Proclamar a Palavra de Deus
é uma grande responsabilidade. Não se trata simplesmente de falar sobre a
Bíblia, ensinar versículos ou ocupar um púlpito. Quem anuncia a Palavra assume
o compromisso de transmitir aquilo que Deus revelou com verdade, reverência e
integridade.
Paulo nos apresenta uma
imagem significativa ao dizer que devemos ser considerados “ministros de Cristo
e despenseiros dos mistérios de Deus”. E acrescenta: “o que se requer dos
despenseiros é que cada um deles seja encontrado fiel” (1 Co 4.1,2).
O despenseiro não é dono
daquilo que administra. Ele recebeu algo que pertence a outro e deve cuidar e
entregar corretamente. Da mesma forma, quem anuncia a Palavra não pode
modificá-la segundo interesses pessoais, conveniências ou preferências humanas.
Fidelidade exige não
adulterar a Palavra
Muitas mensagens são
adaptadas para agradar às pessoas ou, em outros momentos, para atacá-las. Há
uma tendência de selecionar apenas aquilo que interessa ao pregador, enquanto
textos que confrontam o pecado, chamam ao arrependimento e exigem mudança de vida
são deixados de lado.
Entretanto, a fidelidade
bíblica não permite a “pesca de versículos” para atender aos interesses de quem
está no púlpito.
Jesus declarou: “Não só de
pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4).
Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, repreender, corrigir
e instruir em justiça (2 Tm 3.16,17).
Proclamar a Palavra com
fidelidade significa não acrescentar o que Deus não disse, nem retirar aquilo
que preferimos não dizer. A mensagem precisa permanecer acima do mensageiro.
A Palavra precisa ser
anunciada e vivida
Existe uma dimensão ainda
mais profunda da fidelidade: não basta falar corretamente sobre a Palavra; é
necessário viver de acordo com ela.
Nossa vida também é uma
mensagem.
De pouco adianta falar sobre
santidade enquanto cultivamos uma vida distante de Deus. Não faz sentido
ensinar sobre perdão e permanecer dominado pelo ressentimento. Não é coerente
proclamar a fé enquanto nossas atitudes revelam incredulidade.
O testemunho cristão começa
quando a Palavra que anunciamos também transforma nossa própria vida.
Isso não significa
perfeição, mas disposição para obedecer, corrigir os próprios caminhos,
arrepender-se dos erros e permanecer fiel mesmo quando isso custa alguma coisa.
Fidelidade também é
permanecer firme nas tentações
A fidelidade de Deus não
significa ausência de dificuldades e tentações. A Bíblia afirma que seremos
provados, mas Deus permanece conosco.
Paulo escreve: “Deus é fiel
e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente
com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar” (1
Co 10.13).
Essa verdade precisa fazer
parte da nossa proclamação. Quando anunciamos a Palavra, não estamos oferecendo
uma vida sem problemas, mas anunciando um Deus que permanece fiel no meio
deles.
A fé cristã não promete
ausência de lutas; promete a presença de Deus durante elas.
É preciso preparo e
reverência
Proclamar a Palavra também
exige preparo. Jeremias apresenta um contraste entre a palavra humana e a
Palavra de Deus:
“O profeta que tem sonho
conte-o como apenas sonho; mas aquele em quem está a minha palavra fale a minha
palavra com verdade. Que tem a palha com o trigo? Diz o Senhor” (Jr 23.28).
A pergunta de Deus continua
atual.
Nem tudo aquilo que emociona
vem de Deus. Nem toda opinião religiosa possui autoridade bíblica. Nem toda
mensagem bonita é necessariamente verdadeira.
Por isso, quem ensina a
Bíblia precisa estudá-la, conhecê-la e tratá-la com reverência. O mensageiro
fiel não procura fazer a Bíblia dizer aquilo que deseja; procura compreender e
transmitir aquilo que Deus realmente disse.
A fidelidade começa no
coração
Antes de perguntarmos se
estamos proclamando corretamente a Palavra aos outros, devemos perguntar se
estamos permitindo que ela confronte a nós mesmos.
A Palavra que pregamos
precisa primeiro passar pelo nosso próprio coração. Precisamos ouvir antes de
ensinar, obedecer antes de exigir obediência e permitir que Deus transforme
nossa vida antes de tentar transformar a vida dos outros.
A verdadeira proclamação não
acontece apenas diante de uma igreja. Ela acontece também dentro de casa, no
trabalho, nas amizades, nas decisões e na maneira como tratamos as pessoas.
Nossa conduta deve confirmar
aquilo que nossos lábios anunciam.
Proclamar a Palavra de Deus
com fidelidade é muito mais do que repetir textos bíblicos. É assumir a
responsabilidade de ser um fiel despenseiro daquilo que Deus confiou a nós.
É anunciar a verdade sem
adulterá-la, ensiná-la sem omissões, estudá-la com seriedade e, acima de tudo,
vivê-la com sinceridade.
O mundo não precisa de mais
mensagens moldadas para agradar aos homens. Precisa da verdade de Deus
anunciada com amor, coragem e fidelidade.
E, no final, a grande
pergunta não será quanto falamos, quantas pessoas nos ouviram ou quanto
reconhecimento recebemos. A pergunta será:
Fomos fiéis àquilo que Deus colocou em nossas mãos?





