A condição espiritual de uma
igreja revela-se pelo lugar que a Palavra de Deus ocupa na vida de seus
membros. Quando as Escrituras deixam de ser conhecidas, estudadas e obedecidas,
a fé torna-se superficial, o discernimento enfraquece e o erro encontra terreno
fértil. O resultado é uma geração de cristãos vulneráveis, facilmente conduzida
por discursos persuasivos, mas incapaz de avaliar os ensinos à luz da Palavra
de Deus.
Jesus estabeleceu o
fundamento da vida cristã ao declarar:
"Santifica-os na
verdade; a tua palavra é a verdade." (João 17:17)
A verdade não é produzida
pela cultura, pelas emoções ou pelas preferências humanas. Ela procede de Deus
e foi revelada nas Escrituras. Sempre que a Bíblia deixa de ocupar o centro da
igreja, outra autoridade assume esse lugar. A opinião substitui a revelação; a
experiência passa a determinar a doutrina; o entretenimento ocupa o espaço da
adoração; e o púlpito, destinado à exposição fiel da Palavra, transforma-se em
palco para apresentações capazes de emocionar, mas incapazes de formar
discípulos.
A missão da pregação nunca
foi provocar aplausos. O pregador foi chamado para anunciar a vontade de Deus,
ainda que sua mensagem confronte, incomode e exija mudança de vida.
Paulo escreveu a Timóteo:
"Prega a palavra,
insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a
longanimidade e doutrina." (2 Timóteo 4:2)
Em seguida, explica por que
essa responsabilidade seria necessária:
"Pois haverá tempo em
que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres
segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se
recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas." (2 Timóteo
4:3-4)
Essa advertência descreve
não apenas pregadores que abandonam a verdade, mas também ouvintes que rejeitam
qualquer mensagem que confronte seus pecados. Quando a igreja prefere conforto
à correção, deixa de buscar a voz de Deus e passa a procurar discursos que
confirmem seus desejos.
O Evangelho anunciado por
Cristo jamais foi uma mensagem de autoafirmação. Seu primeiro chamado foi:
"Arrependei-vos, porque
está próximo o Reino dos céus." (Mateus 4:17)
Pedro também repetiu a mesma
convocação:
"Arrependei-vos, e cada
um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos
pecados." (Atos 2:38)
O arrependimento não é um
detalhe do Evangelho; é uma de suas marcas. Da mesma forma, a renúncia não é
uma exigência para poucos, mas para todos os que desejam seguir a Cristo.
Jesus declarou:
"Se alguém quer vir
após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me." (Lucas
9:23)
Se uma mensagem não conduz
ao arrependimento, não confronta o pecado e não chama o homem à obediência, ela
pode ser inspiradora, motivacional ou emocional, mas não corresponde ao
Evangelho anunciado por Cristo e pelos apóstolos.
Outra evidência da
fragilidade espiritual é o abandono da leitura das Escrituras. Muitos conhecem
sermões, frases de efeito e opiniões de pregadores, mas desconhecem aquilo que
Deus efetivamente revelou. Limitam seu contato com a Palavra aos cultos semanais
e transferem a terceiros a responsabilidade de interpretar aquilo que deveriam
examinar pessoalmente.
O chamado do profeta Isaías permanece
atual:
"Buscai no livro do
Senhor e lede..." (Isaías 34:16)
Não basta possuir uma
Bíblia. É necessário abri-la, estudá-la e permitir que ela governe a mente e o
coração.
O salmista afirma: "Lâmpada
para os meus pés é a tua palavra e luz para o meu caminho." (Salmos
119:105)
Sem essa luz, o
discernimento desaparece.
Por isso Deus declarou por
meio do profeta Oséias:
"O meu povo está sendo
destruído porque lhe falta o conhecimento." (Oséias 4:6)
A destruição do povo não era
consequência da falta de recursos, mas da rejeição ao conhecimento da Palavra
de Deus.
Essa realidade explica por
que tantos cristãos permanecem indefesos diante de falsas doutrinas. Tornam-se
dependentes da autoridade de quem ocupa o púlpito e deixam de exercer a
responsabilidade de examinar o ensino recebido.
É preocupante quando surgem
pregadores afirmando que conhecer toda a Bíblia é desnecessário, ou que o
cristão não precisa estudar as Escrituras para permanecer firme na fé. Essa
ideia contradiz diretamente o ensino de Jesus.
Ele respondeu aos saduceus:
"Errais, não conhecendo
as Escrituras nem o poder de Deus." (Mateus 22:29)
O desconhecimento das
Escrituras nunca foi tratado como simplicidade espiritual, mas como causa de
erro.
Por essa razão, Lucas
destaca a atitude dos cristãos de Bereia:
"Ora, estes de Bereia
eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda
avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de
fato, assim." (Atos 17:11)
Eles ouviram o apóstolo
Paulo, mas não dispensaram o exame das Escrituras. A autoridade apostólica não
eliminava a responsabilidade do crente de conferir tudo à luz da Palavra. Esse
princípio continua indispensável. Nenhum líder, por mais respeitado que seja,
possui autoridade para ensinar acima ou contra aquilo que Deus revelou.
Quando a igreja deixa de
conhecer a Bíblia, perde também a capacidade de identificar a apostasia. O
silêncio diante do erro quase sempre nasce da falta de discernimento. Quem
desconhece a verdade dificilmente reconhecerá a mentira.
Judas exortou os cristãos: "Batalhardes
diligentemente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos."
(Judas 3)
Essa batalha não é travada
com opiniões pessoais, mas com fidelidade às Escrituras.
Paulo advertiu os
presbíteros de Éfeso: "Eu sei que, depois da minha partida, entre vós
penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho." (Atos 20:29)
A proteção contra os falsos
mestres nunca esteve na popularidade de um pregador, mas no conhecimento da
Palavra de Deus.
Jesus afirmou: "As
minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem." (João
10:27)
A voz do Bom Pastor continua
sendo ouvida nas Escrituras.
A igreja não necessita de
menos doutrina, mas de doutrina sadia. Não necessita de menos exposição
bíblica, mas de maior fidelidade ao texto sagrado. Não necessita de mensagens
moldadas para satisfazer expectativas humanas, mas da proclamação integral do conselho
de Deus.
Falar a verdade sempre teve
um custo. Os profetas foram rejeitados. Os apóstolos foram perseguidos, Cristo
foi crucificado. A fidelidade nunca foi medida pela aprovação da maioria, mas
pela obediência à Palavra de Deus.
Paulo resume esse
compromisso ao escrever: "...seguindo a verdade em amor, cresçamos em
tudo naquele que é a cabeça, Cristo" (Efésios 4:15)
A verdade bíblica não existe
para humilhar pessoas, mas para conduzi-las ao arrependimento, à santidade e à
comunhão com Deus.
Que cada cristão assuma a
responsabilidade de buscar as Escrituras diariamente, examine toda pregação à
luz da Palavra e permaneça firme na sã doutrina.
Porque uma igreja forte não
é reconhecida pelo tamanho de seu templo, pela excelência de seus eventos ou
pela eloquência de seus pregadores. Ela é reconhecida pela fidelidade à Palavra
de Deus.
"Toda a Escritura é
inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e
para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e
perfeitamente habilitado para toda boa obra." (2 Timóteo 3:16-17)