteja e se emociona diante do sofrimento infantil, mas, na esfera política, apoia candidatos que defendem o aborto. É preciso ter coerência: não se pode afirmar que toda vida é preciosa diante de Deus quando estamos diante de uma criança já nascida e, ao mesmo tempo, tratar como descartável a vida humana em sua fase mais vulnerável.

Se choramos pela criança que está no hospital, cuidamos do órfão e oramos pelo abandonado, precisamos também refletir seriamente sobre a vida que ainda está no ventre.

Jesus ensinou: “E por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo?” Lucas 6:46

Esse versículo toca diretamente na raiz do problema. Jesus confronta uma fé que reconhece sua autoridade apenas com os lábios, mas não se transforma em obediência. É possível dizer “Senhor, Senhor”, frequentar a igreja, participar de cultos, pedir oração e conhecer versículos e, ainda assim, viver de maneira incoerente com aquilo que se afirma crer.

Tiago também apresenta um princípio contundente:

“Tornai-vos, pois, praticantes da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.” Tiago 1:22

A fé bíblica não termina no discurso. Ela produz comportamento. Se a Palavra orienta nossos valores, esses valores precisam aparecer em nossas escolhas pessoais, familiares, profissionais e também na maneira como avaliamos aqueles que pretendemos colocar no poder.

Isso não significa transformar a igreja em palanque político. Igreja não é comitê eleitoral, pastor não é cabo eleitoral e o púlpito não deve ser transformado em instrumento de propaganda partidária. Mas também não significa que o cristão deva abandonar sua consciência bíblica quando entra na cabine de votação.

O voto é uma decisão de responsabilidade pública. Portanto, o cristão deveria avaliar candidatos e propostas à luz de critérios como verdade, honestidade, responsabilidade, defesa da vida, liberdade religiosa, justiça, responsabilidade fiscal, combate à corrupção, proteção da família e compromisso com o bem comum. Nenhum candidato será perfeito. Não existe político sem defeitos, e nenhum partido representa integralmente os princípios do Evangelho. Por isso, o cristão precisa exercer discernimento.

Não existe coerência em condenar o pecado quando ele está do lado que não apoiamos e justificá-lo quando está do lado que apoiamos. Se a corrupção é errada, continua sendo errada quando praticada pelo nosso candidato. Se a mentira é pecado, continua sendo pecado quando beneficia o nosso grupo político. Se a injustiça é condenável, continua sendo condenável quando favorece aqueles com quem simpatizamos.

O problema começa quando transformamos nossa preferência política em uma espécie de religião. Passamos a defender pessoas em vez de princípios, partidos em vez da verdade e líderes em vez de valores. Nesse momento, deixamos de avaliar a política pela Bíblia e começamos a interpretar a Bíblia pela política.

O cristão precisa recuperar uma coisa fundamental: coerência.

Não basta pedir oração pela família e depois apoiar tudo aquilo que enfraquece os valores que desejamos para ela.

Não basta lamentar a violência e ignorar políticas que promovem a impunidade.

Não basta chorar pelos filhos e permanecer indiferente aos valores que influenciam sua formação.

Não basta defender a Bíblia dentro da igreja e apoiar restrições à liberdade de expressão religiosa.

Não basta reclamar da corrupção e votar repetidamente em corruptos.

Não basta dizer que Deus é o Senhor e colocar nossas convicções políticas acima da Palavra.

A pergunta que o cristão deveria fazer antes de qualquer escolha não é apenas: “Qual político eu gosto?”, mas: “Quais valores estou ajudando a colocar em prática com a minha decisão?”

A oração é indispensável. Mas oração não substitui responsabilidade.

Pedimos a Deus que proteja nossos filhos, mas também precisamos escolher com sabedoria aquilo que defendemos. Pedimos segurança, mas também precisamos refletir sobre justiça e responsabilidade. Pedimos famílias fortes, mas precisamos valorizar o casamento e a formação moral dos filhos. Pedimos governantes honestos, mas precisamos rejeitar a corrupção independentemente de quem a pratique.

A verdadeira fé não é apenas aquilo que dizemos que acreditamos; é aquilo que estamos dispostos a viver quando nossas convicções são colocadas à prova.

O cristão não deve ter princípios apenas da boca para fora. Se afirma seguir Cristo, precisa buscar coerência entre aquilo que professa no templo, aquilo que ensina dentro de casa e aquilo que defende diante da sociedade.

Porque, no final, a pergunta não será apenas se levantamos as mãos no culto, se conhecemos muitos versículos ou se fizemos belas orações. Haverá também uma pergunta muito mais incômoda: nossas escolhas demonstraram que realmente levávamos a sério aquilo que dizíamos crer?

