“Lâmpada para os meus pés é
tua palavra e luz, para os meus caminhos.” Salmos 119:105
É possível existir uma
igreja sem templo, porque a Igreja de Cristo não está limitada a paredes ou
construções. É possível existir uma igreja sem conjuntos musicais, porque a
adoração não depende de instrumentos. É possível existir uma igreja sem departamentos,
sem grandes estruturas administrativas e até sem recursos financeiros. Mas
existe algo do qual a Igreja jamais poderá abrir mão: a Palavra de Deus.
Uma igreja pode perder sua
estrutura física e continuar sendo Igreja. Pode perder seus recursos materiais
e continuar cumprindo sua missão. Entretanto, quando perde o compromisso com as
Escrituras, começa a perder aquilo que fundamenta sua própria identidade.
Afinal, a Igreja não nasceu da criatividade humana, mas dá vontade de Deus, e
tem na Bíblia sua referência de fé, doutrina e conduta.
O problema de muitas
comunidades cristãs não é a ausência de atividades, mas a possibilidade de
haver muitas atividades sem profundidade bíblica. É possível ter cultos bem
organizados, músicas emocionantes, templos cheios e departamentos funcionando,
mas oferecer pouco espaço para o ensino cuidadoso da Palavra. Nesse cenário, a
aparência de vitalidade pode esconder uma preocupante fragilidade espiritual.
Uma igreja pode estar cheia
de pessoas e, ainda assim, vazia de conhecimento bíblico. Pode ter muitos
ouvintes, mas poucos discípulos preparados para compreender, praticar e
defender aquilo em que afirmam acreditar. Emoção não substitui conhecimento,
entusiasmo não substitui convicção e experiência religiosa não substitui
fundamento doutrinário.
O apóstolo Paulo escreveu: “Toda
a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para repreensão, para
correção, para educação na justiça.” 2 Timóteo 3:16
A Palavra não serve apenas
para consolar. Ela também ensina, confronta, corrige e instrui. Isso significa
que nem sempre encontraremos nas Escrituras aquilo que gostaríamos de ouvir,
mas encontraremos aquilo de que precisamos para ajustar nossa maneira de pensar
e viver.
Quem lê a Bíblia com
sinceridade descobre que ela não existe para confirmar todas as nossas
opiniões. Muitas vezes, somos nós que precisamos rever nossas opiniões à luz
dela. A Palavra confronta nossos interesses, questiona nossas justificativas e
expõe nossas contradições.
Por isso, um cristão que não
desenvolve o hábito de ler e estudar a Bíblia corre o risco de construir uma fé
dependente exclusivamente daquilo que outras pessoas dizem. Passa a acreditar
porque alguém afirmou, a defender porque ouviu de um pregador e a repetir
ensinamentos sem saber se realmente correspondem às Escrituras. Uma fé assim se
torna vulnerável, porque não possui raízes suficientemente profundas.
Não basta frequentar uma
igreja para conhecer a vontade de Deus. Não basta ouvir sermões para
desenvolver discernimento espiritual. É necessário abrir as Escrituras,
examiná-las, estudá-las e permitir que seus ensinamentos alcancem nossa
consciência e nossas decisões.
Foi justamente por isso que
os bereanos receberam reconhecimento especial:
“Ora, estes de Bereia eram mais
nobres que os de Tessalônica, pois receberam a palavra com toda avidez,
examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato,
assim.” Atos 17:11
Eles ouviam a pregação, mas
não abandonavam o exame pessoal das Escrituras. Esse comportamento precisa ser
recuperado em nossos dias. O cristão não deve aceitar qualquer ensinamento
simplesmente porque foi apresentado em um púlpito ou pronunciado por alguém que
possui reconhecimento religioso. A autoridade final da doutrina cristã não está
na popularidade do pregador, mas na Palavra de Deus.
É impossível amar
verdadeiramente a Deus e tratar com indiferença aquilo que Ele revelou sobre si
mesmo.
Amar a Bíblia não significa
apenas possuir exemplares em casa, carregar um aplicativo no celular ou
publicar versículos nas redes sociais. O amor pelas Escrituras se revela na
disposição de conhecê-las e obedecê-las.
Jesus declarou: “Se me
amais, guardareis os meus mandamentos.” João 14:15
O amor a Cristo não pode ser
separado da disposição de levar a sério aquilo que Ele ensinou. Não podemos
desejar somente as bênçãos e ignorar as responsabilidades do discipulado.
