Carnaval: Celebrando o prazer, ignorando as consequências


Vladimir Chaves


“Ai dos que se levantam pela manhã para seguir a bebida forte… e não consideram as obras do Senhor.” (Isaías 5:11-12)

O brado de Isaías não pertence a um passado distante. Ele descreve, com precisão desconfortável, a realidade de uma geração que transformou o excesso em virtude e a ausência de Deus em estilo de vida. O profeta denuncia uma sociedade que amanhece buscando embriaguez e adormece ignorando o Senhor. A pergunta é inevitável: o que mudou?

Em períodos como o carnaval, essa advertência bíblica ganha contornos ainda mais evidentes. O discurso oficial fala de cultura, liberdade e alegria. Mas, por trás da narrativa romantizada, o que se vê é a celebração da desmedida. Exalta-se a perda de controle como se fosse libertação. Trata-se a embriaguez como direito, a sensualização como empoderamento e a irresponsabilidade como autenticidade.

Não se trata de demonizar cultura ou música. O problema é outro: quando o prazer ocupa o trono e Deus é empurrado para a periferia da consciência. Quando qualquer limite é visto como opressão. Quando a única regra é “sentir”, “experimentar” e “aproveitar”, independentemente das consequências.

A sociedade repete, quase como um dogma: “Você merece ser feliz.” Mas nunca explica que felicidade construída sobre impulsos é frágil. O álcool e as drogas prometem euforia, mas frequentemente entregam acidentes, violência e decisões irreversíveis. A liberdade proclamada nas ruas muitas vezes termina em lares feridos, consciências culpadas e relacionamentos despedaçados.

Há um custo, sempre há. Só que ele raramente aparece nas propagandas, nos discursos oficiais ou nas postagens festivas. Ele surge depois: nas estatísticas de violência, nas famílias desestruturadas, nas vidas marcadas por escolhas feitas sob efeito de instantes intensos e pouco refletidos.

Isaías descreve festas, instrumentos, celebrações. O problema nunca foi a música. O problema era a indiferença espiritual. “Não consideram as obras do Senhor.” Eis o diagnóstico. Uma sociedade pode cantar alto e, ainda assim, estar espiritualmente surda. Pode sorrir para as câmeras e, ao mesmo tempo, caminhar para o vazio.

O cristianismo não propõe uma vida sem alegria. Pelo contrário: oferece uma alegria que não depende de substâncias químicas, não exige máscaras e não cobra juros emocionais depois. A alegria que vem de Deus não destrói vínculos, não banaliza o corpo, não transforma pessoas em objetos de consumo momentâneo.

O que está em jogo não é um evento isolado, mas uma mentalidade: a crença de que prazer sem responsabilidade não causa danos. A história mostra o oposto. Civilizações não entram em colapso apenas por crises econômicas ou políticas, mas por erosão moral; quando o excesso deixa de ser vício e passa a ser celebrado como valor.

Ignorar isso não é sinal de progresso; é sinal de cegueira voluntária. O alerta de Isaías continua ecoando porque continua necessário. Uma geração que se acostuma a viver anestesiada dificilmente perceberá quando estiver espiritualmente falida.

A questão final não é cultural, é espiritual: quem ocupa o centro? O prazer momentâneo ou o Senhor da vida? Porque toda sociedade que escolhe viver sem considerar as obras de Deus acaba, inevitavelmente, colhendo as consequências dessa decisão.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

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As três vezes que Deus escreveu


Vladimir Chaves

A Bíblia registra momentos únicos em que o próprio Deus escreveu. Não foram palavras apenas proclamadas, mas mensagens gravadas pelo “dedo de Deus”. Cada registro carrega um significado profundo e revela quem Ele é: santo na Lei, justo no juízo e misericordioso na graça.

Quando Deus escreve, Ele não escreve por acaso. Ele escreve para revelar, confrontar e transformar.

Deus escreveu na pedra: A Lei

Êxodo 31:18

No Monte Sinai, Deus escreveu os Dez Mandamentos em tábuas de pedra. Entre eles estavam palavras como:

“Não terás outros deuses diante de mim.”

“Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão.”

“Honra teu pai e tua mãe.”

“Não matarás. Não adulterarás. Não furtarás.”

A Lei mostra que Deus é santo, justo e verdadeiro. Ali aprendemos que existe um padrão divino para a vida. Deus estabelece limites porque nos ama. A Lei revela o caráter de Deus e mostra ao homem a necessidade de viver em obediência.

Deus escreveu na parede: O Juízo

Daniel 5:25

No palácio da Babilônia, durante um banquete marcado pela arrogância do rei Belsazar, apareceu uma mão que escreveu na parede:

MENE, MENE, TEQUEL, PARSIM

Daniel interpretou assim:

MENE: Deus contou os dias do teu reino e lhe pôs fim.

TEQUEL: Pesado foste na balança e achado em falta.

PARSIM: O teu reino foi dividido.

Foi uma mensagem direta de juízo. Deus mostrou que vê tudo e que nenhum império é eterno diante Dele.

A escrita na parede nos lembra que a soberba passa, mas a justiça de Deus permanece.

Deus escreveu na terra: A Graça

João 8:6-8

Diante de uma mulher acusada de adultério, Jesus se inclinou e escreveu no chão. A Bíblia não revela o que Ele escreveu.

Alguns entendem que poderia ter escrito pecados ocultos dos acusadores. Outros creem que foi apenas um gesto de autoridade e silêncio. O fato é que, logo depois, Ele declarou:

“Quem dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra.”

Um a um, todos saíram. E então Jesus disse: “Nem eu também te condeno; vai e não peques mais.”


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O caminho da humildade que nos salvou


Vladimir Chaves

 

Filipenses 2 nos conduz ao centro do Evangelho: a humildade voluntária de Cristo. Paulo exorta a igreja a ter o mesmo “sentimento” de Jesus, isto é, o mesmo modo de pensar. Trata-se de uma mente moldada pela humildade, pelo amor e pela obediência. Ter a mente de Cristo é renunciar ao egoísmo e viver para a glória de Deus e o bem do próximo.

Cristo, sendo Deus, não se apegou aos seus direitos divinos (Fp 2.6). Diferente de Adão, que quis ser como Deus, Jesus, sendo Deus, humilhou-se. Ele se esvaziou voluntariamente, não deixando de ser divino, mas abrindo mão da manifestação de sua glória para assumir a forma de servo. O Rei dos céus fez-se homem para cumprir o plano da redenção.

Sua humilhação culminou na cruz. Jesus foi obediente até a morte, e morte de cruz (Fp 2.8). Enquanto a desobediência de Adão trouxe condenação, a obediência de Cristo trouxe justificação (Rm 5.19). Nossa salvação é fruto dessa entrega perfeita, não de nossos méritos.

Contemplar esse caminho nos desafia a viver do mesmo modo. Se Ele se humilhou, devemos cultivar humildade. Se Ele obedeceu ao Pai, também somos chamados a obedecer. Seguir a Cristo é trilhar o caminho da entrega, certos de que toda glória pertence a Deus.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

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O valor da alma à luz da eternidade


Vladimir Chaves

“Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?” (Mt 16:26)

Jesus faz uma das perguntas mais impactantes de todo o Evangelho: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”

Hoje as pessoas medem o sucesso pelas conquistas visíveis. Desde cedo, somos incentivados a buscar reconhecimento, estabilidade financeira, influência, conforto e realização pessoal. Nada disso, em si, é errado. O problema começa quando essas coisas ocupam o lugar que pertence a Deus e passam a definir o sentido da vida.

Quando Jesus fala em “ganhar o mundo inteiro”, Ele não se refere apenas a riquezas materiais. O “mundo” representa tudo aquilo que pode capturar o coração humano e afastá-lo do propósito eterno: ambições desordenadas, vaidade, orgulho, poder, prazer sem limites e uma vida vivida sem referência ao Criador. É possível ter muito e, ainda assim, estar espiritualmente vazio.

