Há cristãos que conhecem a
Bíblia; há aqueles que nunca fizeram questão de conhecê-la; e há os que a
conhecem apenas o suficiente para utilizá-la quando lhes convém. O problema não
está apenas na falta de conhecimento, mas na falta de submissão. Conhecer as
Escrituras e continuar escolhendo aquilo que agrada aos próprios interesses não
é maturidade cristã; é apenas uma habilidade desonesta de buscar justificativas
religiosas.
A Bíblia não foi escrita
para confirmar nossas preferências. Ela foi dada para confrontá-las. Jesus
perguntou: “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu vos
digo?” (Lucas 6:46). Chamar Cristo de Senhor significa reconhecer sua
autoridade, inclusive quando seus ensinamentos contrariam aquilo que pensamos,
defendemos ou desejamos.
Tiago apresenta uma pergunta
que deveria incomodar qualquer cristão que pretende viver de maneira coerente: “Acaso,
pode a fonte jorrar do mesmo lugar o que é doce e o que é amargo?” (Tiago
3:11). Não é possível defender princípios incompatíveis e, ao mesmo tempo,
alegar que tudo está perfeitamente de acordo com a fé. Em algum momento, a
contradição precisa ser reconhecida.
Isso também se aplica às
escolhas políticas. Se a fé cristã orienta nossa maneira de enxergar a verdade,
a justiça, a família, a dignidade humana, a responsabilidade e a moralidade, é
evidente que ela deve influenciar nossas decisões políticas. O cristão não
deixa de ser cristão diante da urna. Sua consciência continua submetida aos
princípios que afirma professar.
Por isso, um cristão pode
perfeitamente concluir que determinadas propostas políticas, a maioria delas
associadas à esquerda, são incompatíveis com seus valores bíblicos e, por essa
razão, decidir não apoiá-las. E não há necessidade de esconder essa convicção
para agradar a quem pensa diferente.
Se a corrupção é condenável,
continua sendo condenável quando praticada por alguém que apoiamos. Se a
mentira é errada, continua sendo errada quando praticada por alguém que
apoiamos. Se a injustiça é pecado, não se transforma em virtude simplesmente
porque foi cometida por um candidato de nossa simpatia. Se o aborto é
abominável aos olhos do Senhor, deve ser abominável também aos nossos olhos.
É justamente nesse ponto que
a paixão política ou o interesse por vantagens pessoais podem se tornar um
problema para a fé. Há pessoas que perderam a capacidade de reconhecer erros
dentro do meio político. Onde deveria haver discernimento, transforma-se tudo
em torcida e, quando a torcida assume o lugar da consciência, a Bíblia passa a
ser usada seletivamente.
O cristão pode participar da
política e defender suas convicções, mas deve rejeitar propostas que sejam
contrárias às Escrituras, entendendo, ainda, que nenhum político merece a
lealdade que só pertence a Cristo. “Porquanto há um só Deus e um só Mediador
entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem” (1 Timóteo 2:5).
A questão, portanto, não é
simplesmente saber se alguém vota na esquerda ou na direita. A pergunta mais
importante é saber por que vota. Quais princípios orientaram essa escolha? Se o
candidato vive de maneira contrária aos princípios bíblicos e apoia ações
contrárias a esses princípios e, mesmo assim, o cristão vota nele e o apoia,
então não possui uma convicção verdadeiramente bíblica; possui uma preferência
política à procura de uma justificativa religiosa.
O problema também não começa
na urna. Começa no coração. Jesus declarou: “Porque do coração procedem os
maus desígnios” (Mateus 15:19). Tiago mostra que o pecado pode começar no
desejo que alimentamos e justificamos (Tiago 1:14-15). Muitas vezes, a
consciência não é corrompida de uma vez; ela vai sendo convencida, aos poucos,
de que aquilo que antes parecia errado pode ser tolerado quando beneficia
nossos interesses.
É assim que nasce a
incoerência. Primeiro, relativizamos. Depois, justificamos. Em seguida,
passamos a defender. E, quando percebemos, aquilo que condenávamos tornou-se
aceitável quando praticado pelo nosso grupo. Continuamos falando de princípios,
mas já não estamos defendendo princípios; estamos defendendo pessoas, partidos
e interesses pessoais.
Paulo escreveu: “E não
vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa
mente” (Romanos 12:2). Essa renovação exige que o cristão permita que a
Palavra de Deus examine também suas próprias convicções.
Antes de colocar um político
em um lugar de honra dentro da igreja ou em um evento da congregação, é preciso
verificar se aquele candidato possui princípios compatíveis com a fé cristã. “Examinai
tudo. Retende o bem” (1 Tessalonicenses 5:21). Examinar tudo significa
examinar o passado, o presente e aquilo que esse candidato defenderá no futuro.
A fé cristã não deveria
produzir militantes incapazes de reconhecer erros. Deveria produzir pessoas
capazes de permanecer firmes em suas convicções sem abandonar a honestidade. O
cristão não deve permitir que sua posição política determine quais partes da
Bíblia serão obedecidas.
No fim, cada um responderá
diante de Deus por sua própria consciência. “Assim, pois, cada um de nós
dará contas de si mesmo a Deus” (Romanos 14:12). Não será o partido que
responderá por nós, nem o candidato, nem o grupo político, nem o influenciador
que ajudou a formar nossa opinião.
Por isso, antes de colocar
seus interesses pessoais a serviço de um candidato, faça-se uma pergunta
incômoda: minha fé está realmente governando minhas escolhas ou estou apenas
procurando na Bíblia uma justificativa para aquilo que já decidi?
A Bíblia não se curva a
partidos ou a candidatos. É o cristão que precisa se curvar à verdade das
Escrituras. Quando a fé permanece apenas enquanto concorda com nossas
conveniências, já não estamos permitindo que a Palavra governe nossa
consciência. Estamos apenas usando o nome de Deus para defender aquilo que o
nosso coração já escolheu.
O cristão que se curva à
Bíblia não deve apoiar um candidato que defenda o aborto, a política de gênero,
a legalização das drogas, que negue os princípios cristãos, que defenda a
criminalização da Bíblia, que tenha sido condenado ou responda por corrupção,
ou que leve uma vida mundana.



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