No palco, oração, abraços, sorrisos,
“Deus te abençoe”, palavras bonitas e demonstrações de espiritualidade.
Mas, nos bastidores, às
vezes encontramos outra realidade: ironia, panelinhas, competição, grosseria,
favoritismo e pessoas sendo ignoradas.
No palco, parece uma igreja.
Nos bastidores, porém, as atitudes revelam algo diferente.
É preciso ter coragem para
olhar para essa realidade sem maquiar os fatos. Porque uma igreja não é
definida apenas pelo que acontece diante das pessoas, mas também pelo modo como
seus membros tratam uns aos outros quando não estão sendo observados.
Quando alguém deixa uma
igreja, rapidamente surgem os julgamentos:
“Não tinha compromisso.”
“Não era convertido.”
“Esfriou na fé.”
“Abandonou o chamado.”
“Não queria compromisso com
Deus.”
Mas será que sempre é assim?
Nem todos os que saem de uma
igreja saem porque querem abandonar a Cristo. Alguns saem feridos. Outros saem
cansados de serem desprezados, controlados, humilhados ou tratados com
injustiça. Há pessoas que não abandonaram Deus; simplesmente não suportaram os
fardos e atitudes de pessoas que diziam representá-lo.
Isso não significa que toda
saída de uma igreja seja justificada ou que todo aquele que permanece esteja
certo. Significa apenas que precisamos parar de julgar superficialmente
situações que não conhecemos.
Existem feridas que ninguém
vê, e lágrimas que foram derramadas em silêncio.
Existem pessoas cansadas que
chegaram à igreja procurando Deus e encontraram, em determinados ambientes,
competição, disputa por espaço, preferência por alguns e desprezo por outros.
E isso é muito sério.
Quando a grosseria é
apresentada como “exigência espiritual”, o controle é chamado de “liderança”, o
favoritismo recebe o nome de “discernimento”, a humilhação é apresentada como
“correção”, a frieza é confundida com “maturidade” e a bajulação é confundida
com “fidelidade”, algo está profundamente errado.
O Evangelho de Cristo não
transforma injustiça em virtude.
A liderança cristã não
deveria produzir medo, humilhação ou competição por espaço. O verdadeiro
serviço cristão deveria produzir humildade, acolhimento, amor, cuidado,
responsabilidade e temor de Deus.
O problema é que algumas
pessoas começam servindo no altar e, com o tempo, passam a agir como se fossem
donas dele.
Esquecem que a igreja não
pertence a homens.
O altar não pertence a
pregadores.
O púlpito não pertence a
grupos.
A glória não pertence a
líderes.
Tudo pertence a Cristo.
Jesus não morreu para criar
celebridades religiosas, grupos privilegiados ou disputas por reconhecimento.
Ele morreu para formar um povo que viva em comunhão, santidade, amor, verdade e
humildade.
Por isso, é possível ter uma
igreja cheia de pessoas e, ainda assim, haver vazio espiritual.
Jesus advertiu à igreja de
Sardes: “Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives, e estás morto.” Apocalipse
3:1
Essa palavra continua sendo
um alerta. Aparência de vida não significa necessariamente vida espiritual.
Uma igreja pode ter
movimento, música, pregação, eventos, aplausos, abraços e muitas palavras
religiosas e, mesmo assim, precisar urgentemente voltar à presença de Deus.
Porque Deus não se
impressiona com a aparência.
Jesus disse: “Este povo
honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.” Mateus 15:8
A religiosidade pode
produzir aparência sem produzir transformação.
Pode ensinar alguém a falar
como cristão sem fazê-lo viver como cristão.
Pode ensinar a pessoa a
sorrir no palco enquanto cultiva amargura nos bastidores.
Pode ensinar a levantar as
mãos diante de Deus enquanto despreza o irmão ao lado.
E esse é um dos grandes
perigos da religião sem Evangelho: ela consegue manter a aparência enquanto
destrói o coração.
A religiosidade não destrói
apenas púlpitos. Ela destrói almas.
Destrói relacionamentos.
Destrói a confiança.
Destrói até a alegria de
servir.
E, muitas vezes, faz pessoas
sinceras acreditarem que o problema está nelas, quando na realidade foram
feridas por comportamentos incompatíveis com o Evangelho.
Isso não significa colocar
toda a culpa nos outros. Cada pessoa também precisa examinar o próprio coração
diante de Deus.
Mas uma igreja saudável
precisa ter coragem para fazer uma pergunta difícil:
Estamos realmente cuidando
das almas que Deus colocou em nosso meio?
Porque é fácil comemorar
quando alguém chega.
Mais difícil é perceber
quando alguém está indo embora ferido.
É fácil publicar uma foto no
Instagram dando boas-vindas a uma pessoa nova.
Mais difícil é perguntar por
que alguém antigo deixou de sorrir ou abandonou a igreja.
É fácil falar sobre ganhar
almas.
Mais difícil é tratar bem as
almas que Deus já colocou dentro da igreja.
Se comemoramos a chegada de
uns enquanto contribuímos para a saída de outros, precisamos parar e refletir.
Talvez o problema não esteja
somente nas pessoas que estão indo embora.
Talvez também precisemos
olhar para aquilo que estamos fazendo dentro da casa de Deus.
O verdadeiro Evangelho não
alimenta o ego; ele crucifica o ego.
Cristo não chamou seus
discípulos para disputar posições, mas para servir.
Não chamou para buscar
aplausos, mas para carregar a cruz.
Não chamou para procurar
reconhecimento, mas para glorificar o Pai.
Por isso, precisamos voltar
à Palavra, precisamos recuperar o temor de Deus, precisamos buscar direção do
Espírito Santo, precisamos abandonar as panelinhas, a competição, o favoritismo
e a necessidade egoísta de controlar pessoas.
Precisamos aprender
novamente que corrigir não é humilhar, liderar não é controlar, ensinar não é
desprezar e servir não é buscar reconhecimento.
A igreja de Cristo não é
aquela que apenas parece espiritual no palco.
É aquela cuja vida permanece
coerente também nos bastidores.
Porque Deus vê o que ninguém
vê.
Ele conhece o coração de
cada um.
Conhece as intenções e as
lágrimas.
Conhece tanto quem foi
ferido quanto quem feriu.
Por isso, antes de acusar
alguém que saiu, talvez seja necessário perguntar:
Será que essa pessoa
realmente abandonou a Deus ou será que foi ferida por aqueles que deveriam ter
cuidado dela?
E antes de exigir que outros
demonstrem fidelidade, talvez devêssemos examinar a nossa própria fidelidade à
Palavra.
Que a igreja volte para
Cristo.
Que o altar volte a
pertencer exclusivamente a Cristo.
Que o púlpito volte a ser
lugar de serviço, não de ego.
Que a liderança volte a ser
instrumento de cuidado, não de controle.
Que os cristãos deixem de
viver apenas de aparência.
E que o nosso testemunho no
palco seja o mesmo que a nossa vida nos bastidores.
Porque a verdadeira
espiritualidade não é aquilo que mostramos quando todos estão olhando. É aquilo
que somos quando somente Deus está vendo.
E, no final, não será a
nossa aparência religiosa que permanecerá diante de Deus, mas a verdade do
nosso coração.