Fé verdadeira não é apenas discurso. Fé verdadeira produz escolhas.

domingo, 23 de agosto de 2026

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Igrejas com gula de entretenimento e desnutrida de Palavra


Vladimir Chaves

“Desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação.” 1 Pedro 2:2

Há igrejas que desenvolveram um apetite desproporcional pelo entretenimento, e proporcional a isso o desinteresse pela Palavra de Deus. Cultos são cuidadosamente planejados para emocionar, músicas são preparadas para envolver e atividades se multiplicam para manter as pessoas ocupadas. Entretanto, quando chega o momento de abrir as Escrituras e ensinar com profundidade, falta tempo, disposição e, algumas vezes, até interesse.

O problema não está na criatividade, na música, na tecnologia ou nos recursos utilizados pela igreja. Tudo isso pode servir ao evangelho. O problema surge quando o recurso se torna o centro e o entretenimento passa a ocupar o lugar que deveria pertencer à Palavra.

A igreja não foi chamada para entreter pessoas, mas para formar discípulos.

Jesus ordenou: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações...” (Mateus 28:19)

Fazer discípulos exige ensino, conhecimento das Escrituras, oração, arrependimento e compromisso com Cristo. Uma multidão pode ser atraída por aquilo que emociona ou diverte; discípulos permanecem porque compreenderam quem Cristo é e decidiram segui-lo, inclusive quando o caminho exige renúncia.

Isso fica evidente em João 6. Depois de ouvir um ensinamento difícil, muitos abandonaram Jesus. Ele não correu atrás da multidão para suavizar sua mensagem.

Perguntou aos discípulos: “Quereis também vós outros retirar-vos?” (João 6:67)

Pedro respondeu: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna.” (João 6:68)

Essa é a diferença entre uma fé sustentada pelo estímulo e uma fé fundamentada na verdade. O entretenimento pode produzir entusiasmo; a Palavra produz fundamento. Pode provocar aplausos, mas não necessariamente transformação. Pode encher um ambiente, mas não necessariamente o coração.

Paulo advertiu que chegaria um tempo em que muitos não suportariam a sã doutrina e procurariam mestres dispostos a dizer aquilo que desejavam ouvir (2Tm 4:3-4). Quando a igreja adapta sua mensagem apenas para não desagradar, corre o risco de trocar a verdade pela conveniência.

É possível ter uma agenda cheia e uma vida espiritual vazia. Pessoas podem conhecer dezenas de músicas, viver dentro de uma igreja, acompanhar pregadores e compartilhar frases religiosas, mas continuar desconhecendo os fundamentos da própria fé.

Por isso, a igreja precisa recuperar o prazer pelas Escrituras. Jesus declarou: “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.” (Mateus 4:4)

Se a Palavra é alimento, uma igreja que pouco a conhece é espiritualmente subnutrida. E quem não conhece as Escrituras torna-se vulnerável a qualquer discurso religioso.

A solução não é eliminar a alegria, a criatividade ou os recursos. É colocá-los no devido lugar. O culto pode ser excelente sem se transformar em espetáculo; a música pode emocionar sem substituir a mensagem; a tecnologia pode ajudar sem ocupar o centro.

Uma geração que recebe muito entretenimento, mas pouco ensino bíblico, pode permanecer dentro da igreja e, ainda assim, não estar preparada para enfrentar crises, tentações e falsos ensinamentos.

A igreja precisa recuperar o apetite pela Palavra, trocar a superficialidade pela profundidade e devolver a Cristo o centro de tudo.

Entretenimento pode prender a atenção por algumas horas. A Palavra de Deus, porém, transforma a vida e conduz o discípulo à maturidade

sábado, 22 de agosto de 2026

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Quando a Bíblia é fechada na Escola Bíblica Dominical


Vladimir Chaves

É triste, e, mais do que triste, alarmante perceber a desmotivação que vem atingindo muitas Escolas Bíblicas Dominicais. Há especialistas, pesquisas, métodos pedagógicos e inúmeras explicações para tentar identificar as causas desse problema. Fala-se sobre falta de estrutura, ausência de incentivo, mudanças culturais, rotina das famílias, falta de formação dos professores e tantas outras questões.

Tudo isso pode ter sua parcela de responsabilidade. Mas existe uma causa que precisa ser encarada com seriedade: o afastamento da própria Bíblia da sala de aula.

Em alguns lugares, a cena parece contraditória: fecham-se as Bíblias e abrem-se as revistas. A revista passa a ocupar o lugar que deveria pertencer às Escrituras. Ela deixa de ser uma ferramenta auxiliar e passa a ser, na prática, a principal fonte do ensino.

E aqui está um problema fundamental: a revista pode orientar o estudo, mas não pode substituir a Palavra de Deus.

