A escada que ligava o céu à terra


Vladimir Chaves

Jacó estava vivendo um dos momentos mais difíceis de sua vida. Ele havia deixado sua casa às pressas, carregando o peso de seus erros, a tristeza da separação da família e a incerteza do futuro. Sem saber exatamente o que encontraria adiante, parou para descansar em um lugar comum, sem qualquer aparência especial. Ali, usando uma pedra como travesseiro, adormeceu.

"Tendo chegado a certo lugar, ali passou a noite, pois já era sol-posto; tomou uma das pedras do lugar, fê-la seu travesseiro e se deitou ali mesmo para dormir” (Gênesis 28:11)

Foi naquela noite, em meio à solidão no deserto, que Deus lhe deu uma das maiores revelações de toda a Bíblia:

"E sonhou: e eis posta na terra uma escada cujo topo atingia o céu; e os anjos de Deus subiam e desciam por ela." (Gênesis 28:12)

Enquanto Jacó contemplava aquela visão, o próprio Senhor lhe falou palavras de promessa, proteção e cuidado:

"Eis que eu estou contigo, e te guardarei por onde quer que fores, e te farei voltar a esta terra; porque te não desampararei, até cumprir eu aquilo que te hei referido." (Gênesis 28:15)

Esse episódio nos ensina uma verdade profunda: Deus não espera que nossa vida esteja perfeita para se aproximar de nós. Jacó não estava em um templo, não estava em um momento de vitória e nem havia alcançado maturidade espiritual. Pelo contrário, encontrava-se em uma fase de fragilidade e insegurança. Mesmo assim, Deus o visitou.

Essa realidade está presente em toda a Escritura:

"Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os de espíritos oprimido." (Salmos 34:18)

Muitas vezes imaginamos que Deus só se manifesta em momentos extraordinários ou em lugares especiais. Pensamos que precisamos resolver todos os problemas primeiro, vencer todas as batalhas e organizar toda a nossa vida para então experimentar sua presença. A experiência de Jacó mostra exatamente o contrário. Deus encontrou Jacó no caminho, durante a jornada, quando ele ainda estava sendo moldado.

A escada representa essa iniciativa divina. Ela não foi construída por Jacó; ela veio do céu. Isso nos lembra que o relacionamento com Deus não começa pelos esforços humanos, mas pela graça de Deus que desce ao encontro do homem.

"Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus." (Efésios 2:8)

É o Senhor quem estabelece a ponte, quem abre o caminho e quem nos convida a caminhar com Ele.

Séculos depois, Jesus faria uma declaração que remete diretamente à visão de Jacó:

"Em acrescentou, em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem." (João 1:51)

Cristo é o verdadeiro elo entre Deus e os homens.

"Porquanto há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem." (1 Timóteo 2:5)

Talvez hoje você também esteja atravessando um "deserto". Pode ser um período de dúvidas, perdas, lutas ou decisões difíceis. Às vezes parece que Deus está distante e que o céu está fechado. Porém, a visão de Jacó nos lembra que existe uma atividade celestial acontecendo mesmo quando nossos olhos não conseguem perceber.

Os anjos subiam e desciam continuamente, mostrando que Deus continua operando, cuidando e dirigindo cada detalhe da vida daqueles que pertencem a Ele.

"Porque aos seus anjos dará ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos." (Salmos 91:11)

E ainda: "Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito." (Romanos 8:28)

O mais impressionante é que Jacó acordou e declarou:

"Despertado Jacó do seu sono, disse: Na verdade, o Senhor está neste lugar; e eu não o sabia." (Gênesis 28:16)

Quantas vezes isso também acontece conosco? Deus está agindo, protegendo, abrindo portas, fechando caminhos perigosos e sustentando nossa fé, mas nem sempre percebemos sua presença no momento. Somente depois, olhando para trás, entendemos que Ele esteve conosco o tempo todo.

"Seja a vossa vida sem avareza. Contai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei." (Hebreus 13:5)

A história da escada de Jacó nos convida a confiar. Ela nos ensina que entre a terra das nossas limitações e o céu das promessas de Deus existe um caminho preparado pelo próprio Senhor. Não estamos abandonados à própria sorte.

"Confia no Senhor de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento." (Provérbios 3:5)

O Deus que falou com Jacó continua falando aos corações, continua cumprindo suas promessas e continua acompanhando os passos daqueles que caminham pela fé.

Talvez você não esteja em Betel, mas esteja em algum lugar de luta, espera ou incerteza. A mensagem da escada continua a mesma: Deus não perdeu você de vista.

"Os olhos do Senhor repousam sobre os justos, e os seus ouvidos estão abertos ao seu clamor." (Salmos 34:15)

Mesmo quando tudo parece silencioso, o céu continua conectado à terra. O Senhor continua trabalhando em favor daqueles que confiam nEle.

"Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro Deus e a vida eterna." (1 João 5:20)

O lugar onde você está hoje pode não parecer especial, mas se Deus estiver presente, até mesmo um deserto pode se transformar em Betel.

"E ao lugar, cidade que outrora se chamava Luz, deu o nome de Betel." (Gênesis 28:19)

E aquilo que hoje parece apenas uma parada difícil na caminhada pode se tornar o cenário de uma das maiores experiências espirituais da sua vida.

"Invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás." (Salmos 50:15)

A escada que Jacó viu aponta para Cristo. Em Jesus, o céu permanece aberto para todo aquele que crê, e as promessas de Deus continuam firmes para aqueles que caminham pela fé.

terça-feira, 2 de junho de 2026

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Quando a tradição humana ocupa o lugar da verdade de Cristo


Vladimir Chaves

"Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens" (Marcos 7:7).

As palavras de Jesus em Marcos 7:7 são um alerta que continua extremamente atual. Ele não estava falando a pessoas que rejeitavam a religião, mas justamente àqueles que se consideravam os mais zelosos na adoração a Deus. O problema não era a falta de culto ou de práticas religiosas. O problema era que eles haviam substituído a vontade de Deus por tradições humanas.

