“Assim, pois, não durmamos
como os demais, pelo contrário, vigiemos e sejamos sóbrios.” 1
Tessalonicenses 5:6
O sono espiritual acontece
quando a pessoa deixa de perceber a distância entre aquilo que afirma crer e
aquilo que realmente pratica. É possível conhecer a linguagem da fé, participar
das atividades da igreja, ouvir muitos sermões e ainda assim perder a sensibilidade
diante do pecado. O perigo não está somente em abandonar abertamente a fé;
existe também o perigo de continuar dentro da estrutura religiosa enquanto o
coração vai se tornando indiferente à voz de Deus.
É nesse ponto que o
arrependimento se torna indispensável. Arrependimento não é simplesmente
tristeza depois de cometer um erro, nem uma reação emocional produzida por uma
pregação forte. A tristeza pode acompanhar o arrependimento, mas não é o
arrependimento em si. O verdadeiro arrependimento envolve reconhecer o pecado
diante de Deus, abandonar a justificativa, confessar a culpa e voltar-se para o
caminho da obediência. Por isso, o arrependimento não deve ser entendido apenas
como um acontecimento que ocorre no início da conversão. Ele precisa continuar
produzindo frutos na vida daquele que pertence a Cristo.
João Batista anunciou:
“Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” (Mateus 3:8). A
expressão é importante porque mostra que o arrependimento verdadeiro possui
consequências. Se houve arrependimento, alguma coisa começa a mudar. A pessoa
passa a tratar o pecado de outra maneira; reconhece aquilo que antes
justificava; procura reparar, quando possível, aquilo que prejudicou; abandona
práticas que sabe serem contrárias à vontade de Deus; e passa a desejar uma
vida de obediência. O fruto não compra o perdão de Deus, mas revela que o
arrependimento não ficou apenas nas palavras.
Por isso, precisamos tomar
cuidado com uma espiritualidade que confunde manifestação momentânea com
transformação permanente. Uma pessoa pode chorar diante de uma mensagem,
levantar as mãos, ajoelhar-se e sentir profundamente a presença de Deus naquele
momento. Tudo isso pode ser sincero. Mas a pergunta seguinte precisa ser: o que
acontece depois? Se a pessoa volta às mesmas práticas sem qualquer disposição
para abandoná-las, é necessário examinar se houve arrependimento ou apenas
comoção.
O arrependimento verdadeiro
alcança a vida cotidiana. Ele aparece na maneira como tratamos as pessoas,
naquilo que fazemos quando ninguém está olhando, na maneira como usamos o
dinheiro, na forma como lidamos com a verdade, nos relacionamentos, nas palavras
que pronunciamos, naquilo que alimentamos em nossa mente e nas decisões que
tomamos quando obedecer a Deus nos custa alguma coisa. O fruto do
arrependimento é uma vida que começa a tomar outra direção.
Vigiar é permitir que a
Palavra nos examine
“Vigiar” significa também
aceitar que a Palavra de Deus examine nossa vida. Quem vigia não está
preocupado com o comportamento dos outros. Olha para dentro de si e pergunta:
há alguma coisa em mim que precisa ser abandonada? Existe algum pecado que
estou tentando justificar? Minha consciência ainda é corrigida pela Palavra?
A vigilância cristã exige
humildade porque ninguém está acima da necessidade de correção. O próprio
conhecimento bíblico pode se tornar perigoso quando serve para identificar os
erros dos outros e esconder os nossos. É possível saber explicar a doutrina do
arrependimento e não se arrepender. É possível ensinar santidade e tolerar
secretamente aquilo que Deus condena. É possível falar da volta de Cristo e
continuar vivendo sem levar a sério a responsabilidade de estar diante dele.
Por isso, a pergunta de 1
Tessalonicenses 5:6 alcança primeiro o coração de cada cristão: estamos
despertos ou apenas acostumados com a religião?