“Examinais as Escrituras, porque vós julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim.” João 5:39

Jesus não mandou seus discípulos examinarem revistas, comentários ou materiais didáticos. Ele apontou para as Escrituras.

A revista é instrumento; a Bíblia é fundamento

Não há problema algum em utilizar uma boa revista de Escola Bíblica. Pelo contrário, um material bem elaborado pode organizar temas, apresentar perguntas, oferecer subsídios e ajudar o professor a conduzir a aula.

O problema começa quando o instrumento toma o lugar da fonte.

Uma revista pode explicar um texto bíblico, mas não possui autoridade superior à Escritura. Um comentário pode ajudar na compreensão, mas não substitui o texto inspirado. Um professor pode possuir experiência, conhecimento e boa comunicação, mas sua autoridade no ensino cristão precisa estar submetida à Palavra de Deus.

Paulo escreveu: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça.” 2 Timóteo 3:16

Observe a profundidade dessa afirmação. A Escritura é útil para ensinar, corrigir, repreender e instruir. Portanto, se queremos recuperar a qualidade espiritual da Escola Bíblica, precisamos recuperar também aquilo que deveria estar no centro dela: a Palavra de Deus.

O professor precisa ser, antes de tudo, um estudante da Bíblia

Existe uma pergunta que precisamos fazer com honestidade: como alguém pode ensinar aquilo que não estuda?

Não basta possuir uma revista nas mãos. Não basta saber acompanhar os tópicos da lição. Não basta ler os comentários preparados por outra pessoa.

O professor da Escola Bíblica Dominical precisa ser alguém que ama a Palavra e procura conhecê-la.

A Bíblia diz: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.” 2 Timóteo 2:15

“Manejar bem a palavra da verdade” exige estudo.

Não é simplesmente abrir a revista alguns minutos antes da aula. É ler o texto bíblico, compreender seu contexto, comparar Escritura com Escritura, observar personagens, acontecimentos, doutrinas, princípios e aplicações.

Para ensinar melhor, precisamos estudar mais a Palavra.

Quanto menos o professor estuda a Bíblia, mais dependente fica da revista. E quanto mais dependente fica da revista, maior é o risco de transformar a aula bíblica em uma simples leitura de conteúdo didático.

A tecnologia pode ser uma grande aliada.

Mas existe uma diferença entre usar a tecnologia para estudar a Bíblia e usar a tecnologia para não estudar a Bíblia.

Quando o professor passa toda a aula olhando para uma tela de celular ou tablet e praticamente não abre a Bíblia, algo precisa ser questionado.

O problema não é o aparelho. O problema é aquilo que ele representa quando a Palavra deixa de ocupar o centro.

Imagine uma aula de matemática em que o professor apresenta apenas o comentário sobre uma fórmula, mas nunca mostra a fórmula. Imagine uma aula de história em que o professor só lê um resumo e nunca apresenta os fatos históricos. Agora imagine uma Escola Bíblica em que se fala durante quase uma hora sobre determinado assunto, mas a Bíblia permanece fechada.

Precisamos perguntar: isso ainda é uma Escola Bíblica ou apenas uma aula sobre religião?

O aluno também precisa levar a Bíblia para a sala

Outro sinal preocupante é quando o aluno chega à Escola Bíblica apenas com a revista.

A revista pode estar na mão, mas a Bíblia deveria estar no coração e, também, aberta diante dos olhos.

O salmista declarou: “Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho.” Salmos 119:105

A Escola Bíblica deveria ensinar o aluno a encontrar essa luz diretamente nas Escrituras.

O aluno precisa aprender a procurar o texto. Precisa aprender a ler o contexto. Precisa aprender a comparar passagens. Precisa aprender a fazer perguntas ao texto bíblico.

Se durante anos ensinarem o aluno a depender exclusivamente da revista, estarão produzindo uma geração que conhece a lição, mas não conhece a Bíblia.

E essa diferença é enorme.

Não podemos formar cristãos que conhecem a revista, mas desconhecem as Escrituras

Talvez uma das maiores crises da igreja contemporânea não seja a falta de informação, mas a falta de conhecimento bíblico profundo.

Há pessoas que frequentam cultos há décadas, conhecem cânticos, frases religiosas e determinados personagens bíblicos, mas têm dificuldade para localizar livros, compreender contextos e explicar doutrinas fundamentais das Escrituras.

Isso deveria nos preocupar.

O profeta Oséias registrou uma palavra duríssima:

“O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento.” Oséias 4:6

O contexto imediato dessa passagem trata do conhecimento relacionado a Deus e à sua lei. Isso nos lembra de uma verdade que continua extremamente atual: ignorância espiritual não é uma questão pequena.