O texto nos obriga a refletir sobre uma questão desconfortável: é possível estar dentro de um ambiente religioso, participar de todas as atividades, defender costumes e ainda assim estar distante daquilo que Deus realmente deseja. Jesus declarou que aquela adoração era "em vão", ou seja, inútil diante de Deus. Não porque faltasse sinceridade, mas porque a base da fé estava sendo construída sobre mandamentos humanos e não sobre a Palavra divina.

Essa advertência merece uma análise crítica dos nossos dias. Em muitos lugares, opiniões de líderes são tratadas como se fossem verdades absolutas. Costumes locais ganham a mesma autoridade das Escrituras. Tradições herdadas de gerações anteriores são defendidas com mais rigor do que os ensinamentos bíblicos. Quando isso acontece, corre-se o risco de repetir exatamente o erro que Jesus condenou.

Um dos efeitos mais nocivos desse processo é o abuso religioso. Quando homens assumem para si uma autoridade que pertence somente à Palavra de Deus, a fé deixa de ser conduzida pela verdade e passa a ser controlada pelo medo, imposição, culpa e pressão humana. Em vez de apontar as pessoas para Cristo, alguns religiosos acabam criando dependência de regras, costumes e exigências que jamais foram estabelecidos nas Escrituras.

O rigor excessivo em determinados usos e costumes também merece reflexão. A santidade bíblica é indispensável e não deve ser relativizada. Entretanto, existe uma diferença entre ensinar princípios bíblicos e impor tradições humanas como se fossem mandamentos divinos. Quando essa linha é ultrapassada, o foco deixa de ser a transformação do coração e passa a ser a aparência exterior.

Não são poucos os casos de pessoas que se tornaram "desigrejadas" não por rejeitarem a Cristo, mas por terem sido feridas por sistemas que colocaram fardos pesados sobre seus ombros. Muitos foram tratados com severidade por questões secundárias, enquanto pecados mais graves, como orgulho, hipocrisia, fofoca, favoritismo e falta de amor, eram ignorados. O resultado é uma geração que, decepcionada com homens e instituições, acaba se afastando da comunhão cristã.

Jesus enfrentou esse mesmo problema em seu tempo. Aos líderes religiosos, Ele declarou: "Atam fardos pesados e difíceis de carregar, e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmo nem com o dedo querem movê-los" (Mateus 23:4). A crítica não era contra a obediência a Deus, mas contra a criação de exigências humanas que sufocavam as pessoas e obscureciam a graça divina.

Isso não significa que a igreja deva abandonar a disciplina e a reverência. Pelo contrário. A igreja deve permanecer firme na doutrina bíblica. O problema surge quando aquilo que Deus não ordenou passa a ser tratado como condição para aceitação espiritual. Sempre que tradições humanas recebem a mesma autoridade das Escrituras, o evangelho corre o risco de ser substituído por um sistema religioso centrado em homens.

Por isso, o alerta de Jesus continua ecoando em nossos dias. Toda igreja, todo líder e todo cristão deve examinar constantemente suas práticas à luz da Palavra. A pergunta não deve ser: "Nossa tradição é antiga?" ou "Sempre fizemos assim?". A pergunta correta é: "Isso está de acordo com o ensino de Cristo e dos apóstolos?".

O apóstolo Paulo também deixou uma advertência importante: "Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo" (Colossenses 2:8). A segurança da igreja nunca esteve nas tradições humanas, mas na fidelidade ao evangelho.

A verdadeira adoração nasce quando a voz de Deus fala mais alto que as vozes humanas. Quando a Palavra ocupa o centro, a igreja deixa de ser um ambiente de opressão religiosa e se torna um lugar de graça, verdade, discipulado e restauração. Afinal, Deus não chamou seu povo para seguir preceitos inventados pelos homens, mas para andar na liberdade e na verdade reveladas por Cristo.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

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Não é quantas vezes Deus fala, mas o que fazemos com sua palavra


Vladimir Chaves

Quando observamos atentamente a vida de Abraão, Isaque e Jacó, percebemos algo interessante: a Bíblia registra apenas algumas ocasiões específicas em que Deus falou diretamente com eles.

Abraão recebeu diversas revelações ao longo da vida. Isaque teve menos registros de diálogos com Deus. Jacó também experimentou momentos marcantes, mas em número limitado. Ainda assim, os três foram profundamente usados pelo Senhor e se tornaram referências de fé para todas as gerações.

Isso nos ensina uma verdade importante: o que transforma uma vida não é a quantidade de vezes que Deus fala, mas a disposição de obedecer ao que Ele já disse.

Abraão ouviu um chamado para deixar sua terra e partir para um lugar desconhecido. Uma única palavra foi suficiente para mudar sua história e fazê-lo tornar-se o pai da fé.

Isaque não recebeu tantas mensagens quanto seu pai, mas quando Deus lhe ordenou que permanecesse na terra durante a fome, ele obedeceu. Sua fidelidade trouxe prosperidade e confirmou as promessas divinas sobre sua vida.

Jacó, por sua vez, encontrou-se com Deus em momentos decisivos. Em Betel, recebeu uma promessa que o acompanharia por toda a vida. Anos depois, ao retornar à presença do Senhor, teve seu nome mudado para Israel. Cada encontro com Deus marcou uma nova etapa de sua caminhada.

Vivemos em uma época em que muitas pessoas estão sempre buscando uma nova revelação, uma nova palavra ou uma nova direção. Entretanto, muitas vezes Deus já falou através das Escrituras, e o desafio não é ouvir algo novo, mas praticar aquilo que já foi revelado.

A fé não cresce apenas pela busca de experiências extraordinárias. Ela amadurece quando colocamos em prática a vontade de Deus no dia a dia. Abraão, Isaque e Jacó não foram lembrados porque ouviram muito; foram lembrados porque obedeceram.

Jesus ensinou o mesmo princípio ao dizer: "Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam." (Lucas 11:28)

A grande questão não é: "Quantas vezes Deus falou comigo?" A pergunta mais importante é: "O que tenho feito com aquilo que Deus já me falou?"

