“Ide, portanto, fazei
discípulos de todas as nações...” Mateus 28.19
Existe uma crise que merece
ser discutida com seriedade: em alguns ambientes cristãos, a missão de formar
discípulos de Jesus tem sido substituída pela formação de militantes políticos.
O púlpito, que deveria conduzir pessoas à Palavra, ao arrependimento, à
santidade e ao serviço, passa, em determinados contextos, a funcionar como
espaço de mobilização eleitoral.
O problema não está em o
cristão possuir consciência política, participar da sociedade ou exercer seu
direito de voto. O cristão não deixa de ser cidadão quando entra na igreja. O
problema começa quando a identidade cristã passa a ser confundida com identidade
partidária e quando políticos são apresentados quase como representantes da fé,
mesmo quando suas atitudes, decisões e práticas contradizem princípios
claramente ensinados pelas Escrituras.
A igreja recebeu uma missão
muito maior do que eleger candidatos.
O chamado de Jesus não foi
para formar cabos eleitorais
Antes de subir aos céus,
Jesus não disse aos discípulos: “Ide e conquistai posições políticas”. Também
não os enviou para construir estruturas de poder. Sua ordem foi clara: “fazei
discípulos”.
Discípulo é alguém que
aprende com Cristo, segue seus passos, submete sua vida à sua Palavra e procura
reproduzir seu caráter. É muito diferente de alguém que simplesmente veste uma
camisa política, repete slogans e defende determinado candidato.
Uma igreja pode produzir
eleitores apaixonados e, ainda assim, fracassar na produção de discípulos
maduros.
Pode ensinar alguém a votar,
mas não ensiná-lo a perdoar. Pode ensiná-lo a defender determinado político,
mas não a defender a verdade. Pode despertar indignação contra os adversários,
mas não levá-lo ao arrependimento diante do próprio pecado.
Nesse caso, algo essencial
foi perdido.
Paulo escreveu: “Pois
todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Romanos
8.14). A referência fundamental para a vida cristã não é um partido, um
líder político ou uma ideologia, mas o Espírito de Deus e a Palavra de Cristo.
Quando o político ocupa o
lugar que pertence a Cristo
Existe um perigo
particularmente grave quando líderes políticos passam a receber dentro da
igreja um tratamento que se aproxima de veneração.
Fotos, homenagens, aplausos,
discursos, campanhas e elogios podem criar uma atmosfera na qual o político
deixa de ser visto simplesmente como cidadão ou autoridade pública e passa a
ocupar um lugar simbólico dentro da comunidade cristã.
É nesse ponto que o
discernimento precisa entrar em cena.
Nenhum político deve receber
uma espécie de imunidade moral apenas porque declara simpatia pelo
cristianismo. O fato de alguém frequentar uma igreja, citar a Bíblia ou
aparecer ao lado de pastores não transforma automaticamente suas atitudes em
atitudes cristãs.
Jesus ensinou que a árvore é
conhecida pelos frutos (Mateus 7.16). Portanto, não basta observar o
discurso. É preciso observar caráter, coerência, justiça, honestidade e
compromisso com aquilo que se afirma defender.
O cristão não deveria
perguntar apenas: “Esse político está do meu lado?”
Deveria perguntar também:
“As atitudes dele são compatíveis com os princípios que a Bíblia me ensina?”
Essa pergunta é muito mais
incômoda; e justamente por isso, muito mais necessária.
Judas continua sendo uma
advertência
A referência a Judas precisa
ser tratada com cuidado, mas sua história contém uma advertência poderosa.
Judas caminhou com Jesus,
ouviu seus ensinamentos, testemunhou seus milagres e fazia parte do grupo dos
discípulos. Entretanto, em determinado momento, transformou sua proximidade com
Cristo em oportunidade de negociação.
O problema de Judas não foi
simplesmente dinheiro. Houve uma ruptura profunda entre aquilo que ele
aparentava representar e aquilo que seu coração estava disposto a fazer.
Por isso, a imagem de Judas
continua sendo perturbadora para a igreja. Ela nos lembra que é possível estar
perto de Jesus e, ainda assim, negociar aquilo que é santo.
