"Lembrai-vos dos encarcerados,
como se presos com eles; dos que sofrem maus tratos, como se, com efeito, vós mesmo
em pessoa fôsseis os maltratados." (Hebreus 13:3)
Há verdades que não podem
ser compreendidas apenas com a mente; precisam ser sentidas pelo coração. A
perseguição à Igreja é uma delas.
Quando ouvimos que cerca de
388 milhões de cristãos vivem sob altos níveis de perseguição por causa de sua
fé, somos tentados a enxergar apenas uma estatística. Mas o Reino de Deus não é
contado em números; é formado por pessoas compradas pelo sangue de Cristo. Cada
número possui um nome, uma família, uma história. São homens e mulheres que
pagam um alto preço por permanecerem fiéis ao Senhor.
Há pais que saem para um
culto sem saber se voltarão para casa. Mães que escondem páginas da Bíblia para
que seus filhos conheçam a Palavra. Pastores que pregam sabendo que aquela pode
ser sua última mensagem. Crianças que aprendem, desde cedo, que confessar Jesus
pode lhes custar a própria vida.
Enquanto isso, nós
caminhamos livremente para nossos templos, temos várias Bíblias em nossas casas
e liberdade para anunciar o Evangelho. A pergunta inevitável é: estamos
valorizando aquilo pelo qual milhões de irmãos estão dispostos a morrer?
A perseguição nunca foi um
acidente na história da Igreja. Ela acompanha o povo de Deus desde o princípio.
Os profetas foram rejeitados. Os apóstolos foram presos, açoitados e
executados. O próprio Senhor Jesus advertiu:
"Se me perseguiram a
mim, também perseguirão a vós." (João 15:20)
Cristo não prometeu uma
caminhada sem sofrimento. Prometeu sua presença em meio à tribulação. O
discípulo não segue um caminho diferente do Mestre.
Nos países onde a
perseguição é mais intensa, possuir uma Bíblia pode levar à prisão. Reunir-se
para um culto pode significar a morte. Ser batizado pode representar a perda da
família e da liberdade. Ainda assim, a Igreja continua crescendo.
Porque ninguém pode prender
a Palavra de Deus.
Nenhum governo consegue
impedir a ação do Espírito Santo.
Nenhuma perseguição pode
destruir uma Igreja edificada sobre Cristo.
O sangue dos mártires jamais
foi o fim da Igreja; tornou-se semente para novas vidas.
Mas, enquanto contemplamos a
coragem desses irmãos, o Espírito Santo também dirige seu olhar para a Igreja
brasileira.
Nossa realidade é diferente,
mas não está livre de desafios.
No Brasil ainda existe
liberdade religiosa, porém cresce a pressão para que o cristão silencie suas
convicções. Em universidades, empresas e até nas redes sociais, permanecer fiel
aos princípios bíblicos pode significar rejeição, ridicularização e isolamento.
Entretanto, talvez exista um
perigo ainda maior.
Se a perseguição procura
destruir a Igreja de fora para dentro, a acomodação espiritual procura
destruí-la de dentro para fora.
Satanás nem sempre tenta
arrancar a Bíblia das mãos dos cristãos; muitas vezes basta mantê-la fechada.
Nem sempre precisa impedir
os cultos; basta esvaziá-los da centralidade das Escrituras.
Nem sempre precisa calar os
púlpitos; basta transformar a pregação em entretenimento.
Talvez essa seja uma das
maiores tragédias do nosso tempo.
Há igrejas cheias de
atividades, mas vazias de quebrantamento.
Muito movimento, pouca
oração, muito espetáculo, pouca Palavra, muito entusiasmo, pouca santidade.
Há, porém, uma contradição
que deveria constranger profundamente a Igreja.
Muitas igrejas realizam
cultos de missões. Os templos se enchem, os louvores são entoados com
entusiasmo, fala-se sobre evangelização, levantam-se ofertas e celebram-se os
avanços missionários. Tudo isso é importante.
Entretanto, não é raro que o
culto termine sem uma única oração pelos milhões de irmãos que, naquele mesmo
instante, estão sendo perseguidos por causa de Cristo.
Não se intercede pelos
presos.
Não se lembram das viúvas e
dos órfãos deixados pela perseguição.
Não se mencionam os pastores
encarcerados, as igrejas destruídas, as famílias expulsas de suas casas ou os
cristãos que se reúnem às escondidas para adorar a Deus.
Cantamos sobre o amor de
Cristo, mas esquecemos daqueles que sofrem justamente por amá-lo.
Celebramos nossa liberdade,
enquanto milhares perderam a sua por permanecerem fiéis ao Evangelho.
A exortação do autor de
Hebreus permanece tão atual quanto no primeiro século:
"Lembrai-vos dos encarcerados,
como se presos com eles; dos que sofrem maus-tratos, como se, com efeito, vós
mesmos em pessoa fôsseis os maltratados." (Hebreus 13:3)
Não se trata apenas de
conhecer a realidade da perseguição, mas de sentir sua dor. A Igreja é um só
corpo. Quando um membro sofre, todo o corpo deveria sofrer com ele.
Uma igreja que canta, mas
não intercede; que celebra, mas não se compadece; que promove missões, mas
ignora os missionários e cristãos perseguidos, ainda não compreendeu plenamente
o coração de Cristo.
Enquanto milhões de cristãos
arriscam tudo para ouvir um único sermão, muitos de nós tratamos a exposição
das Escrituras como algo comum. Enquanto irmãos escondem pequenos trechos da
Bíblia para não serem mortos, deixamos exemplares inteiros acumulando poeira em
nossas estantes.
Os cristãos perseguidos nos
lembram de que Cristo vale mais do que a liberdade, mais do que a segurança e
mais do que a própria vida.
A grande pergunta não é se
um dia a perseguição chegará ao Brasil.
A pergunta é outra: Se
amanhã nossa liberdade fosse retirada, permaneceríamos fiéis?
Se possuir uma Bíblia fosse
considerado crime, sentiríamos sua falta ou apenas perceberíamos a ausência de
um livro que raramente abrimos?
Se confessar Cristo custasse
nossa reputação, nosso emprego ou nossa própria vida, continuaríamos dizendo,
como os apóstolos:
"Antes, importa
obedecer a Deus do que aos homens." (Atos 5:29)
Que o testemunho da Igreja
perseguida desperte a nossa consciência.
Que suas lágrimas fortaleçam
nossas orações.
Que sua fidelidade confronte
nossa acomodação.
"Sê fiel até à morte, e
dar-te-ei a coroa da vida." (Apocalipse 2:10)