Uma única palavra de Deus pode mudar uma família, restaurar uma vida, transformar um coração e definir um destino. O segredo está em recebê-la com fé e obedecê-la com perseverança.

Porque, na história dos patriarcas, não foi a quantidade de revelações que fez a diferença. Foi a obediência que seguiu cada revelação recebida.

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Protoevangelho: O primeiro anúncio do Messias


Vladimir Chaves

Nas primeiras páginas da Bíblia, encontramos uma das mensagens mais profundas de toda a história da redenção. Depois que Adão e Eva desobedeceram a Deus e o pecado entrou no mundo, em meio à tristeza da queda, Deus anuncia uma promessa de esperança.

Essa promessa é conhecida como Protoevangelho, que significa "primeiro evangelho" ou "primeira boa notícia". Ela está registrada em Gênesis 3:15, quando Deus declara que a descendência da mulher pisaria a cabeça da serpente. Ali Deus estava apontando para a vinda de Jesus Cristo, aquele que venceria definitivamente o pecado.

O Protoevangelho nos ensina uma verdade importante: Deus não abandonou a humanidade após o pecado. Antes mesmo de o ser humano pedir socorro, Deus já estava revelando seu plano de salvação. Isso mostra que a graça de Deus é maior do que a nossa falha. O pecado trouxe separação, mas Deus iniciou imediatamente o caminho da reconciliação.

Essa passagem nos lembra que a história humana não é definida apenas por suas quedas. Todos nós enfrentamos erros, fraquezas e momentos de fracasso. Contudo, a mensagem do Protoevangelho revela que Deus é especialista em transformar cenários de derrota em oportunidades de restauração. Onde o pecado trouxe dor, Deus anunciou esperança. Onde havia escuridão, Ele acendeu a luz da promessa.

Ao longo de toda a Bíblia, essa promessa vai se tornando cada vez mais clara. Os profetas falaram sobre o Messias, e finalmente Jesus veio ao mundo para cumprir aquilo que havia sido anunciado desde o princípio. A cruz, que parecia uma derrota, tornou-se o instrumento da maior vitória da história. E a ressurreição confirmou que o mal não teria a palavra final.

O Protoevangelho nos convida a olhar para Deus com confiança. Ele conhece nossas lutas, nossas limitações e até as consequências dos nossos erros. Mesmo assim, sua resposta continua sendo a mesma: oferecer redenção, perdão e uma nova oportunidade.

A primeira mensagem após a queda não foi apenas um anúncio de juízo, mas uma promessa de vitória. Isso nos ensina que, para aqueles que confiam em Deus, a esperança sempre tem a última palavra.

A reflexão que fica é:

Se Deus foi capaz de anunciar esperança no momento mais sombrio da humanidade, também pode trazer esperança para qualquer situação que enfrentamos hoje. O Protoevangelho nos lembra que a graça de Deus começa onde nossas forças terminam e que seus planos de redenção são maiores do que nossas quedas.

sábado, 30 de maio de 2026

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Nem toda linguagem espiritual vem de Deus: A lição de Jacó em Gênesis 27


Vladimir Chaves

Um dos perigos mais sutis da vida espiritual é usar o nome de Deus para dar legitimidade aos próprios desejos, opiniões ou interesses. A Bíblia apresenta um exemplo marcante dessa realidade na história de Jacó. Quando seu pai, Isaque, perguntou como ele havia conseguido a caça tão rapidamente, Jacó respondeu: “Porque o Senhor teu Deus a mandou ao meu encontro” (Gênesis 27:20). Naquele momento, ele não apenas mentiu; usou o nome de Deus para dar aparência de verdade ao seu engano.

Esse episódio nos ensina que nem toda fala revestida de linguagem espiritual procede de Deus. Jacó tentou esconder sua fraude atrás de uma justificativa religiosa. O problema não foi apenas a mentira, mas a tentativa de envolver Deus em algo que Deus jamais aprovaria.

Infelizmente, esse perigo continua presente em nossos dias. Muitas vezes ouvimos declarações como: “Deus me falou”, “Deus me mostrou”, “Deus mandou eu fazer isso” ou “foi direção de Deus”. Embora Deus continue guiando seu povo, tais expressões não podem ser usadas como um carimbo de autoridade espiritual. Quando alguém utiliza o nome de Deus para encerrar qualquer questionamento, para impor sua vontade ou para promover seus próprios interesses, repete o erro de Jacó.

A fé cristã não está fundamentada em frases de impacto ou em discursos aparentemente espirituais. Ela está fundamentada na verdade revelada por Deus em sua Palavra. A Escritura afirma que Deus não mente nem se contradiz (Números 23:19; Tito 1:2). Portanto, qualquer mensagem, revelação ou direção que contradiga os princípios bíblicos não tem origem divina, por mais espiritual que pareça.

Além disso, o uso indevido do nome de Deus frequentemente alimenta a vaidade humana e o espírito de superioridade. Há quem utilize supostas revelações para se colocar acima dos demais, como se possuísse um acesso exclusivo à vontade divina. Quando isso acontece, a glória que deveria ser dada a Deus é desviada para o homem. A verdadeira espiritualidade, porém, produz humildade, submissão às Escrituras e disposição para ser examinado à luz da verdade.

Por isso, João exorta os cristãos: “Não deis crédito a qualquer espírito, antes provai os espíritos se procedem de Deus...” (1 João 4:1). Deus não manda que aceitemos tudo sem discernimento. Pelo contrário, Ele ordena que toda mensagem seja examinada. O apóstolo Paulo também alertou que chegaria o tempo em que muitos rejeitariam a sã doutrina para seguir aquilo que agrada aos seus próprios desejos (2 Timóteo 4:3-4).

O próprio Jesus advertiu sobre a existência de falsos profetas que se apresentariam com aparência de piedade, mas cujo interior estaria distante da verdade (Mateus 7:15). Nem toda linguagem espiritual tem origem divina. Nem toda manifestação religiosa é sinal da presença de Deus. Nem todo discurso que menciona Deus representa a vontade de Deus.

