Há uma cena que deveria
causar indignação em qualquer cristão comprometido com a Palavra de Deus: uma
sala de Escola Bíblica Dominical repleta de pessoas, cada uma com sua revista
aberta, enquanto as Bíblias permanecem fechadas.
Essa realidade tornou-se tão
comum que já não causa estranheza. O anormal passou a ser visto como normal. A
revista tornou-se protagonista; a Bíblia, coadjuvante.
Não há nada de errado com a
revista da EBD. Ela é uma ferramenta didática útil, organiza assuntos, sugere
aplicações e auxilia professores e alunos. O problema surge quando uma
ferramenta passa a ocupar o lugar daquilo que deveria apenas servir. A revista
nasceu para conduzir o aluno às Escrituras, mas, em muitas igrejas, são as
Escrituras que acabam sendo usadas apenas para confirmar o que a revista já
disse.
Essa inversão é grave.
A Reforma Protestante foi
edificada sobre o princípio da Sola Scriptura: somente a Escritura possui
autoridade absoluta em matéria de fé e prática. Nenhum comentário, tradição,
manual ou revista pode reivindicar esse lugar. Todos devem ser julgados pela Palavra
de Deus, jamais o contrário.
O próprio apóstolo Paulo
declarou:
"Toda a Escritura é
divinamente inspirada por Deus e útil para o ensino, para repreensão, para
correção, para educação na justiça” (2 Timóteo 3:16)
Paulo não afirmou que toda
revista é inspirada. Não disse que comentários são suficientes. A inspiração
pertence exclusivamente às Escrituras.
Entretanto, basta observar
muitas aulas da Escola Dominical para perceber uma prática preocupante. O
professor lê o comentário da revista, desenvolve toda a explicação baseada nele
e, eventualmente, consulta um ou dois versículos apenas para ilustrar a lição.
O texto bíblico deixa de ser o ponto de partida e passa a ser um complemento.
Esse método produz uma
consequência inevitável: cristãos que conhecem muito bem a revista, mas
conhecem pouco a Bíblia.
Quando a lição termina,
muitos conseguem lembrar o título do capítulo estudado, mas não conseguem
localizar livros da Bíblia, compreender o contexto de uma passagem, identificar
a quem determinado texto foi dirigido ou explicar as bases da própria fé.
Não é exagero afirmar que
parte da superficialidade bíblica observada nas igrejas nasce exatamente dessa
metodologia.
A Bíblia foi substituída por
resumos.
O estudo foi substituído
pela leitura de comentários.
A investigação das
Escrituras foi substituída pela repetição de interpretações prontas.
Isso contrasta completamente
com o modelo bíblico.
Os cristãos de Bereia não
aceitaram nem mesmo o ensino do apóstolo Paulo sem antes examinarem
cuidadosamente as Escrituras.
"Ora, estes de Bereia
eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a
avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de
fato, assim.” (Atos 17:11)
Observe que eles não
conferiam uma revista. Não consultavam um manual. Eles verificavam diretamente
a Palavra de Deus.
Esse deveria continuar sendo
o padrão da Escola Bíblica Dominical.
Outro problema surge quando
o aluno passa anos frequentando a EBD, mas não desenvolve autonomia para
estudar a Bíblia sozinho. Ele torna-se dependente de comentaristas, pregadores
e materiais auxiliares para compreender qualquer texto bíblico.
Esse tipo de formação é
perigoso.
Um cristão incapaz de
interpretar minimamente as Escrituras torna-se vulnerável a todo vento de
doutrina. Basta surgir um pregador eloquente, uma nova tendência teológica ou
uma interpretação aparentemente convincente para que seja levado de um lado
para outro.
Foi exatamente por isso que
Paulo escreveu:
"...para que não mais
sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por
todo vento de doutrina..." (Efésios 4:14)
A maturidade espiritual
nasce do conhecimento das Escrituras, não dá familiaridade com revistas.
O próprio Senhor Jesus
responsabilizou a ignorância bíblica pelos erros religiosos de sua época:
"Errais, não conhecendo
as Escrituras nem o poder de Deus." (Mateus 22:29)
O diagnóstico continua
atual.
Muitas heresias prosperam
porque poucos conhecem profundamente a Bíblia. Muitos abusos espirituais
encontram espaço porque há cristãos que aceitam qualquer afirmação sem conferir
se realmente está escrita. A ignorância bíblica sempre foi o terreno mais fértil
para o engano.
Confesso que essa realidade
me incomoda. Já procurei, de todas as formas, alertar sobre a necessidade de
devolver a Bíblia ao seu lugar central na Escola Dominical. Falei, argumentei e
insisti, mas minhas observações não produziram efeito algum. Para não me tornar
um incômodo e, em respeito aos que não querem ouvir, optei por silenciar.
Deixei de insistir, mas o meu inconformismo permanece.
Hoje prefiro estudar em
casa, dedicando tempo à leitura sistemática das Escrituras e utilizando a
revista apenas como apoio, exatamente como deveria ser. Não rejeito a revista;
rejeito a inversão de prioridades.
O problema não é a
existência da revista.
O problema é quando ela se
torna indispensável e a Bíblia, dispensável.
Uma Escola Bíblica Dominical
onde a Bíblia permanece fechada pode ensinar muitas informações religiosas, mas
dificilmente formará discípulos profundamente enraizados na Palavra de Deus.
Precisamos voltar ao modelo
bíblico.
Primeiro, lê-se o texto na
Bíblia.
Depois, observa-se o
contexto.
Investigam-se as palavras.
Fazem-se perguntas ao texto.
Somente então os comentários
e materiais auxiliares cumprem sua verdadeira função: iluminar aspectos daquilo
que já foi estudado, nunca substituir o estudo.
A revista deve caminhar
atrás da Bíblia, jamais à sua frente.
O professor deve ensinar a
pensar biblicamente, e não apenas a acompanhar um roteiro editorial.
A Escola Bíblica Dominical
precisa formar cristãos que saibam abrir a Bíblia sem depender de terceiros
para entender seus fundamentos. Precisa formar homens e mulheres capazes de
reconhecer a voz do Bom Pastor nas Escrituras, discernir o erro, refutar falsas
doutrinas e ensinar outros também.
Enquanto houver mais
confiança em revistas do que na leitura direta da Palavra de Deus,
continuaremos produzindo uma geração que conhece muito sobre religião, mas
conhece pouco as Escrituras.
Uma igreja que deixa sua
Bíblia fechada corre o risco de pouco a pouco, fechar também os ouvidos para a
voz de Deus, ou ir mais além; fechar as portas.
Que Deus nos dê
discernimento para enxergar o que as Escrituras afirmam de forma tão clara, tão
óbvia e tão explícita.



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