A sobriedade também precisa
alcançar o púlpito
Paulo acrescenta: “sejamos
sóbrios.” Essa palavra não deve ser aplicada somente aos membros da igreja. Ela
também precisa alcançar aqueles que pregam, ensinam e conduzem o povo de Deus.
A sobriedade é especialmente
necessária quando lidamos com aquilo que é santo. O púlpito não deve ser
utilizado para transformar a mensagem do evangelho em espetáculo. A pregação
pode ser fervorosa, profunda, emocionante e cheia de convicção; o problema começa
quando a emoção passa a ser produzida como finalidade, quando a performance se
torna mais importante que a verdade e quando a reação do público passa a
determinar a maneira como a mensagem é apresentada.
Há uma diferença entre uma
mensagem que toca o coração e uma mensagem construída para provocar uma reação.
A primeira pode levar ao quebrantamento porque a Palavra confrontou a pessoa. A
segunda pode produzir lágrimas, gritos ou entusiasmo sem necessariamente
produzir arrependimento.
Por isso, o pregador precisa
ser sóbrio. Deve perguntar não apenas se sua mensagem emocionou, mas se foi
fiel às Escrituras. Não apenas se as pessoas aplaudiram, mas se foram
confrontadas pela verdade. Não apenas se houve uma grande manifestação, mas se houve
compreensão, fé, arrependimento e mudança de vida.
O verdadeiro propósito da
pregação não é produzir espectadores impressionados com o pregador, mas
pecadores confrontados pela Palavra e conduzidos a Cristo.
E o pregador também precisa
estar debaixo da mesma Palavra que anuncia. Quem chama outros ao arrependimento
não pode considerar-se dispensado dele. Quem fala sobre santidade precisa
permitir que Deus examine sua própria vida. Quem anuncia a volta de Cristo
precisa viver consciente de que também prestará contas.
O fruto revela a direção
Jesus ensinou que,
“Portanto, cada árvore é conhecida pelo seu próprio fruto” (Lucas 6:44).
Essa verdade ajuda a compreender a relação entre arrependimento e vida cristã.
O fruto não aparece de uma hora para outra, mas, com o tempo, revela a natureza
da árvore.
Assim também acontece com o
arrependimento. Não se trata de exigir perfeição imediata, como se o cristão
nunca mais pudesse cair. Trata-se de reconhecer uma nova direção. Quando cai,
ele não transforma o pecado em justificativa; confessa, levanta-se e retorna ao
caminho. Quando é confrontado pela Palavra, não procura apenas uma explicação
para continuar fazendo o que deseja; permite que Deus o corrija.
O arrependimento verdadeiro
não significa que nunca mais haverá queda; significa que não fazemos da queda
nossa morada.
Por isso, a igreja precisa
recuperar a seriedade do arrependimento. Não como instrumento de manipulação
emocional, mas como resposta sincera à santidade de Deus. O arrependimento não
diminui a graça; pelo contrário, revela o quanto precisamos dela. Não é uma
tentativa humana de comprar o perdão, mas o reconhecimento de que precisamos
abandonar o caminho errado e retornar ao Senhor.
“Não durmamos”
A palavra de Paulo continua
exigindo uma resposta: “Não durmamos.” Não basta saber que Cristo voltará.
Precisamos permitir que essa verdade alcance nossa maneira de viver. Não basta
ouvir sobre arrependimento; precisamos produzir seus frutos. Não basta falar de
santidade; precisamos buscá-la. Não basta ocupar um púlpito; é necessário
tratar a Palavra com temor e sobriedade.
“Vigiemos.” Que a Palavra
examine nossa vida antes que nos ocupemos em examinar a vida dos outros.
“Sejamos sóbrios.” Que não
transformemos a fé em espetáculo, nem confundamos intensidade emocional com
transformação espiritual.
E, acima de tudo, que o
arrependimento não seja apenas uma palavra repetida em nossos sermões, mas um
fruto visível de uma vida que continua se submetendo a Deus.
Porque, quando Cristo
voltar, não será a nossa capacidade de impressionar que estará em julgamento.
Será a nossa fidelidade.