Por isso, o cristão que tem temor não deve se impressionar apenas com palavras bonitas, testemunhos impactantes ou declarações categóricas. Deve se perguntar: Isso está de acordo com as Escrituras? Reflete o caráter de Deus? Produz humildade, santidade e obediência a Palavra?

Usar o nome de Deus para validar o engano, a vaidade ou a busca por superioridade espiritual é uma grave distorção da fé. Deus não empresta sua autoridade para sustentar mentiras humanas. Quem teme a Deus não procura apenas falar em seu nome, mas viver de acordo com a sua verdade. Afinal, a verdadeira espiritualidade não se mede pela quantidade de vezes que alguém diz “Deus falou”, mas pela fidelidade com que obedece ao que Deus já falou em sua Palavra.

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Não basta converter pessoas, é preciso formar discípulos


Vladimir Chaves

Uma das maiores necessidades da igreja atual não é apenas alcançar mais pessoas, mas formar verdadeiros discípulos de Jesus Cristo. Muitas vezes, há um grande esforço para encher templos, organizar eventos e promover cultos que emocionam multidões. Entretanto, surge uma pergunta importante: o que acontece com as pessoas depois que a emoção passa?

O culto na igreja não termina quando alguém levanta a mão, faz uma oração ou decide frequentar uma congregação. O próprio Senhor Jesus não ordenou apenas que seus seguidores evangelizassem; Ele disse:

"Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho ordenado." Mateus 28:19-20

Observe que a ordem não é apenas fazer convertidos, mas fazer discípulos e ensiná-los. Evangelizar é o início da jornada; discipular é o caminho que conduz ao amadurecimento espiritual.

Quando a igreja se preocupa apenas em atrair pessoas, mas não investe em acompanhá-las, corre o risco de produzir cristãos espiritualmente infantis. Pessoas que conhecem pouco das Escrituras, que dependem excessivamente de líderes para tomar decisões espirituais e que se tornam instáveis diante das dificuldades e dos ventos de doutrina. A superficialidade cresce onde falta ensino, cuidado e relacionamento.

O apóstolo Paulo alertou sobre a importância da maturidade espiritual ao escrever:

"Para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” Efésios 4:14

Esse texto mostra que o crescimento espiritual não acontece automaticamente. É necessário ensino contínuo, orientação e acompanhamento para que o cristão desenvolva raízes profundas na Palavra de Deus.

Discipular exige conhecimento nas Escrituras, um cego não pode guiar outro cego. Exige humildade para saber ouvir, aconselhar e corrigir com conhecimento nas Escrituras. Foi assim que Jesus fez com os seus discípulos. Durante anos, Ele ensinou, respondeu perguntas, confrontou erros, demonstrou amor e serviu de exemplo. Seu objetivo não era apenas reunir seguidores, mas formar homens e mulheres que refletissem seu caráter.

Ao contrário de hoje, a igreja primitiva compreendia essa responsabilidade. Por isso, perseverava não apenas em reuniões de adoração, mas também no ensino:

"E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações." Atos 2:42

Perceba que a força daquela igreja estava na combinação entre doutrina, comunhão e relacionamento. Havia proximidade, cuidado mútuo e crescimento conjunto.

Uma igreja saudável compreende que pessoas não são números. Elas possuem histórias, lutas, dúvidas e necessidades espirituais que não podem ser supridas apenas por cultos semanais. O discipulado cria vínculos, promove crescimento e ajuda cada crente a desenvolver uma fé sólida e madura.

Cristo não nos chamou para produzir frequentadores de cultos, mas discípulos comprometidos com o Reino de Deus. O verdadeiro sucesso de uma igreja não está apenas na quantidade de pessoas que entram por suas portas, mas na qualidade espiritual daqueles que estão sendo transformados à imagem de Jesus.

Paulo expressou esse compromisso pastoral quando escreveu:

"Meus filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós." Gálatas 4:19

Esse versículo revela a essência do discipulado: acompanhar pessoas até que o caráter de Cristo seja desenvolvido nelas. Isso exige conhecimento da Palavra, amor, paciência, dedicação e presença.

Quando a evangelização e o discipulado caminham juntos, a igreja deixa de ser apenas um local de encontros religiosos e se torna uma família espiritual onde vidas são cuidadas, fortalecidas e preparadas para viver plenamente o Evangelho. Afinal, o objetivo não é apenas levar pessoas a conhecer Cristo, mas caminhar com elas até que Cristo seja plenamente formado em seus corações. Somente assim teremos igrejas cheias não apenas de pessoas, mas de discípulos maduros, firmes na fé e preparados para fazer novos discípulos.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

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Abisague: Quando Deus usa pessoas comuns em momentos extraordinários


Vladimir Chaves

A história de Abisague, a sunamita, ocupa apenas alguns versículos da Bíblia, mas carrega profundas lições para a vida cristã. Em um primeiro olhar, ela parece ser apenas uma personagem secundária nos acontecimentos que marcaram os últimos dias do rei Davi. Porém, quando observamos com atenção, percebemos que sua presença está ligada a um dos momentos mais importantes da história de Israel: a transição do reino para Salomão.

A Bíblia apresenta Abisague da seguinte forma:

“Procuraram, pois, por todos os limites de Israel uma jovem formosa; acharam Abisague, Sunamita, e a trouxeram ao rei. A jovem era sobremaneira formosa; cuidava do rei e o servia, porém o rei não a possuiu” 1 Reis 1:3-4

Abisague não era profetisa, rainha ou líder. Ela não realizou milagres nem pronunciou grandes discursos. Mesmo assim, Deus permitiu que sua vida estivesse inserida em acontecimentos que influenciaram o futuro de uma nação inteira. Isso nos ensina que não precisamos ocupar posições de destaque para sermos usados por Deus. O Senhor realiza seus propósitos através de pessoas simples, que permanecem fiéis ao lugar onde foram colocadas.