Já “perder a alma” é um processo silencioso. A alma se perde quando Deus deixa de ser prioridade, quando a comunhão é trocada pela pressa, quando a consciência é calada para acomodar escolhas erradas, quando o coração se acostuma a viver longe da presença divina. A pessoa continua vivendo, produzindo, sorrindo, mas por dentro vai se afastando da fonte da vida.

Jesus então aprofunda a reflexão com outra pergunta:

“Ou que dará o homem em troca da sua alma?”

Aqui, Ele nos lembra que a alma tem um valor incalculável. Tudo neste mundo pode ser substituído: bens, cargos, títulos, até oportunidades perdidas. Mas a alma não pode ser recomprada com dinheiro, nem restaurada por status ou aplausos humanos. Ela só encontra redenção em Deus.

Essa palavra nos convida a olhar para a vida com os olhos da eternidade. O que hoje parece essencial pode, amanhã, perder completamente o sentido. O que hoje é invisível (fé, obediência, comunhão com Deus) é justamente o que permanece para sempre. Jesus não está condenando o trabalho, o crescimento ou os sonhos, mas está ensinando que nada deve ser buscado à custa da alma.

Seguir a Cristo, como o próprio contexto do texto ensina, envolve renúncia. Não uma renúncia vazia, mas consciente. É escolher dizer “não” ao que destrói a vida espiritual para dizer “sim” ao que produz vida eterna. É entender que perder para Deus nunca é perda, e que ganhar sem Deus sempre será prejuízo.

Mateus 16:26 nos chama a reorganizar prioridades. Ele nos lembra que a vida não termina aqui e que cada decisão carrega peso eterno. No fim, a grande pergunta não será quanto acumulamos, mas quem fomos diante de Deus.

A alma é o bem mais precioso do ser humano.

Cuidar dela é sabedoria.

Preservá-la é obediência.

Entregá-la a Deus é o maior investimento que alguém pode fazer.

Porque tudo passa, mas a alma permanece.

E somente em Deus ela encontra descanso.

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Campina Grande e o chamado bíblico para a família cristã


Vladimir Chaves

A aprovação, pela Câmara dos Deputados, do Projeto de Lei que reconhece Campina Grande como a cidade que reúne o maior número de famílias cristãs do Brasil durante o período do Carnaval vai além de um ato legislativo. O reconhecimento evidencia uma identidade espiritual construída ao longo dos anos e reforça o papel da cidade como referência nacional na valorização da fé cristã e da família.

Em um contexto em que a fé cristã enfrenta constantes desafios e, muitas vezes, é pressionada a permanecer restrita ao âmbito privado, Campina Grande apresenta um testemunho equilibrado e público. Durante esse período do ano, a cidade se torna um espaço dedicado ao ensino bíblico, à oração, ao louvor e à comunhão cristã. Eventos como o Encontro para a Consciência Cristã, o Encontro da Família Católica Crescer, o Encontro da Nova Consciência, o Acampamento Verbo da Vida e diversas programações evangélicas demonstram uma escolha clara: priorizar aquilo que edifica a fé e fortalece os lares.

A Palavra de Deus ensina que o testemunho cristão não deve ser oculto, mas vivido com coerência e responsabilidade:

“Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte” (Mateus 5:14).

Campina Grande, nesse cenário, torna-se um sinal visível de compromisso com os valores do Evangelho. Famílias, jovens e lideranças cristãs de diferentes regiões do país se reúnem para ouvir a Palavra, refletir sobre a vida cristã e renovar sua caminhada com Deus, criando um ambiente de edificação espiritual e comunhão.

O destaque dado à família cristã é especialmente relevante. Em tempos de instabilidade moral e enfraquecimento dos vínculos familiares, ver lares inteiros reunidos em torno da fé reafirma o propósito divino para a família. Como declarou Josué:

“Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Josué 24:15).

Campina Grande demonstra que é possível permanecer fiel ao Evangelho, honrar a Deus e investir na formação espiritual das próximas gerações. Mais do que um título, esse momento reforça o chamado bíblico para que famílias cristãs vivam sua fé de forma consciente, pública e comprometida com a Palavra de Deus.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

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Quando Jesus ora por nós


Vladimir Chaves

“Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos peneirar como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, fortalece teus irmãos.” Lucas 22:31–32

Na noite mais escura da história da humanidade, Jesus faz uma revelação, citada em Lucas 22:31-32:

“Simão, Simão…”

Jesus chama Pedro pelo nome antigo, o nome do homem antes da transformação. É como se dissesse: “Eu conheço quem você é por dentro. Conheço suas fraquezas, seus impulsos, seus medos.”