Quando interesses pessoais,
políticos, financeiros ou de poder passam a valer mais do que a fidelidade ao
evangelho, a igreja precisa parar e examinar a si mesma.
Não se trata de afirmar que
todo cristão envolvido em política seja um Judas. Isso seria injusto e
superficial. Há cristãos sinceros exercendo a cidadania e participando da vida
pública com integridade.
A advertência é outra:
quando Cristo é utilizado como instrumento para promover projetos humanos, o
evangelho deixa de ser tratado como mensagem e passa a ser tratado como moeda
de troca.
E isso é extremamente
perigoso.
A igreja não pode
terceirizar seu discernimento
Outro problema surge quando
cristãos passam a acreditar que precisam de determinados líderes políticos para
preservar sua fé.
A igreja começa então a
depender de estruturas de poder, enquanto sua confiança em Deus vai sendo
progressivamente substituída pela confiança em homens.
Jeremias advertiu: “Maldito
o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta seu
coração do Senhor.” Jeremias 17.5
Isso não significa desprezar
autoridades ou rejeitar a participação política. Significa não transformar
nenhuma autoridade humana em salvador, protetor absoluto ou representante
infalível dos interesses de Deus.
Nenhum candidato merece a
lealdade que pertence a Cristo.
E nenhuma igreja deveria
colocar sua identidade espiritual nas mãos de uma estrutura partidária.
O púlpito não pode se
transformar em palanque
Quando a política entra na
igreja, ela precisa encontrar limites.
O púlpito existe para
proclamar a Palavra de Deus. Pode denunciar injustiça, corrupção, abuso de
poder, violência, mentira e opressão. Pode ensinar princípios de cidadania,
responsabilidade e justiça. Pode formar cristãos conscientes.
Mas existe uma diferença
enorme entre ensinar princípios bíblicos para orientar o cidadão e usar a
autoridade espiritual do púlpito para conduzir votos.
Quando o pastor deixa de
formar consciências e passa a formar cabos eleitorais, alguma coisa está
profundamente errada.
O pastor não foi chamado
para ser cabo eleitoral de político. Foi chamado para cuidar de pessoas.
Paulo disse aos presbíteros
de Éfeso: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito
Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus.” Atos 20.28
Pastorear exige ensinar, proteger,
confrontar e conduzir pessoas a Cristo. Isso é muito mais difícil do que
simplesmente reunir uma multidão em torno de uma causa política.
A igreja precisa recuperar
sua missão
A igreja existe para
anunciar Cristo, ensinar a Palavra, fazer discípulos, cuidar dos necessitados,
proclamar arrependimento, promover reconciliação e preparar pessoas para
viverem de maneira digna do evangelho.
A política pode fazer parte
da cidadania do cristão, mas não pode ocupar o centro da sua fé.
O centro é Cristo.
Se uma igreja consegue
mobilizar centenas de pessoas para uma campanha política, mas não consegue
formar cristãos que perdoem, sirvam, sejam honestos, rejeitem a corrupção, amem
o próximo e permaneçam firmes quando ninguém está olhando, então talvez esteja
formando militantes, mas não discípulos.
E essa diferença é decisiva.
Jesus não morreu na cruz
para criar uma militância partidária. Morreu para redimir pecadores. Por isso,
a pergunta que a igreja precisa fazer não é apenas “quem devemos eleger?”, mas
principalmente:
“Que tipo de discípulos
estamos formando?”
Porque uma igreja pode
ganhar eleições e perder sua missão.
Pode conquistar influência e
perder sua identidade.
Pode aproximar-se do poder e
afastar-se de Cristo.
E, quando isso acontece,
talvez seja necessário lembrar novamente a advertência de Paulo:
“Se agradasse ainda a
homens, não seria servo de Cristo.” Gálatas 1.10
A igreja não foi chamada
para negociar Jesus em troca de poder. Foi chamada para anunciá-lo.
E o verdadeiro discípulo não
é aquele que sabe defender seu político até o fim, mas aquele que permanece
fiel a Cristo mesmo quando seguir Jesus exige contrariar os interesses do seu
próprio grupo.
Esse é o teste do
discipulado: quando Cristo e nossos interesses entram em conflito, quem
permanece no trono?








