O erro silencioso das Bíblias fechadas na Escola Bíblica Dominical


Vladimir Chaves

Há uma cena que deveria causar indignação em qualquer cristão comprometido com a Palavra de Deus: uma sala de Escola Bíblica Dominical repleta de pessoas, cada uma com sua revista aberta, enquanto as Bíblias permanecem fechadas.

Essa realidade tornou-se tão comum que já não causa estranheza. O anormal passou a ser visto como normal. A revista tornou-se protagonista; a Bíblia, coadjuvante.

Não há nada de errado com a revista da EBD. Ela é uma ferramenta didática útil, organiza assuntos, sugere aplicações e auxilia professores e alunos. O problema surge quando uma ferramenta passa a ocupar o lugar daquilo que deveria apenas servir. A revista nasceu para conduzir o aluno às Escrituras, mas, em muitas igrejas, são as Escrituras que acabam sendo usadas apenas para confirmar o que a revista já disse.

Essa inversão é grave.

A Reforma Protestante foi edificada sobre o princípio da Sola Scriptura: somente a Escritura possui autoridade absoluta em matéria de fé e prática. Nenhum comentário, tradição, manual ou revista pode reivindicar esse lugar. Todos devem ser julgados pela Palavra de Deus, jamais o contrário.

O próprio apóstolo Paulo declarou:

"Toda a Escritura é divinamente inspirada por Deus e útil para o ensino, para repreensão, para correção, para educação na justiça” (2 Timóteo 3:16)

Paulo não afirmou que toda revista é inspirada. Não disse que comentários são suficientes. A inspiração pertence exclusivamente às Escrituras.

Entretanto, basta observar muitas aulas da Escola Dominical para perceber uma prática preocupante. O professor lê o comentário da revista, desenvolve toda a explicação baseada nele e, eventualmente, consulta um ou dois versículos apenas para ilustrar a lição. O texto bíblico deixa de ser o ponto de partida e passa a ser um complemento.

Esse método produz uma consequência inevitável: cristãos que conhecem muito bem a revista, mas conhecem pouco a Bíblia.

Quando a lição termina, muitos conseguem lembrar o título do capítulo estudado, mas não conseguem localizar livros da Bíblia, compreender o contexto de uma passagem, identificar a quem determinado texto foi dirigido ou explicar as bases da própria fé.

Não é exagero afirmar que parte da superficialidade bíblica observada nas igrejas nasce exatamente dessa metodologia.

A Bíblia foi substituída por resumos.

O estudo foi substituído pela leitura de comentários.

A investigação das Escrituras foi substituída pela repetição de interpretações prontas.

Isso contrasta completamente com o modelo bíblico.

Os cristãos de Bereia não aceitaram nem mesmo o ensino do apóstolo Paulo sem antes examinarem cuidadosamente as Escrituras.

"Ora, estes de Bereia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim.” (Atos 17:11)

Observe que eles não conferiam uma revista. Não consultavam um manual. Eles verificavam diretamente a Palavra de Deus.

Esse deveria continuar sendo o padrão da Escola Bíblica Dominical.

Outro problema surge quando o aluno passa anos frequentando a EBD, mas não desenvolve autonomia para estudar a Bíblia sozinho. Ele torna-se dependente de comentaristas, pregadores e materiais auxiliares para compreender qualquer texto bíblico.

Esse tipo de formação é perigoso.

Um cristão incapaz de interpretar minimamente as Escrituras torna-se vulnerável a todo vento de doutrina. Basta surgir um pregador eloquente, uma nova tendência teológica ou uma interpretação aparentemente convincente para que seja levado de um lado para outro.

Foi exatamente por isso que Paulo escreveu:

"...para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina..." (Efésios 4:14)

A maturidade espiritual nasce do conhecimento das Escrituras, não dá familiaridade com revistas.

O próprio Senhor Jesus responsabilizou a ignorância bíblica pelos erros religiosos de sua época:

"Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus." (Mateus 22:29)

O diagnóstico continua atual.

Muitas heresias prosperam porque poucos conhecem profundamente a Bíblia. Muitos abusos espirituais encontram espaço porque há cristãos que aceitam qualquer afirmação sem conferir se realmente está escrita. A ignorância bíblica sempre foi o terreno mais fértil para o engano.

Confesso que essa realidade me incomoda. Já procurei, de todas as formas, alertar sobre a necessidade de devolver a Bíblia ao seu lugar central na Escola Dominical. Falei, argumentei e insisti, mas minhas observações não produziram efeito algum. Para não me tornar um incômodo e, em respeito aos que não querem ouvir, optei por silenciar. Deixei de insistir, mas o meu inconformismo permanece.

Hoje prefiro estudar em casa, dedicando tempo à leitura sistemática das Escrituras e utilizando a revista apenas como apoio, exatamente como deveria ser. Não rejeito a revista; rejeito a inversão de prioridades.

O problema não é a existência da revista.

O problema é quando ela se torna indispensável e a Bíblia, dispensável.

Uma Escola Bíblica Dominical onde a Bíblia permanece fechada pode ensinar muitas informações religiosas, mas dificilmente formará discípulos profundamente enraizados na Palavra de Deus.

Precisamos voltar ao modelo bíblico.

Primeiro, lê-se o texto na Bíblia.

Depois, observa-se o contexto.

Investigam-se as palavras.

Fazem-se perguntas ao texto.

Somente então os comentários e materiais auxiliares cumprem sua verdadeira função: iluminar aspectos daquilo que já foi estudado, nunca substituir o estudo.

A revista deve caminhar atrás da Bíblia, jamais à sua frente.

O professor deve ensinar a pensar biblicamente, e não apenas a acompanhar um roteiro editorial.

A Escola Bíblica Dominical precisa formar cristãos que saibam abrir a Bíblia sem depender de terceiros para entender seus fundamentos. Precisa formar homens e mulheres capazes de reconhecer a voz do Bom Pastor nas Escrituras, discernir o erro, refutar falsas doutrinas e ensinar outros também.

Enquanto houver mais confiança em revistas do que na leitura direta da Palavra de Deus, continuaremos produzindo uma geração que conhece muito sobre religião, mas conhece pouco as Escrituras.

Uma igreja que deixa sua Bíblia fechada corre o risco de pouco a pouco, fechar também os ouvidos para a voz de Deus, ou ir mais além; fechar as portas.

Que Deus nos dê discernimento para enxergar o que as Escrituras afirmam de forma tão clara, tão óbvia e tão explícita.

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