Então Jesus revela uma realidade invisível: Satanás havia pedido permissão para peneirar os discípulos como trigo. Peneirar é sacudir, balançar, tentar separar o que tem valor do que parece não ter. A fé seria provada, a coragem testada, a lealdade confrontada.

“Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça.”

Jesus não diz que Pedro não cairia. Ele não promete ausência de dor, de vergonha ou de lágrimas. Ele promete algo maior: a fé não seria destruída. A queda não seria o fim da história. O inimigo poderia sacudir, mas não arrancar a raiz da fé que Deus havia plantado.

Isso nos ensina algo: nossa segurança não está na nossa constância, mas na fidelidade de Cristo. Pedro falhou, mas não foi abandonado. A fé vacilou, mas não morreu. O olhar de Jesus depois da negação não foi de condenação, mas de lembrança: “Eu orei por você.”

Quando Jesus diz: “Quando te converteres…”, Ele não está falando de uma nova conversão no sentido de salvação, mas de um retorno quebrantado. Pedro voltaria diferente: menos confiante em si mesmo, mais dependente da graça. A queda o humilhou, mas a graça o restaurou.

E então vem o propósito: “fortalece teus irmãos.”

Quem foi peneirado, tratado e restaurado por Deus se torna instrumento de cuidado. A dor não é desperdiçada. O choro não é inútil. A restauração gera ministério. Pedro, que negou, seria o mesmo que pregaria com ousadia.

Lucas 22:31–32 nos lembra que Jesus não nos ama por causa da nossa firmeza, mas apesar da nossa fragilidade. Ele vê a luta antes que ela comece, intercede antes da queda e nos chama de volta depois do fracasso. A fé verdadeira pode ser abalada, mas não será destruída, porque está sustentada pela oração de Cristo.

No fim, essa passagem nos consola e nos corrige: não somos fortes como pensamos, mas somos guardados como não imaginamos. E isso faz toda a diferença.

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Nem toda paz ou aliança vem de Deus


Vladimir Chaves

“Naquele mesmo dia, Herodes e Pilatos se tornaram amigos; antes, eram inimigos.” Lucas 23:12

Esse versículo é curto, mas carrega um peso espiritual enorme. Ele nos mostra que, no dia mais injusto da história, duas autoridades que viviam em conflito deixaram suas diferenças de lado. O motivo dessa aproximação não foi a verdade, nem a justiça, nem o arrependimento. Foi Jesus; não por quem Ele era, mas por quem eles decidiram rejeitar.

Herodes e Pilatos não se tornaram amigos porque mudaram de caráter. Tornaram-se amigos porque dividiram a mesma postura: a recusa em assumir responsabilidade diante da verdade. Ambos reconheceram, ainda que silenciosamente, que Jesus não era culpado. Mesmo assim, preferiram preservar seus interesses, sua imagem pública e seu poder.

Esse texto revela algo profundo sobre o coração humano: às vezes, a injustiça une mais rápido do que a verdade.

Quando a verdade exige posicionamento, ela separa. Mas quando a conveniência governa, até inimigos se dão as mãos.

Pilatos queria evitar um conflito político. Herodes queria entretenimento, sinais, algo que alimentasse sua curiosidade vazia. Nenhum dos dois queria transformação. Nenhum queria ouvir Deus. Ambos queriam se livrar do incômodo que Jesus representava. E, nesse ponto, eles concordaram.

Há uma ironia dolorosa aqui. Jesus veio ao mundo para reconciliar o homem com Deus, para restaurar relacionamentos quebrados, para unir o que o pecado separou. No entanto, naquele dia, Sua rejeição foi o elo que uniu dois homens. Eles se aproximaram não porque acolheram Cristo, mas porque o descartaram.