Uma igreja biblicamente fraca torna-se vulnerável a qualquer vento de doutrina.

Paulo advertiu: “Para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia dos que induzem ao erro.” Efésios 4:14

A Escola Bíblica tem uma responsabilidade gigantesca nesse processo de amadurecimento.

Ler a Bíblia no púlpito não é o mesmo que estudar a Bíblia

Também precisamos fazer uma distinção importante.

Uma pessoa pode ler vários versículos durante uma aula e, ainda assim, não estar ensinando profundamente as Escrituras.

Ler a Bíblia é diferente de estudar a Bíblia.

Estudar significa perguntar:

O que esse texto diz?

Para quem foi escrito?

Qual era o contexto?

O que significa?

Como esse texto se relaciona com outras passagens?

O que ele revela sobre Deus?

Que princípio espiritual apresenta?

Como devemos aplicá-lo à nossa vida?

Neemias apresenta um belo exemplo: “Leram no livro, na Lei de Deus, claramente; dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia.” Neemias 8:8

Aqui encontramos um princípio extraordinário: ler e dar o sentido para que o povo compreenda.

Essa deveria ser uma das grandes missões da Escola Bíblica Dominical.

Não basta colocar a Bíblia sobre a mesa. É necessário abrir, ler, compreender e aplicar.

Professores precisam voltar a ser alunos

Talvez uma das maiores necessidades da Escola Bíblica seja esta: o professor precisa voltar a ser aluno da Bíblia.

Quem ensina não pode parar de aprender.

O conhecimento bíblico não é adquirido por transferência automática. Não existe revista capaz de compensar completamente a ausência de estudo pessoal.

O professor precisa separar tempo para ler a Bíblia.

Precisa meditar.

Precisa fazer perguntas.

Precisa pesquisar.

Precisa comparar textos.

Precisa reconhecer quando não sabe.

Precisa ter humildade para dizer: “Eu não sei, vamos estudar.”

Isso não diminui o professor. Pelo contrário, demonstra maturidade.

Jesus disse: “Tomai sobre vós o meu julgo e aprendei de mim.” Mateus 11:29

O discípulo é alguém que continua aprendendo.

A desmotivação talvez seja também um sintoma

Talvez este seja o ponto mais profundo de toda essa reflexão.

Será que estamos perguntando apenas por que os alunos estão desmotivados?

Ou estamos perguntando também se estamos oferecendo a eles aquilo que deveria motivá-los?

A Palavra de Deus é viva.

“Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes.” Hebreus 4:12

Quando a Bíblia é ensinada com fidelidade, clareza e aplicação, ela confronta, consola, corrige, transforma e desperta fome espiritual.

Talvez parte da solução para a crise da Escola Bíblica não esteja em criar cada vez mais novidades, mas em voltar ao básico.

Voltar à Bíblia.

Voltar ao estudo.

Voltar à oração.

Voltar à preparação.

Voltar à reverência.

Voltar à disposição de aprender.

Não precisamos abandonar a revista; precisamos colocá-la no lugar certo

É importante deixar claro: o problema não é a revista da Escola Bíblica Dominical.

O problema é quando ela deixa de ser ferramenta e passa a ser fundamento.

A revista deve ajudar o professor a chegar à Bíblia, não impedir que ele chegue a ela.

Ela deve abrir caminhos para as Escrituras, estimular perguntas, organizar conteúdos e auxiliar na preparação.

Mas, no momento em que a revista é fechada, a Bíblia não pode ser fechada junto.

O professor deveria chegar à aula tendo estudado muito mais do que aquilo que está escrito na revista.

Se a revista possui quatro páginas sobre determinado tema, o professor deveria ter disposição para estudar dezenas de páginas da Bíblia relacionadas ao assunto.

Porque a revista prepara a aula; a Bíblia prepara o professor.

Precisamos recuperar o prazer de abrir a Bíblia

Talvez o maior desafio não seja simplesmente fazer professores e alunos carregarem uma Bíblia para a sala.

É fazer com que eles tenham fome da Palavra.

Pedro escreveu: “Desejai ardentemente, como criança recém-nascida, o genuíno leite espiritual, para que, vos seja dado crescimento de salvação.” 1 Pedro 2:2

A Bíblia não deveria ser um objeto obrigatório levado para o culto. Ela deveria ser alimento desejado.

Quando a igreja perde o prazer de estudar a Palavra, começa a procurar substitutos.

Mais entretenimento.

Mais recursos.

Mais apresentações.

Mais novidades.

Mais conteúdos prontos.

Mas nenhuma ferramenta humana consegue ocupar o lugar da Palavra de Deus.