Hoje, muitos acreditam que somente quem está nos holofotes é importante. Entretanto, a Bíblia revela que Deus valoriza tanto aqueles que aparecem quanto aqueles que servem silenciosamente. Abisague é um exemplo disso. Sua missão foi cuidar de um rei idoso em um momento de fragilidade. Embora parecesse uma tarefa simples, ela fazia parte de um plano muito maior do que ela própria poderia imaginar.

Outro ensinamento importante dessa história é que nem tudo é o que parece ser. Após a morte de Davi, Adonias procurou Bate-Seba para pedir Abisague em casamento:

“Ele disse: Peço-te que fales ao rei Salomão, pois não te recusará, que me dê por mulher Abisague, a sunamita.” 1 Reis 2:17

À primeira vista, poderia parecer apenas um pedido comum de casamento. Porém, por trás daquela solicitação existiam intenções políticas. No contexto do Oriente Antigo, mulheres ligadas ao rei possuíam uma associação direta com a autoridade real. Por isso, Salomão percebeu que aquele pedido poderia representar uma tentativa de reivindicar o trono.

Quando Bate-Seba apresentou o pedido ao rei, a reação de Salomão foi imediata:

“Então, respondeu o rei Salomão e disse a sua mãe: Por que pedes Abisague, a sunamita, para Adonias? Pede também para ele o reino; porque é meu irmão maior.” 1 Reis 2:22

Essa situação nos lembra da necessidade de discernimento espiritual. Nem toda proposta aparentemente boa possui motivações corretas. Nem toda oportunidade que surge diante de nós vem de Deus. Por isso, o cristão deve buscar sabedoria, oração e direção das Escrituras antes de tomar decisões importantes.

A história também nos mostra que os planos de Deus prevalecem sobre os planos humanos. Adonias tentou alcançar o poder por seus próprios meios, mas o propósito divino já havia determinado que Salomão seria rei. Anteriormente, Davi havia declarado:

“Teu filho Salomão reinará depois de mim e assentará no meu trono, em meu lugar” 1 Reis 1:30

O resultado foi que a vontade de Deus permaneceu firme, enquanto os projetos humanos fracassaram.

Essa verdade continua atual. Muitas vezes vemos pessoas tentando acelerar processos, manipular situações ou conquistar posições pela força. No entanto, aquilo que Deus estabelece não pode ser destruído pelas estratégias humanas. O Senhor continua governando a história e conduzindo seus propósitos no tempo certo.

Talvez a maior lição da vida de Abisague seja que Deus conhece e valoriza pessoas que o mundo frequentemente ignora. Embora seu nome apareça poucas vezes nas Escrituras, sua história atravessou séculos e continua sendo lembrada. Isso mostra que a verdadeira importância de uma vida não está na fama ou no reconhecimento humano, mas em participar dos propósitos de Deus.

Muitos servos de Deus trabalham, oram, ajudam e permanecem fiéis sem receber aplausos. Contudo, o Senhor vê cada ato de obediência. Nenhum serviço prestado a Deus é insignificante. Assim como aconteceu com Abisague, Deus pode usar vidas simples para cumprir planos extraordinários.

O próprio Senhor Jesus ensinou: “E quem der de beber, ainda que seja um copo de água fria, a um desses pequeninos, por ser meu discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão.” Mateus 10:42

Abisague serviu discretamente, mas seu serviço foi registrado para sempre na Palavra de Deus.

A reflexão que fica:

Nem todos serão reis como Davi ou sábios como Salomão. Alguns serão lembrados por grandes feitos, enquanto outros servirão silenciosamente nos bastidores. Mas diante de Deus, a grandeza não está na posição que ocupamos, e sim na fidelidade com que cumprimos o propósito para o qual fomos chamados.

A história de Abisague nos ensina que Deus trabalha tanto nos palcos quanto nos bastidores. Enquanto muitos observavam reis, profetas e disputas pelo trono, Deus também estava escrevendo sua história através de uma jovem sunamita que simplesmente cumpriu sua missão.

“Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito” Lucas 16:10

Abisague nos lembra que uma vida simples, colocada nas mãos de Deus, pode fazer parte de uma história muito maior do que imaginamos. O Senhor continua escrevendo sua obra através de pessoas comuns que se dispõem a servi-lo com humildade, dedicação e fidelidade.

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Deus não vê como o homem vê: quando o escolhido não era o primogênito


Vladimir Chaves

Ao longo das Escrituras percebemos um padrão surpreendente: muitas vezes Deus não escolheu o primogênito para cumprir seus propósitos. Em uma cultura onde o filho mais velho possuía direitos, honra e posição privilegiada, o Senhor mostrou repetidamente que seus critérios são diferentes dos critérios humanos.

A escolha divina nunca esteve presa apenas à ordem natural do nascimento, mas à soberania, ao propósito e ao coração daqueles que seriam usados por Deus. A Bíblia mostra que o Senhor não está limitado às expectativas humanas, tradições familiares ou direitos herdados. Ele escolhe segundo sua vontade perfeita.

Abel acima de Caim

O primeiro exemplo aparece logo nos primeiros capítulos da Bíblia. Caim era o primogênito de Adão e Eva, mas Deus atentou primeiro para a oferta de Abel.

“Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou” Gênesis 4:4-5

A diferença não estava apenas na oferta, mas no coração. Hebreus explica que Abel ofereceu seu sacrifício pela fé:

“Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais sacrifício do  que Caim.” Hebreus 11:4

Deus mostrou desde o início que sua aprovação não depende de posição natural, mas de obediência e fé.

Isaque acima de Ismael

Ismael foi o primeiro filho de Abraão, porém o filho da promessa foi Isaque.

“Porque por Isaque será chamada a tua descendência.” Gênesis 21:12

Humanamente, Ismael poderia parecer o herdeiro natural, mas Deus já havia estabelecido seu plano através de Isaque. A promessa não seria sustentada pela força humana, mas pelo cumprimento sobrenatural da palavra divina.