Lucas nos ensina que não existe neutralidade diante de Jesus. Pilatos tentou ser neutro. Herodes tentou ser espectador. Mas ambos acabaram participantes da injustiça.

Esse versículo também nos confronta hoje. Ele nos pergunta, em silêncio: com quem eu me alio quando a verdade me custa algo?

Será que, para evitar conflitos, não abrimos mão do que é certo?

Será que, para manter a paz com as pessoas, não silenciamos diante do que Deus já deixou claro?

Nem toda amizade, acordo ou paz é sinal da aprovação de Deus. Algumas alianças nascem do medo de perder posição, aceitação ou conforto. Herodes e Pilatos nos lembram que é possível estar “em paz” com os homens e, ainda assim, em guerra com a verdade.

Lucas 23:12 nos chama a uma decisão pessoal: não basta reconhecer que Jesus é justo; é preciso assumir um posicionamento.

A verdade não pede aplausos, pede fidelidade.

E essa fidelidade, muitas vezes, nos separa.

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Aprender a falar também é maturidade cristã


Vladimir Chaves

“Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem.” (Efésios 4:29)

Na minha opinião, um dos maiores desafios da vida cristã não está no que fazemos, mas no que falamos. Muitas pessoas dizem amar a Deus, mas machucam profundamente com palavras ditas sem cuidado. Efésios 4:29 nos confronta exatamente nesse ponto.

Opinar sem pensar, criticar sem medir as consequências e responder no impulso tornaram-se hábitos comuns. No entanto, a Bíblia nos ensina que o cristão deve ser diferente. Nem toda verdade precisa ser dita de qualquer maneira, e nem toda opinião precisa ser expressa. Muitas vezes, é melhor evitar focar nas partes negativas de um assunto; o ideal é falar daquilo que edifica e traz crescimento.

A Palavra de Deus deixa claro: nossas palavras devem edificar. Isso não significa bajular, mas escolher palavras que constroem e não destroem. Às vezes, o silêncio honra mais a Deus do que um discurso cheio de razão, mas vazio de amor.

Acredito que a maturidade espiritual aparece quando aprendemos a perguntar antes de falar: isso vai ajudar alguém? Vai trazer paz? Vai refletir o caráter de Cristo? Quando deixamos o Espírito Santo governar nossa boca, nossas palavras se tornam canais de graça.

Falar menos e edificar mais talvez seja um dos maiores sinais de uma fé verdadeira.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

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A espiritualidade que condena em nome de Deus


Vladimir Chaves

Quando a religião deixa de ser instrumento de restauração e passa a ser mecanismo de controle, exclusão e julgamento. Julgar pessoas pelas vestes, impor padrões externos como sinal de espiritualidade e condenar sem ouvir defesa não nasce do Evangelho, mas do espírito dos fariseus que Jesus duramente repreendeu.

A Escritura é clara ao afirmar que Deus não olha como o homem olha.

“O Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração.” (1 Samuel 16:7)

Quando irmãos são atacados por não se enquadrarem em um molde religioso (seja pela roupa, pela aparência séria, pelo temperamento mais reservado) ignora-se que o Corpo de Cristo é diverso. Nem todos expressam alegria da mesma forma, nem todos vivem a fé com o mesmo gesto exterior.

“Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo.” (1 Coríntios 12:4)

Ouvir fuxicos, acolher acusações sem dar oportunidade de defesa e permitir que a difamação se espalhe dentro da igreja é negar frontalmente o ensino bíblico. A Palavra condena a língua maldosa e exige justiça nos julgamentos.

“Não aceites acusações contra ninguém sem o depoimento de duas ou três testemunhas.” (1 Timóteo 5:19)

“O que encobre a transgressão busca a amizade, mas o que revolve o assunto separa os maiores amigos.” (Provérbios 17:9)

Mais grave ainda é o uso do púlpito (lugar santo, destinado à edificação) como arma para humilhar, ferir e constranger publicamente, impedindo qualquer defesa. Isso não é autoridade espiritual; é abuso espiritual.