Uma mudança precisa começar

Talvez seja necessário recuperar uma prática simples: professor, antes de preparar a aula, prepare-se diante da Bíblia.

Leia o texto.

Ore sobre o texto.

Estude o texto.

Procure compreender o texto.

Deixe o texto confrontar você primeiro.

Só depois pense em como ensiná-lo aos outros.

Esdras nos oferece um princípio precioso:

“Porque Esdras tinha disposto o coração para buscar a Lei do Senhor, e para a cumprir, e para ensinar...” Esdras 7:10

Observe a ordem:

buscar - cumprir - ensinar.

Essa sequência é fundamental.

Primeiro, o professor busca.

Depois, vive.

Então, ensina.

Não podemos ensinar aquilo que não queremos aprender e muito menos ensinar aquilo que não estamos dispostos a viver.

Enfim: precisamos abrir novamente as Bíblias

A crise da Escola Bíblica Dominical não será resolvida apenas com novas metodologias.

Metodologias são importantes.

Recursos são importantes.

Revistas são importantes.

Tecnologia pode ser útil.

Mas existe algo que não pode ser substituído: a Palavra de Deus.

Precisamos voltar a abrir nossas Bíblias.

Precisamos ensinar nossos filhos a abrir suas Bíblias.

Precisamos ensinar nossos jovens a estudar suas Bíblias.

Precisamos desafiar nossos adultos a conhecer profundamente suas Bíblias.

E precisamos lembrar aos professores que ninguém deveria assumir a responsabilidade de ensinar a Bíblia sem primeiro assumir o compromisso de estudá-la.

A Escola Bíblica Dominical precisa voltar a ser um lugar onde a Bíblia é aberta, lida, explicada, compreendida, discutida e aplicada.

Porque quando fechamos a Bíblia e abrimos apenas a revista, corremos o risco de formar alunos dependentes de material.

Mas quando abrimos a Bíblia e usamos a revista como instrumento, podemos formar discípulos que aprendem a pensar biblicamente e a caminhar pela verdade das Escrituras.

Jesus declarou: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8:32

Portanto, talvez a pergunta mais importante que a Escola Bíblica precise fazer hoje não seja:

“Por que nossos alunos estão desmotivados?”

Mas: “Será que estamos colocando diante deles aquilo que realmente pode despertar fome e sede pela Palavra de Deus?”

Que nossas Bíblias voltem a ser abertas.

Que nossos professores voltem a estudar.

Que nossos alunos voltem a pesquisar.

Que nossas classes voltem a mergulhar nas Escrituras.

E que a Escola Bíblica Dominical volte a cumprir aquilo que seu próprio nome anuncia: ser uma escola onde se aprende a Bíblia.

“Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.” João 17:17

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Firmados na Palavra em tempos de engano


Vladimir Chaves

“Se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas.” 2 Timóteo 4.4

Paulo advertia Timóteo sobre um perigo que poderia surgir dentro da própria comunidade cristã: pessoas que continuariam ouvindo mensagens religiosas, mas deixariam de suportar a verdade da Palavra. O problema não seria a falta de religião, mas a troca da verdade por aquilo que agrada aos ouvidos.

Essa advertência continua atual. É possível manter a aparência da fé enquanto, pouco a pouco, se abandona a sã doutrina. A Bíblia permanece aberta, os cultos continuam acontecendo, mas a centralidade das Escrituras pode ser substituída por discursos motivacionais, promessas fáceis e mensagens que pouco confrontam o pecado e quase nada exigem do caráter cristão.

A sã doutrina nem sempre é confortável. Ela consola, mas também corrige; encoraja, mas também confronta. Revela a graça sem esconder a gravidade do pecado. Quando a verdade deixa de ser desejada, o coração começa a buscar aquilo que proporciona satisfação imediata. É nesse ambiente que as “fábulas” encontram espaço.

Essas fábulas não são apenas histórias falsas. Podem também representar ensinamentos religiosos que parecem espirituais, mas se afastam da verdade de Deus; mensagens feitas mais para agradar do que para transformar.

Fala-se muito sobre vitória, prosperidade e conquistas, mas pouco sobre arrependimento, santificação, renúncia, obediência e temor do Senhor. Assim, pode nascer uma fé que emociona, mas não transforma.

Paulo afirmou: “Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina” (2Tm 4.3). O problema não é apenas desconhecer a verdade, mas rejeitá-la porque ela confronta aquilo que desejamos continuar fazendo.

Uma igreja saudável não é aquela que diz tudo o que as pessoas querem ouvir, mas aquela que permanece fiel ao que Deus disse. O púlpito não existe para alimentar vaidades, mas para proclamar a Palavra e conduzir pessoas a uma vida de fidelidade a Cristo.

