“O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito. Então, lhe perguntou Nicodemos: Como pode suceder isto? Acudiu Jesus: Tu és mestre em Israel e não compreendes estas coisas?” João 3:8-10
Há uma pergunta feita por
Jesus a Nicodemos que continua extremamente atual: “Tu és mestre de Israel e
não sabes isso?”
Nicodemos era religioso,
conhecedor das Escrituras e ocupava uma posição de destaque entre os judeus.
Entretanto, diante de uma verdade espiritual ensinada por Jesus, revelou que
seu conhecimento religioso não era suficiente para compreender as coisas do
Espírito.
Esse episódio nos apresenta
uma advertência importante: é possível estar dentro da religião e, ao mesmo
tempo, permanecer distante da compreensão da Palavra de Deus.
O perigo de uma religião sem
conhecimento da Palavra
A religiosidade, quando
deixa de ser expressão de uma fé viva e passa a ser apenas um conjunto de
costumes, regras e tradições, pode produzir uma aparência de espiritualidade
sem transformação interior.
Jesus não estava condenando
a busca por Deus. Ele estava confrontando uma religiosidade que havia se
tornado incapaz de reconhecer a própria obra de Deus quando ela estava diante
dos seus olhos.
O problema não é existir uma
vida de culto, disciplina, doutrina ou tradição. O problema surge quando essas
coisas ocupam o lugar da Palavra e do relacionamento verdadeiro com Deus.
Uma pessoa pode conhecer os
horários dos cultos, os hinos, os costumes da igreja, as regras denominacionais
e até defender determinada tradição com grande fervor, mas ainda assim conhecer
pouco das Escrituras.
E quando a religiosidade
cresce enquanto o conhecimento bíblico diminui, a igreja corre um sério risco:
passar a defender aquilo que aprendeu dos homens sem examinar aquilo que Deus
realmente revelou em sua Palavra.
Quando os religiosos
desconhecem a Palavra
A afirmação de Jesus a
Nicodemos é muito forte:
“Tu és mestre de Israel e
não compreendes estas coisas?”
Nicodemos ensinava, mas não
compreendia.
Isso nos mostra que posição
religiosa não é sinônimo de conhecimento espiritual.
É possível ocupar um púlpito
e conhecer pouco da Bíblia.
É possível ensinar costumes
e desconhecer princípios bíblicos.
É possível falar muito sobre
Deus e conhecer pouco a Palavra de Deus.
Por isso, Paulo orienta:
“Procura apresentar-te a
Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a
palavra da verdade.” 2 Timóteo 2:15
A igreja não precisa apenas
de pessoas religiosas. Precisa de homens e mulheres que conheçam a Palavra,
vivam a Palavra e ensinem a Palavra.
A religiosidade pode
esvaziar a igreja
Em muitos lugares, o
esvaziamento das igrejas não acontece simplesmente porque as pessoas deixaram
de acreditar em Deus. Em muitos casos, pessoas se afastam porque encontraram
dentro da própria igreja aquilo que esperavam encontrar no mundo: julgamento
sem misericórdia, aparência sem transformação, regras sem compreensão,
discursos sem vida e religião sem relacionamento com Deus.
Quando alguém procura a
igreja em busca de Cristo e encontra apenas religiosidade, pode acabar
decepcionado.
Quando a tradição se torna
mais importante que a Bíblia, a pessoa pode ser ensinada a obedecer a costumes
que não consegue encontrar claramente nas Escrituras.
Quando líderes exigem dos
outros aquilo que eles próprios não aprenderam na Palavra, a fé pode se
transformar em um peso.
E quando o pecador é tratado
apenas como alguém que precisa ser condenado, e não como alguém que precisa
ouvir o chamado de Cristo ao arrependimento e à transformação, a igreja perde
uma de suas principais responsabilidades: anunciar o Evangelho.
O problema não está na
igreja, mas naquilo que colocamos no lugar de Cristo
Não podemos afirmar que toda
tradição seja errada ou que toda igreja cheia esteja espiritualmente saudável e
toda igreja vazia esteja espiritualmente morta.
O verdadeiro problema é
outro: o que está sendo colocado no centro?
Se Cristo está no centro, a
Palavra é respeitada.
Se a Palavra é respeitada,
ela confronta tanto o pecador quanto o religioso.
Se a Palavra é ensinada
corretamente, ninguém fica autorizado a transformar sua preferência pessoal em
mandamento de Deus.
Jesus confrontou justamente
esse tipo de comportamento quando disse: “E, assim, invalidastes a Palavra de
Deus, por causa da vossa tradição.” Mateus 15:6
A tradição pode ter seu
lugar, mas não pode ocupar o lugar da Escritura.
O vento sopra onde quer
Em João 3:8, Jesus
utiliza a figura do vento para explicar a ação do Espírito.
O vento não pode ser
controlado pelo homem. Pode-se ouvir sua voz e perceber seus efeitos, mas não
se pode determinar soberanamente para onde ele deve soprar.
Da mesma maneira, a obra do
Espírito Santo não pode ser reduzida aos limites da religiosidade humana.
Deus não está preso aos
nossos costumes, às nossas estruturas ou às nossas preferências.
O Espírito transforma vidas,
Ele convence do pecado, Ele conduz à verdade, Ele produz novo nascimento, Ele
gera fruto, Ele leva o homem a Cristo.
Por isso, uma igreja
espiritualmente viva não é simplesmente aquela que mantém suas tradições, mas
aquela que permanece debaixo da autoridade da Palavra e sensível à ação do
Espírito Santo.
Precisamos voltar à Bíblia
Talvez uma das maiores
necessidades da igreja contemporânea não seja inventar novas formas de atrair
pessoas, mas voltar a ensinar profundamente aquilo que a Bíblia já ensinou.
Jesus disse: “Se vós
permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e
conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8:31-32
A solução para uma igreja
esvaziada não está simplesmente em tornar o culto mais atraente, aumentar a
programação ou criar novos métodos.
Antes de tudo, precisamos
perguntar:
Estamos ensinando a Palavra?
Estamos formando discípulos?
Estamos conduzindo as
pessoas a Cristo ou apenas à nossa tradição?
Estamos ensinando aquilo que
a Bíblia diz ou aquilo que sempre aprendemos?
Estamos permitindo que o
Espírito Santo transforme vidas ou apenas tentando preservar uma aparência
religiosa?
Enfim:
Nicodemos era mestre, mas
ainda precisava aprender. Essa é uma lição que todos nós precisamos guardar.
Ninguém está acima da
necessidade de conhecer a Palavra.
A religiosidade pode ensinar
o homem a parecer espiritual; a Palavra de Deus o chama à transformação.
A religiosidade pode
produzir aparência; o Espírito produz novo nascimento.
A religiosidade pode criar
distância entre pessoas; Cristo chama para a reconciliação.
A religiosidade pode
defender costumes; a Palavra revela a verdade.
E talvez a pergunta de Jesus
a Nicodemos precise ecoar dentro da igreja: “Tu és mestre...e não sabes isso?”
Que Deus nos livre de sermos
religiosos conhecedores de costumes, mas ignorantes das Escrituras.
Que nossas igrejas não sejam
apenas lugares onde pessoas aprendem como ser religiosas, mas lugares onde
pecadores encontram Cristo, discípulos aprendem a Palavra e vidas são
transformadas pelo Espírito Santo.
Porque uma igreja pode
sobreviver com poucos recursos, mas dificilmente permanecerá espiritualmente
viva quando a religiosidade ocupa o lugar da Palavra e o conhecimento bíblico é
substituído por tradições humanas.