Paulo usa esse exemplo para mostrar a diferença entre aquilo que nasce da carne e aquilo que nasce da promessa de Deus.

Jacó acima de Esaú

Esaú nasceu primeiro e possuía o direito da primogenitura, mas Deus escolheu Jacó.

“O mais velho servirá ao mais moço.” Gênesis 25:23

Paulo retoma esse acontecimento dizendo: “Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú.” Romanos 9:13

Essa escolha revela a soberania divina. Deus não depende da lógica humana para cumprir seus propósitos. Antes mesmo do nascimento dos dois irmãos, o Senhor já havia estabelecido seu plano.

José e Judá em vez de Rúben

Rúben era o primogênito de Jacó, mas perdeu sua posição por causa de seu pecado.

“Rúben, tu és meu primogênito… impetuoso como a água, não serás o mais excelente.” Gênesis 49:3-4

José recebeu porção dobrada entre as tribos de Israel, enquanto Judá recebeu a liderança e a promessa messiânica.

Sobre Judá foi declarado: “O cetro não se arredará de Judá.” Gênesis 49:10

Da tribo de Judá viria o Messias, Jesus Cristo. Isso mostra novamente que Deus considera caráter, propósito e fidelidade acima da posição natural.

Efraim acima de Manassés

Quando Jacó foi abençoar os filhos de José, algo inesperado aconteceu. Manassés era o mais velho, mas Jacó colocou a mão direita sobre Efraim, o mais novo.

José tentou corrigir o pai, porém Jacó respondeu: “Eu o sei, meu filho, eu o sei; ele também será um povo… contudo, seu irmão menor será maior do que ele.” Gênesis 48:19

Mais uma vez Deus rompe a expectativa humana para mostrar que Seu plano não está preso à tradição.

Moisés em vez de Arão

Arão era o irmão mais velho, mas Moisés foi escolhido para liderar a libertação de Israel.

Embora Arão tivesse importante papel sacerdotal, Deus chamou Moisés para ser o grande líder e profeta daquela geração.

“Vem, agora, e eu te enviarei a Faraó.” Êxodo 3:10

Moisés até tentou recusar o chamado, mas Deus o escolheu segundo seu propósito. Isso ensina que o chamado divino não depende da posição familiar, mas dá vontade de Deus.

Salomão acima de Adonias

Adonias era o filho mais velho vivo de Davi e acreditava que herdaria o trono.

“Então Adonias… se exaltou e disse: Eu reinarei.” 1 Reis 1:5

Porém Deus havia escolhido Salomão.

“Teu filho Salomão reinará depois de mim.” 1 Reis 1:30

Salomão não parecia o sucessor mais provável, mas foi o escolhido para construir o templo e estabelecer um reinado de paz e sabedoria.

O princípio espiritual por trás dessas escolhas

Todos esses exemplos revelam uma verdade profunda: Deus não vê como o homem vê.

“Porque o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração.” 1 Samuel 16:7

O mundo valoriza aparência, posição, tradição e força natural. Deus, porém, olha o coração, a fé, a obediência e o propósito eterno.

A escolha divina dos improváveis também aponta para o Evangelho. Deus escolheu pescadores simples, cobradores de impostos e pessoas desprezadas para anunciar o Reino. Jesus nasceu em uma manjedoura e foi rejeitado por muitos, mas era o Filho escolhido de Deus.

Paulo resume esse princípio dizendo: “Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para envergonhas os sábios; e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes.” 1 Coríntios 1:27

A Bíblia mostra repetidamente que Deus não está preso às expectativas humanas. A primogenitura tinha valor cultural e familiar, mas nunca limitou a soberania divina.

Abel, Isaque, Jacó, José, Judá, Efraim, Moisés e Salomão são exemplos de que Deus escolhe segundo seus propósitos eternos.

Essa verdade traz uma lição para todos aqueles que se sentem improváveis, esquecidos ou sem destaque. Deus continua chamando pessoas não pela posição que ocupam diante dos homens, mas pelo coração disposto diante d’Ele.

O Senhor ainda levanta os improváveis para cumprir grandes propósitos.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

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O espinho que mantinha Paulo de joelhos


Vladimir Chaves

Quando lemos sobre o “espinho na carne” do apóstolo Paulo, é comum imaginar apenas sofrimento, dor e aflição. Porém, o próprio texto bíblico revela uma verdade muito mais profunda: aquele espinho não era sinal de abandono da parte de Deus, mas um instrumento de proteção espiritual.

Paulo escreveu: “E, para que me não exaltasse pelas excelências das revelações, foi-me dado um espinho na carne...” 2 Coríntios 12:7

Observe algo importante: o espinho veio depois das grandes revelações. Paulo havia experimentado coisas extraordinárias. Ele fala sobre ter sido arrebatado ao terceiro céu e ouvido palavras inefáveis (2 Coríntios 12:2-4). Qualquer ser humano poderia facilmente cair no orgulho espiritual depois de viver algo tão sobrenatural.

Mas Deus, conhecendo o coração humano, permitiu uma limitação para manter Paulo dependente da graça.

Isso muda completamente nossa maneira de enxergar certas lutas da vida.

Nem toda dor significa castigo, nem toda fraqueza significa derrota, nem toda porta fechada significa ausência de Deus.

Existem situações que o Senhor permite não para destruir alguém, mas para preservar sua alma.

Paulo orou três vezes para que aquele espinho fosse removido. Contudo, a resposta divina foi diferente do que ele esperava:

“A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.” 2 Coríntios 12:9

Deus não removeu imediatamente a limitação de Paulo, mas ofereceu algo maior: graça suficiente para continuar.

Isso nos ensina que maturidade espiritual não é viver sem fraquezas, mas aprender a depender de Deus mesmo carregando algumas delas.

O mundo valoriza autossuficiência. O Evangelho ensina dependência.

Talvez exista algo em sua vida que ainda não foi resolvido. Uma oração que parece não ter resposta. Uma limitação que permanece. Um cenário que você gostaria que mudasse imediatamente.