Por isso, precisamos voltar às Escrituras com humildade e reverência. Não precisamos de novidades para substituir a Bíblia; precisamos permitir que ela transforme nossa vida.

Jesus declarou: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). A Palavra não precisa se ajustar a nós; somos nós que precisamos ser corrigidos e transformados por ela.

Abandonar a sã doutrina pode acontecer silenciosamente. Primeiro, diminui-se a importância da Bíblia; depois, relativiza-se o que ela ensina. Por fim, aquilo que exige renúncia passa a ser considerado ultrapassado.

O desafio da igreja não é apenas encher templos, mas permanecer fiel à verdade. Crescimento sem fidelidade pode produzir multidões, mas não necessariamente discípulos.

Por isso, não troquemos a verdade pelas fábulas, a Palavra pelo entretenimento, a santidade pela conveniência e o discipulado pela satisfação pessoal.

Que o Senhor nos dê um coração disposto a ouvir, discernir e obedecer. Que não desejemos apenas uma mensagem agradável aos ouvidos, mas uma Palavra que transforme o coração.

A pergunta não é: “Estamos dizendo o que as pessoas querem ouvir?” Mas: “Estamos ensinando aquilo que Deus nos ordenou?”

A fidelidade à verdade pode não agradar a todos, mas continua sendo indispensável para quem deseja permanecer fiel a Cristo.

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A mesa onde a graça nos encontra


Vladimir Chaves

A caminhada com Cristo não é feita de pessoas que nunca falham, mas de pessoas que, mesmo depois de cair, permitem que Deus continue trabalhando em suas vidas. Jesus não escolheu discípulos por serem perfeitos. Ele conhecia suas limitações, seus medos, suas dúvidas e tudo aquilo que ainda precisava ser transformado.

Pedro descobriu isso de maneira dolorosa. Depois de negar Jesus, talvez pensasse que sua história havia chegado ao fim. Mas Cristo foi ao seu encontro. Em João 21, Jesus não transformou o fracasso de Pedro em um momento de vergonha. Conversou com ele, perguntou sobre seu amor e, depois de restaurá-lo, confiou-lhe novamente uma missão:

“Apascenta as minhas ovelhas.” — João 21:17

Pedro havia falhado, mas não havia sido abandonado. Sua queda não anulou seu chamado.

Isso nos ensina algo precioso sobre a maneira como Deus trata nossas quedas. O erro pode trazer consequências, nos ensinar e revelar nossas fragilidades. Mas, quando existe arrependimento, ele não precisa ser a palavra final sobre nossa história.

Tomé também precisou atravessar o caminho da dúvida. Jesus não o rejeitou. Voltou a encontrá-lo e ofereceu exatamente aquilo de que precisava para compreender. Diante de Cristo, sua dúvida deu lugar a uma profunda declaração de fé: “Senhor meu, e Deus meu!” — João 20:28

Talvez você também carregue perguntas que ainda não conseguiu responder. Mas Jesus não se afasta de nós simplesmente porque temos dúvidas. Ele conhece o coração que busca sinceramente e sabe conduzi-lo a uma fé mais madura.

João também precisou ser transformado. Aquele que um dia quis fazer descer fogo do céu sobre os que não receberam Jesus (Lucas 9:54) tornou-se conhecido por enfatizar o amor. O homem impulsivo foi moldado pelo Mestre.

Isso mostra que ninguém está pronto quando começa a caminhar com Cristo. Há temperamentos sendo tratados, feridas sendo curadas, pensamentos sendo renovados e antigos hábitos sendo abandonados. O processo pode ser lento e, às vezes, marcado por tropeços. Mas Deus continua trabalhando.

Talvez você tenha um passado que gostaria de apagar, uma decisão da qual se arrepende, uma fase de frieza espiritual ou uma queda que ainda pesa na consciência.

Talvez pense: “Depois de tudo o que fiz, será que Deus ainda pode me usar?”

A Palavra responde: “Porque sete vezes cairá o justo e se levantará.” — Provérbios 24:16

A Bíblia não diz que o justo nunca cairá. Diz que ele se levantará.

A graça de Deus não torna o pecado insignificante. Ela oferece perdão e restauração ao pecador que se arrepende e volta para Deus.

Por isso, Paulo declarou: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram.” — 2 Coríntios 5:17

Talvez outras pessoas tenham definido você pelo seu pior momento. Talvez você mesmo tenha começado a se enxergar apenas pelos seus erros. Mas Deus não olha somente para o capítulo em que você caiu. Ele também vê aquilo que a graça ainda pode escrever.

Pedro voltou a servir.

Tomé voltou a crer.

João foi transformado.

Mateus deixou sua antiga vida para seguir Jesus.