“Apascentai o rebanho de Deus… não como dominadores dos que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho.” (1 Pedro 5:2–3)

Quando líderes exigem fidelidade absoluta a regras humanas, mas relativizam ou ignoram a própria Palavra, repetem exatamente o erro que Jesus denunciou:

“Invalidais a palavra de Deus por causa da vossa tradição.” (Marcos 7:13)

Acusar quem estuda, se prepara e busca crescimento espiritual de “querer aparecer” revela insegurança e medo, não zelo santo. A Bíblia, ao contrário, incentiva o estudo diligente e responsável das Escrituras.

“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.” (2 Timóteo 2:15)

Fechar a cara para quem busca conhecimento, desprezar quem se dedica ao ensino sério e preferir textos prontos e rasos não é sinal de espiritualidade, mas de acomodação.

“O meu povo foi destruído por falta de conhecimento.” (Oséias 4:6)

Diante disso, a pergunta final é inevitável: isso está correto? Isso vem de Deus?

À luz das Escrituras, a resposta é não. O que vem de Deus produz humildade, justiça, misericórdia e amor.

“Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes humildemente com o teu Deus?” (Miquéias 6:8)

Onde há opressão, julgamento precipitado, vaidade religiosa e desprezo pela verdade bíblica, ali não reina o Espírito de Cristo, mas uma caricatura da fé. O Evangelho não veste máscaras, não se alimenta de fuxico e não silencia consciências; ele liberta, transforma e chama ao arrependimento, começando pela liderança e pela própria igreja.

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Quando a fé vira vitrine e o sagrado é usado como escudo


Vladimir Chaves

“Ouvindo todo o povo, disse Jesus aos seus discípulos: Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com vestes longas, amam as saudações nas praças, as primeiras cadeiras nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes; os quais devoram as casas das viúvas e, para o justificar, fazem longas orações. Estes receberão mais duro juízo.” (Lucas 20:45–47)

Lucas 20:45–47 não é apenas uma advertência aos escribas do primeiro século. É um espelho que atravessa o tempo e confronta a fé contemporânea. Jesus não condena a Lei, o ensino ou a liderança espiritual em si, mas algo mais perigoso: o uso da fé como instrumento de autopromoção.

Os escribas ocupavam o topo da autoridade religiosa. Eram referências morais e intérpretes da Escritura. O problema não estava no cargo, mas na distância entre discurso e prática. O ministério virou palco, a devoção virou performance e a oração, estratégia. A fé deixou de ser serviço e passou a ser status.

Essa denúncia ecoa fortemente hoje. Vivemos tempos em que visibilidade vale mais que fidelidade. Há quem fale muito de Deus, mas pouco se pareça com Cristo. Orações longas e discursos eloquentes não garantem comunhão. É possível falar de Deus e, ainda assim, estar longe dEle.

O alerta mais grave está na frase: “devoram as casas das viúvas”. Não é só corrupção financeira, é violência espiritual. É usar o nome de Deus para explorar a fé simples, a dor e a vulnerabilidade. Quando a religião pesa mais do que consola e cobra mais do que ama, ela deixa de refletir o Reino.

Hoje isso aparece quando a fé vira negócio, quando a promessa depende da oferta e o medo do juízo vira controle. Jesus é claro: o juízo será mais severo. Não por injustiça, mas porque quem lida com o sagrado carrega maior responsabilidade.

Há também um chamado pessoal. Esse texto não é só para líderes. Sempre que buscamos aplausos acima da obediência e reconhecimento acima da aprovação divina, flertamos com a mesma espiritualidade vazia. A religião que Jesus rejeita não é a do templo, mas a do ego.

Cristo nos chama a uma fé sem holofotes. Uma espiritualidade que se revela no cuidado com o próximo, na integridade silenciosa, na oração no secreto e na justiça longe das câmeras. O Reino não se constrói com aparência, mas com corações rendidos.

Lucas 20:45–47 nos confronta e nos purifica. Deus não se impressiona com títulos, discursos ou um terno alinhado e bem passado. Ele busca verdade, misericórdia e humildade. No fim, não será avaliada a imagem que projetamos, mas a vida que vivemos diante dEle.

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