Jesus fez uma pergunta que
continua profundamente atual: “Por que transgredis vós também o mandamento de
Deus, por causa da vossa tradição?” (Mateus 15:3). Em seguida, declarou:
“Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mateus
15:8), e completou: “Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são
preceitos de homens” (Mateus 15:9).
Essas palavras nos levam a
uma reflexão necessária sobre a maneira como lidamos com a Palavra de Deus. O
problema não está simplesmente em possuir tradições, opiniões ou interpretações
humanas, mas em permitir que elas ocupem o lugar que pertence às Escrituras.
Quando aquilo que os homens dizem passa a ter mais autoridade do que aquilo que
Deus revelou, a fé corre o risco de se afastar de sua verdadeira fonte.
É preocupante ouvir
ministros da Palavra afirmarem que estudar a Bíblia não é tão importante,
porque o Espírito Santo capacitaria aqueles que não estudam. É verdade que o
Espírito Santo capacita, ensina e conduz o servo de Deus. Porém, isso jamais
significa que o estudo das Escrituras seja desnecessário. Paulo orientou
Timóteo: “Procura apresentar-te a Deus aprovado”, e acrescentou que ele deveria
manejar corretamente “a palavra da verdade” (2Tm 2:15). O mesmo apóstolo
também afirmou que “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino”
(2Tm 3:16).
O Espírito Santo não foi
dado para nos tornar indiferentes à Palavra, mas para nos conduzir à verdade. A
capacitação espiritual não é uma desculpa para a falta de preparo. Pelo
contrário, quanto maior for a responsabilidade de ensinar, maior deve ser o compromisso
com o conhecimento e a fidelidade às Escrituras.
Também merece atenção a
linguagem usada por quem ocupa o púlpito. É diferente dizer “segundo
estudiosos, isso aconteceu dessa maneira” e afirmar aquilo que a Bíblia
realmente ensina. Estudos históricos, arqueológicos e acadêmicos podem
contribuir para a compreensão do contexto bíblico, mas não devem substituir a
autoridade das Escrituras. O pregador cristão precisa saber distinguir entre
uma informação histórica, uma interpretação pessoal e aquilo que está
claramente revelado na Palavra.
O púlpito não deve ser lugar
para exibir opiniões pessoais como se fossem revelação divina. Quando a Bíblia
diz, devemos dizer: “A Palavra de Deus afirma”. Quando o texto não afirma algo
claramente, é mais honesto reconhecer: “Essa é uma interpretação” ou “há
diferentes entendimentos sobre essa questão”. Humildade também faz parte da
fidelidade bíblica.
Jesus advertiu: “Deixai-os;
são cegos, guias de cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, cairão ambos no
barranco” (Mt 15:14). A advertência é séria porque quem ensina não
influencia apenas a si mesmo. Suas palavras podem orientar pessoas, formar
convicções e até determinar a maneira como elas compreendem a fé.
Por isso, precisamos voltar
ao princípio: nem tradição humana, nem opinião pessoal, nem a palavra de
estudiosos deve ocupar o lugar da Palavra de Deus. O Espírito Santo capacita,
mas também nos conduz às Escrituras. O verdadeiro ministro não precisa escolher
entre depender do Espírito e estudar a Bíblia; ele deve fazer as duas coisas.
Onde a Palavra de Deus é
colocada no centro, o Espírito Santo não é diminuído; é honrado. E onde a
opinião humana toma o lugar das Escrituras, mesmo que haja muita eloquência,
existe o risco de se ensinar sobre Deus sem, de fato, permanecer fiel ao que
Deus disse.