Nenhum deles permaneceu igual depois de encontrar Cristo.

Essa é uma das belezas da caminhada cristã: Jesus não exige que cheguemos perfeitos à mesa. Ele nos chama para perto e, ali, começa a nos transformar.

A mesa da graça é o lugar onde o pecador arrependido encontra perdão, o ferido encontra consolo e aquele que caiu encontra uma mão estendida.

Por isso, não faça da sua queda a sua identidade. Não transforme a culpa em moradia. Não permita que o passado tenha mais voz do que a graça.

Se caiu, levante-se.

Se pecou, arrependa-se.

Se se afastou, volte.

Se perdeu a esperança, olhe novamente para Cristo.

A pergunta não é se você já falhou. A pergunta é: o que você fará depois da queda?

Volte para Jesus.

Ele ainda restaura. Ele ainda perdoa. Ele ainda transforma. Ele ainda chama.

Porque a graça não chama pessoas perfeitas para perto de Deus. A graça transforma pessoas imperfeitas enquanto caminham com Ele.

E, quando a nossa força termina, podemos descansar nesta promessa: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.” — 2 Coríntios 12:9

Talvez hoje você esteja diante de Deus com suas fraquezas, lembranças e arrependimentos. Mas não se esqueça: é justamente à mesa da graça que Cristo nos encontra para nos levantar, restaurar e continuar escrevendo a nossa história.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

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Quando a igreja troca discípulos por cabos eleitorais


Vladimir Chaves

“Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações...” Mateus 28.19

Existe uma crise que merece ser discutida com seriedade: em alguns ambientes cristãos, a missão de formar discípulos de Jesus tem sido substituída pela formação de militantes políticos. O púlpito, que deveria conduzir pessoas à Palavra, ao arrependimento, à santidade e ao serviço, passa, em determinados contextos, a funcionar como espaço de mobilização eleitoral.

O problema não está em o cristão possuir consciência política, participar da sociedade ou exercer seu direito de voto. O cristão não deixa de ser cidadão quando entra na igreja. O problema começa quando a identidade cristã passa a ser confundida com identidade partidária e quando políticos são apresentados quase como representantes da fé, mesmo quando suas atitudes, decisões e práticas contradizem princípios claramente ensinados pelas Escrituras.

A igreja recebeu uma missão muito maior do que eleger candidatos.

O chamado de Jesus não foi para formar cabos eleitorais

Antes de subir aos céus, Jesus não disse aos discípulos: “Ide e conquistai posições políticas”. Também não os enviou para construir estruturas de poder. Sua ordem foi clara: “fazei discípulos”.

Discípulo é alguém que aprende com Cristo, segue seus passos, submete sua vida à sua Palavra e procura reproduzir seu caráter. É muito diferente de alguém que simplesmente veste uma camisa política, repete slogans e defende determinado candidato.

Uma igreja pode produzir eleitores apaixonados e, ainda assim, fracassar na produção de discípulos maduros.

Pode ensinar alguém a votar, mas não ensiná-lo a perdoar. Pode ensiná-lo a defender determinado político, mas não a defender a verdade. Pode despertar indignação contra os adversários, mas não levá-lo ao arrependimento diante do próprio pecado.

Nesse caso, algo essencial foi perdido.

Paulo escreveu: “Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Romanos 8.14). A referência fundamental para a vida cristã não é um partido, um líder político ou uma ideologia, mas o Espírito de Deus e a Palavra de Cristo.

Quando o político ocupa o lugar que pertence a Cristo

Existe um perigo particularmente grave quando líderes políticos passam a receber dentro da igreja um tratamento que se aproxima de veneração.

Fotos, homenagens, aplausos, discursos, campanhas e elogios podem criar uma atmosfera na qual o político deixa de ser visto simplesmente como cidadão ou autoridade pública e passa a ocupar um lugar simbólico dentro da comunidade cristã.

É nesse ponto que o discernimento precisa entrar em cena.

Nenhum político deve receber uma espécie de imunidade moral apenas porque declara simpatia pelo cristianismo. O fato de alguém frequentar uma igreja, citar a Bíblia ou aparecer ao lado de pastores não transforma automaticamente suas atitudes em atitudes cristãs.

Jesus ensinou que a árvore é conhecida pelos frutos (Mateus 7.16). Portanto, não basta observar o discurso. É preciso observar caráter, coerência, justiça, honestidade e compromisso com aquilo que se afirma defender.

O cristão não deveria perguntar apenas: “Esse político está do meu lado?”

Deveria perguntar também: “As atitudes dele são compatíveis com os princípios que a Bíblia me ensina?”

Essa pergunta é muito mais incômoda; e justamente por isso, muito mais necessária.