E talvez Deus esteja usando exatamente isso para produzir em você algo mais profundo do que conforto: humildade, perseverança, sensibilidade espiritual e confiança total n’Ele.

A própria Bíblia mostra que Deus frequentemente trabalha através da fraqueza humana: “Porque, quando estou fraco, então, sou forte.” 2 Coríntios 12:10

“Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes.” Tiago 4:6

“Humilhai-vos perante o Senhor, e ele vos exaltará.” Tiago 4:10

Paulo possuía conhecimento profundo, autoridade apostólica e experiências espirituais extraordinárias. Mesmo assim, precisava da graça todos os dias. Isso nos ensina que ninguém amadurece espiritualmente ao ponto de não precisar mais depender de Deus.

O espinho não anulava o chamado de Paulo. Apenas o mantinha ajoelhado.

E talvez algumas batalhas que você enfrenta hoje não sejam sinais de que Deus se afastou, mas evidências de que Ele ainda está trabalhando no seu coração.

Porque existem coisas que Deus remove, mas existem outras que Ele permite para nos manter perto d’Ele.

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O privilégio da igreja no plano eterno de Deus


Vladimir Chaves

A Bíblia revela que os seres celestiais observam atentamente a obra redentora de Deus, desejando compreender a profundidade desse mistério. Em 1 Pedro 1:12, lemos que a salvação anunciada pelos profetas e revelada em Cristo são “coisas que os anjos anseiam observar”. Essa declaração nos leva a refletir sobre o imenso privilégio concedido à humanidade.

Os anjos conhecem a santidade de Deus. Eles contemplam sua glória desde antes da criação do mundo. São servos perfeitos, obedientes e poderosos. Contudo, há algo que eles jamais experimentaram: o resgate da culpa pelo sangue de Cristo. Eles nunca sentiram o peso do pecado sendo removido, nem provaram a alegria do perdão. Os anjos fiéis nunca caíram, portanto não conhecem a redenção pela experiência pessoal. Já os anjos caídos não receberam oportunidade de salvação. Assim, o evangelho é um mistério que eles observam com admiração, porque revela dimensões do amor e da misericórdia divina manifestadas de forma singular na humanidade.

Isso torna a graça ainda mais impressionante. Deus poderia ter confiado o anúncio do evangelho aos anjos. Eles possuem poder, conhecimento e acesso direto à presença divina. Porém, o Senhor decidiu entregar essa missão aos homens. A mensagem da cruz foi colocada nas mãos de pessoas frágeis, limitadas e imperfeitas. Esse é um dos maiores privilégios da igreja: ser instrumento da proclamação da salvação em Cristo.

O apóstolo Paulo amplia essa compreensão em Efésios 3:10, ao afirmar que “a multiforme sabedoria de Deus” é revelada aos principados e potestades celestiais por meio da igreja. Isso significa que os anjos aprendem sobre aspectos do caráter de Deus ao observarem a atuação da graça na vida dos cristãos. Eles contemplam pecadores sendo transformados, inimigos sendo reconciliados com Deus, vidas quebradas sendo restauradas e corações endurecidos sendo alcançados pelo amor divino. A igreja se torna, diante do mundo espiritual, uma demonstração viva da sabedoria e da misericórdia de Deus.

Essa verdade também traz responsabilidade. Muitas vezes, os cristãos tratam o evangelho com indiferença, enquanto os anjos o contemplam com reverência. Aquilo que para muitos se tornou comum é motivo de admiração no céu. O sangue de Cristo, a cruz, o arrependimento, a reconciliação e a esperança da vida eterna são realidades tão profundas que os próprios seres celestiais desejam estudar seus mistérios.

Além disso, compreender isso nos ajuda a valorizar o chamado da igreja. Evangelizar não é apenas transmitir informação religiosa; é participar do plano eterno de Deus. Cada vez que o evangelho é pregado, a graça divina é anunciada não somente aos homens, mas também testemunhada pelo mundo espiritual. Há uma dimensão celestial envolvida na missão da igreja.

O contraste é impressionante: os anjos servem aos salvos, mas os salvos carregam a mensagem que os anjos não receberam autoridade para anunciar como experiência própria. Eles observam com admiração aquilo que Deus fez em Cristo por amor à humanidade.

Portanto, quando a igreja anuncia o evangelho, ela não realiza uma tarefa comum. Ela participa de um propósito eterno que revela a glória de Deus diante da terra e do céu. O plano da redenção é tão grandioso que até os anjos param para contemplá-lo.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

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O peso da religiosidade e a liberdade do Evangelho


Vladimir Chaves

O maior perigo da religiosidade não é apenas afastar o homem de Deus, mas fazê-lo acreditar que está perto d’Ele enquanto defende sistemas humanos acima da verdade do Evangelho. Em muitos lugares, pessoas passaram a proteger mais a “placa da igreja” do que a mensagem da cruz. Defendem tradições como se fossem mandamentos divinos, costumes culturais como se fossem doutrina eterna e opiniões humanas como se fossem autoridade celestial. Porém, o Evangelho nunca foi sobre exaltar denominações; sempre foi sobre revelar Cristo.

O próprio Jesus declarou: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.” João 14:6

Cristo não disse que uma instituição seria o caminho. Não afirmou que uma tradição salvaria almas. A salvação está exclusivamente n’Ele. Nenhuma denominação possui poder de remir pecados, transformar corações ou conceder vida eterna. A igreja verdadeira não é construída sobre orgulho religioso, mas sobre a fé em Jesus Cristo.

Infelizmente, ao longo do tempo, muitos confundiram santidade com aparência exterior, espiritualidade com costumes locais e obediência a Deus com submissão cega a regras criadas por homens. Isso aconteceu também nos dias de Jesus. Os fariseus valorizavam tanto suas tradições que acabaram anulando a Palavra de Deus. Por isso Cristo os repreendeu severamente:

“Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens.” Marcos 7:7

Toda vez que a tradição ocupa o lugar da verdade bíblica, nasce uma religião pesada, opressora e sem vida espiritual. O Evangelho, porém, produz exatamente o contrário: liberdade, transformação e arrependimento genuíno. Jesus nunca veio escravizar pessoas a sistemas religiosos; Ele veio libertá-las do pecado.

