Quando a autoridade pastoral vira dominação espiritual


Vladimir Chaves

Quando o pastor deixa de conduzir as ovelhas a Cristo e começa a exigir que as ovelhas se submetam a ele

“Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens.” Atos 5:29

A autoridade pastoral é bíblica. A dominação espiritual, não.

Deus estabeleceu líderes para cuidar do seu povo, ensinar a Palavra, proteger o rebanho e conduzir os cristãos ao amadurecimento espiritual. Porém, quando o líder deixa de ser servo e passa a exigir submissão pessoal, quando o púlpito se transforma em instrumento de autopromoção, quando discordar do pastor passa a ser tratado como rebelião contra Deus e quando pessoas são expulsas simplesmente porque não se submetem aos caprichos da liderança, estamos diante de uma grave distorção da autoridade espiritual.

O pastor foi chamado para servir ao rebanho, não para ser servido pelo rebanho.

Pedro foi muito claro: “Nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos para o rebanho” 1 Pedro 5:3

A expressão é contundente: “nem como dominadores”.

O pastor não recebe das Escrituras autorização para controlar consciências, intimidar membros ou exigir uma lealdade que ultrapasse a lealdade a Cristo.

Quando isso acontece, a autoridade deixa de ser pastoral e começa a se transformar em dominação espiritual.

E onde existe dominação, frequentemente aparece o medo.

Medo de questionar.

Medo de discordar.

Medo de interpretar a Bíblia de maneira diferente.

Medo de perder amizades.

Medo de ser exposto no púlpito.

Medo de ser chamado de rebelde.

Medo de ser expulso.

Uma igreja pode estar cheia de pessoas aparentemente obedientes e, ainda assim, estar espiritualmente doente.

Porque silêncio não é necessariamente submissão a Deus.

Às vezes, é apenas medo de um homem.

Jesus, porém, não morreu na cruz para substituir a escravidão do pecado pela escravidão psicológica a líderes religiosos.

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8:32

A verdade liberta inclusive da manipulação religiosa.

O cristão deve respeitar seu pastor, mas não pode colocar o pastor acima da Palavra.

Pode ouvir o pastor, mas precisa examinar aquilo que ele ensina.

Pode reconhecer sua liderança, mas jamais deve entregar a ele a própria consciência.

Os bereanos foram considerados nobres justamente porque examinavam as Escrituras para verificar se aquilo que Paulo ensinava era verdadeiro: “Examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim” Atos 17:11

Se os bereanos examinaram até mesmo o ensino de Paulo, por que um pastor moderno exigiria que ninguém examinasse suas palavras?

Quem realmente confia na verdade não tem medo de ser examinado pela Palavra.

O problema começa quando o líder precisa impedir o exame.

Quando precisa desqualificar quem pergunta.

Quando chama de rebelde aquele que pensa.

Quando usa versículos isolados para silenciar seus críticos.

Quando transforma sua opinião pessoal em “revelação”.

Quando utiliza o púlpito para atacar pessoas que não podem responder.

Quando cria uma cultura na qual ele sempre está certo e os demais sempre estão errados.

Isso não é maturidade espiritual.

É culto à personalidade religiosa.

Paulo declarou: “Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor.” 2 Coríntios 4:5

Essa deveria ser a regra de ouro de todo púlpito:

Não pregar a si mesmo.

Não promover a si mesmo.

Não glorificar a si mesmo.

Não exigir reverência para si mesmo.

Mas anunciar Cristo.

O púlpito não é um trono.

É um lugar de serviço.

O pastor não é o dono da igreja.

Jesus disse: “Edificarei a minha igreja.” Mateus 16:18

“Minha igreja.”

A igreja pertence a Cristo.

As ovelhas pertencem a Cristo.

O rebanho pertence a Cristo.

E só Cristo tem autoridade para julgar seu rebanho

E o pastor é apenas um administrador daquilo que pertence ao Senhor.

Por isso, quando um líder passa a agir como proprietário da igreja, ele está ultrapassando os limites de sua função.

E quando exige uma reverência que pertence somente a Deus, o problema se torna ainda mais grave.

Jesus ensinou: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto.” Mateus 4:10

Pastor não é objeto de adoração.

Pastor não é mediador absoluto entre Deus e os homens.

Pastor não é infalível.

Pastor não está acima das Escrituras.

Pastor não é o senhor da consciência dos fiéis.

Cristo é o Senhor.

E quando existe conflito entre aquilo que um líder determina e aquilo que Deus estabeleceu, a resposta dos apóstolos permanece atual:

“Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens.” Atos 5:29

Essa frase deveria ser suficiente para destruir qualquer pretensão de autoridade absoluta dentro da igreja.

O verdadeiro pastor não teme perder o controle

Um pastor verdadeiramente comprometido com Cristo não precisa manter as pessoas presas pelo medo.

Ele ensina.

Ele orienta.

Ele aconselha.

Ele corrige com mansidão.

Ele aceita ser questionado.

Ele reconhece quando erra.

Ele conduz as pessoas às Escrituras.

E, acima de tudo, ele aponta para Cristo.

João Batista compreendeu perfeitamente sua missão: “Convém que ele cresça e que eu diminua.” João 3:30

Essa deveria ser a oração silenciosa de todo verdadeiro pastor: “Senhor, que as pessoas não dependam de mim. Que elas dependam apenas de Ti.”

O líder narcisista, porém, deseja o contrário.

Ele precisa ser lembrado.

Precisa ser elogiado.

Precisa ser obedecido.

Precisa ser reverenciado.

Precisa ser defendido.

Precisa controlar.

E quando alguém deixa de alimentar seu ego, transforma o discordante em inimigo.

Mas o Evangelho não chama o pastor para construir um império pessoal.

Chama-o para cuidar das ovelhas de Cristo.

E um dia, todos os líderes terão de prestar contas ao verdadeiro Pastor: “Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória” 1 Pedro 5:4

Portanto, a pergunta não é simplesmente:

“O pastor tem autoridade?”

Sim, tem.

A pergunta correta é:

“Como ele está usando a autoridade que recebeu?”

Para servir ou para dominar?

Para ensinar ou para manipular?

Para aproximar as pessoas de Cristo ou para torná-las dependentes dele?

Para proteger o rebanho ou para proteger o próprio ego?

Para glorificar Jesus ou para construir sua própria imagem?

Porque existe uma diferença gigantesca entre autoridade espiritual e autoritarismo religioso.

A primeira serve.

A segunda controla.

A primeira aponta para Cristo.

A segunda aponta para o líder.

A primeira produz maturidade.

A segunda produz dependência.

A primeira conduz pela verdade.

A segunda governa pelo medo.

E onde Cristo é verdadeiramente o centro, nenhum homem precisa ocupar o lugar que pertence somente a Ele.

A graça do Senhor Jesus seja com todos.

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