Judas continua sendo uma advertência

A referência a Judas precisa ser tratada com cuidado, mas sua história contém uma advertência poderosa.

Judas caminhou com Jesus, ouviu seus ensinamentos, testemunhou seus milagres e fazia parte do grupo dos discípulos. Entretanto, em determinado momento, transformou sua proximidade com Cristo em oportunidade de negociação.

O problema de Judas não foi simplesmente dinheiro. Houve uma ruptura profunda entre aquilo que ele aparentava representar e aquilo que seu coração estava disposto a fazer.

Por isso, a imagem de Judas continua sendo perturbadora para a igreja. Ela nos lembra que é possível estar perto de Jesus e, ainda assim, negociar aquilo que é santo.

Quando interesses pessoais, políticos, financeiros ou de poder passam a valer mais do que a fidelidade ao evangelho, a igreja precisa parar e examinar a si mesma.

Não se trata de afirmar que todo cristão envolvido em política seja um Judas. Isso seria injusto e superficial. Há cristãos sinceros exercendo a cidadania e participando da vida pública com integridade.

A advertência é outra: quando Cristo é utilizado como instrumento para promover projetos humanos, o evangelho deixa de ser tratado como mensagem e passa a ser tratado como moeda de troca.

E isso é extremamente perigoso.

A igreja não pode terceirizar seu discernimento

Outro problema surge quando cristãos passam a acreditar que precisam de determinados líderes políticos para preservar sua fé.

A igreja começa então a depender de estruturas de poder, enquanto sua confiança em Deus vai sendo progressivamente substituída pela confiança em homens.

Jeremias advertiu: “Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta seu coração do Senhor.” Jeremias 17.5

Isso não significa desprezar autoridades ou rejeitar a participação política. Significa não transformar nenhuma autoridade humana em salvador, protetor absoluto ou representante infalível dos interesses de Deus.

Nenhum candidato merece a lealdade que pertence a Cristo.

E nenhuma igreja deveria colocar sua identidade espiritual nas mãos de uma estrutura partidária.

O púlpito não pode se transformar em palanque

Quando a política entra na igreja, ela precisa encontrar limites.

O púlpito existe para proclamar a Palavra de Deus. Pode denunciar injustiça, corrupção, abuso de poder, violência, mentira e opressão. Pode ensinar princípios de cidadania, responsabilidade e justiça. Pode formar cristãos conscientes.

Mas existe uma diferença enorme entre ensinar princípios bíblicos para orientar o cidadão e usar a autoridade espiritual do púlpito para conduzir votos.

Quando o pastor deixa de formar consciências e passa a formar cabos eleitorais, alguma coisa está profundamente errada.

O pastor não foi chamado para ser cabo eleitoral de político. Foi chamado para cuidar de pessoas.

Paulo disse aos presbíteros de Éfeso: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus.” Atos 20.28

Pastorear exige ensinar, proteger, confrontar e conduzir pessoas a Cristo. Isso é muito mais difícil do que simplesmente reunir uma multidão em torno de uma causa política.

A igreja precisa recuperar sua missão

A igreja existe para anunciar Cristo, ensinar a Palavra, fazer discípulos, cuidar dos necessitados, proclamar arrependimento, promover reconciliação e preparar pessoas para viverem de maneira digna do evangelho.

A política pode fazer parte da cidadania do cristão, mas não pode ocupar o centro da sua fé.

O centro é Cristo.

Se uma igreja consegue mobilizar centenas de pessoas para uma campanha política, mas não consegue formar cristãos que perdoem, sirvam, sejam honestos, rejeitem a corrupção, amem o próximo e permaneçam firmes quando ninguém está olhando, então talvez esteja formando militantes, mas não discípulos.

E essa diferença é decisiva.

Jesus não morreu na cruz para criar uma militância partidária. Morreu para redimir pecadores. Por isso, a pergunta que a igreja precisa fazer não é apenas “quem devemos eleger?”, mas principalmente:

“Que tipo de discípulos estamos formando?”

Porque uma igreja pode ganhar eleições e perder sua missão.

Pode conquistar influência e perder sua identidade.

Pode aproximar-se do poder e afastar-se de Cristo.

E, quando isso acontece, talvez seja necessário lembrar novamente a advertência de Paulo:

“Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo.” Gálatas 1.10

A igreja não foi chamada para negociar Jesus em troca de poder. Foi chamada para anunciá-lo.

E o verdadeiro discípulo não é aquele que sabe defender seu político até o fim, mas aquele que permanece fiel a Cristo mesmo quando seguir Jesus exige contrariar os interesses do seu próprio grupo.

Esse é o teste do discipulado: quando Cristo e nossos interesses entram em conflito, quem permanece no trono?

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

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