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8:32

A religiosidade cria prisões invisíveis. Faz pessoas acreditarem que questionar líderes humanos é pecado, que usos e costumes são critérios absolutos de salvação e que pertencer a determinada denominação garante comunhão com Deus. Mas a Bíblia ensina que o verdadeiro cristianismo vai muito além de aparências externas. Deus olha o coração.

Há uma diferença profunda entre doutrina bíblica e tradição humana. Doutrina vem da Palavra de Deus; tradição nasce da cultura, da época ou da interpretação de homens. Quando tradições são colocadas acima das Escrituras, a cruz perde seu significado e Cristo deixa de ser suficiente.

O apóstolo Paulo combateu fortemente as divisões religiosas dentro da igreja. Alguns diziam: “eu sou de Paulo”, outros: “eu sou de Apolo”. Então Paulo perguntou: “Está Cristo dividido? Foi Paulo crucificado por vós?” 1 Coríntios 1:13

Essa pergunta continua extremamente atual. Cristo não morreu por placas denominacionais. Ele morreu para resgatar pecadores, reconciliar o homem com Deus e formar um só povo, uma só família espiritual. Quando alguém coloca sua denominação acima da cruz de Cristo, transforma o que deveria ser instrumento de comunhão em motivo de divisão. A verdadeira unidade da igreja não está em facções religiosas, mas em Cristo.

A maturidade espiritual começa quando entendemos que nenhuma igreja terrena é perfeita. Toda instituição humana possui falhas, porque é formada por pessoas imperfeitas. O erro está em idolatrar sistemas religiosos como se fossem absolutos ou infalíveis. Deus não pertence a uma denominação. Nenhuma instituição possui exclusividade sobre o Espírito Santo.

A verdadeira fé produz humildade, amor, misericórdia e obediência à Palavra. Foi exatamente isso que Tiago ensinou:

“A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo.” Tiago 1:27

Observe que Tiago não define religião verdadeira por vestimentas, títulos, costumes regionais ou tradições humanas. Ele aponta para um coração transformado e uma vida separada do pecado.

O Evangelho genuíno não aprisiona pessoas em orgulho religioso; ele conduz ao arrependimento e ao amor. A religiosidade mata porque produz soberba, divisão e cegueira espiritual. O Evangelho liberta porque conduz o homem à verdade.

Jesus não chamou pessoas para defenderem instituições acima da verdade. Ele chamou discípulos para segui-lo. O centro da fé cristã não é uma organização humana, mas a pessoa de Cristo. Quando a cruz perde a centralidade e a tradição assume o controle, nasce uma fé sem vida, sem graça e sem liberdade espiritual.

Por isso, todo cristão precisa examinar constantemente sua fé à luz das Escrituras. A pergunta não deve ser: “o que minha denominação ensina?”, mas sim: “o que a Palavra de Deus diz?”. Toda tradição deve estar sujeita à autoridade das Escrituras, nunca o contrário.

A igreja verdadeira é formada por aqueles que pertencem a Cristo, independentemente de placas religiosas. A unidade do Corpo não está na uniformidade de costumes humanos, mas na comunhão com Jesus.

“Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só batismo.” Efésios 4:4-5

Quando Cristo é o centro, a verdade prevalece sobre tradições, a graça vence a religiosidade e o Evangelho volta a ocupar o lugar que nunca deveria ter perdido.

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A cruz revela quem Jesus verdadeiramente é


Vladimir Chaves

O texto de Lucas 23:33-38 apresenta uma das cenas mais marcantes da Bíblia. Jesus Cristo está sendo crucificado, humilhado diante da multidão, ferido pelos homens e tratado como criminoso. Ao redor da cruz havia zombaria, desprezo e incredulidade. Muitos olhavam para Jesus e enxergavam apenas um homem derrotado. Mas o céu testemunhava ali o maior ato de amor da história.

O mais impressionante nesse texto não é apenas o sofrimento da cruz, mas a atitude de Jesus enquanto sofria. Em vez de palavras de vingança, saem de seus lábios palavras de perdão: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”

Enquanto os homens demonstravam ódio, Cristo revelava misericórdia. Enquanto o mundo feria, Jesus oferecia graça. Isso nos mostra que o amor de Deus não depende do merecimento humano. A cruz é a prova de que Deus ama até aqueles que falham, rejeitam e pecam.

Muitos queriam que Jesus descesse da cruz para provar seu poder. Diziam: “Salvou os outros; salve-se a si mesmo.”

Mas eles não entendiam que permanecer na cruz era justamente a maior demonstração do seu poder e da sua missão. Jesus não ficou ali por incapacidade, mas por amor. Se descesse da cruz, abandonaria o propósito da redenção. O sofrimento de Cristo tinha um significado eterno: trazer salvação à humanidade.

A placa colocada acima da cruz dizia: “Este é o Rei dos Judeus.”

Embora escrita em tom de ironia, aquela frase proclamava uma grande verdade. Jesus era Rei, mas diferente dos reis terrenos. Seu reino não era construído pela força das armas, mas pelo sacrifício, pela verdade e pelo amor.

Esse texto também nos leva a refletir sobre como enxergamos a cruz. Para muitos, ela representa fraqueza; para os que creem, ela representa esperança. O lugar de dor tornou-se o lugar da reconciliação entre Deus e os homens.

Lucas 23:33-38 nos ensina que o amor verdadeiro é capaz de perdoar, suportar e permanecer fiel mesmo em meio ao sofrimento. A cruz revela que Deus não desistiu da humanidade. Em Jesus, vemos que a graça é maior que o pecado, que o perdão é maior que a ofensa e que o amor de Deus é capaz de alcançar até os corações mais distantes.

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