A Bíblia não foi entregue à
Igreja apenas para ser lida durante os cultos, mas para orientar a vida dos
cristãos em todos os lugares: dentro de casa, no trabalho, nos relacionamentos
e nas decisões do cotidiano.
Uma pessoa pode conhecer
muitos hinos, frequentar a igreja há décadas e até ocupar uma posição de
liderança, mas, se não conhece as Escrituras, como poderá discernir entre o que
é verdadeiro e o que é falso? Como reconhecerá um ensino distorcido?
O próprio Senhor Jesus
enfrentou esse problema ao declarar:
“Errais, não conhecendo as
Escrituras, nem o poder de Deus.” Mateus 22:29
A ignorância das Escrituras
produz erros que poderiam ser evitados pelo conhecimento. O tempo de igreja não
substitui o conhecimento da Palavra, assim como a experiência religiosa não
dispensa o aprendizado.
Por isso, estudar a Bíblia
não é responsabilidade exclusiva do pastor ou dos professores da Escola Bíblica
Dominical. Todo cristão precisa desenvolver sua própria familiaridade com as
Escrituras. O pastor tem a responsabilidade de ensinar, mas cada membro tem a
responsabilidade de examinar, aprender e praticar.
Uma Igreja verdadeiramente
comprometida com Cristo não é aquela que apenas reúne pessoas, organiza eventos
e mantém suas atividades. É aquela que permite que a Palavra determine sua
identidade, corrija seus caminhos e estabeleça seus valores.
Podemos perder estruturas e
reconstruí-las. Podemos ficar sem recursos e recomeçar. Podemos atravessar
períodos difíceis e reorganizar nossos trabalhos. Mas jamais devemos considerar
aceitável perder a centralidade das Escrituras.
Uma igreja sem templo ainda
pode ser Igreja. Uma igreja sem instrumentos ainda pode adorar. Uma igreja sem
departamentos ainda pode cumprir sua missão. Mas uma igreja sem a Palavra de
Deus perde sua referência, sua direção e o fundamento que sustenta sua fé.
E, individualmente,
precisamos fazer uma pergunta: se retirássemos de nossa rotina religiosa os
cultos, as músicas e as atividades da igreja, quanto da Palavra de Deus
permaneceria vivo em nossos pensamentos, escolhas e comportamentos?
Essa reflexão nos ajuda a perceber se nossa fé está sustentada apenas por uma estrutura religiosa ou se está verdadeiramente fundamentada no conhecimento e na obediência às Escrituras.
O cristianismo não pode ser
reduzido à frequência aos cultos ou à identificação com uma denominação. Ser
discípulo de Jesus exige compromisso com sua Palavra. É preciso conhecê-la para
não ser enganado, compreendê-la para não distorcê-la e praticá-la para que
nossa profissão de fé corresponda à maneira como vivemos.
A Igreja pode até sobreviver
sem muitas coisas que consideramos importantes, mas não pode substituir a
Bíblia por discursos, entretenimento, tradições ou opiniões humanas.
Não sejamos apenas pessoas
que frequentam lugares onde a Bíblia é mencionada. Sejamos cristãos que
conhecem, examinam, respeitam e obedecem à Palavra de Deus.
Porque não basta ter uma
Bíblia aberta sobre a mesa se ela permanece fechada em nossa vida. Não basta
ouvir a Palavra aos domingos se nossas decisões durante a semana são tomadas
sem considerar seus ensinamentos.
Uma Igreja pode existir sem
muitas coisas, mas jamais sem a Palavra. E um cristão que não tem compromisso
com as Escrituras precisa rever os fundamentos da própria fé.
Não é a quantidade de
Bíblias que possuímos que demonstra nossa maturidade espiritual, mas o quanto
permitimos que a Palavra de Deus transforme aquilo que pensamos, falamos e
fazemos.
A Bíblia ensina que a fé
cristã está fundamentada na Palavra de Deus:
“E, assim, a fé vem pela
pregação, e a pregação, pela palavra de Deus.” Romanos 10:17
Também está escrito: “Jesus,
porém, respondeu: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a
palavra que sai da boca de Deus.” Mateus 4:4
E ainda: “Desejai ardentemente,
como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, vos seja
dado crescimento para salvação.” 1 Pedro 2:2


