A Igreja não foi chamada para eleger homens, foi chamada para anunciar Cristo.


Vladimir Chaves

Quando um pastor transforma sua autoridade espiritual em instrumento para conduzir votos, ele assume uma responsabilidade muito maior do que a de um simples eleitor. Ele passa a vincular a confiança do rebanho ao projeto político de alguém que, amanhã, poderá defender exatamente aquilo que a Palavra de Deus condena.

Foi isso que muitos cristãos passaram a questionar após a declaração pública de apoio do pastor José Carlos de Lima, presidente da Assembleia de Deus na Paraíba e da COMADEP, à pré-candidatura de Nabor Wanderley ao Senado.

Dois dias depois da declaração pública, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta — filho de Nabor — conduziu a aprovação da urgência de um projeto de lei (Lei da Misoginia) que pode produzir conflitos entre a legislação e a liberdade de exposição de determinados ensinos bíblicos sobre família, casamento e papéis entre homem e mulher.

Independentemente do destino desse projeto, permanece uma pergunta que nenhuma liderança cristã deveria ignorar:

Quem responde diante de Deus quando o púlpito empresta sua credibilidade a projetos políticos incompatíveis com a fé cristã?

A Bíblia não diz: "Maldito o homem que vota errado."

Mas diz: "Maldito o homem que confia no homem e faz da carne mortal o seu braço e aparta seu coração do SENHOR." (Jeremias 17:5)

Quando a confiança em políticos ocupa o lugar do discernimento espiritual, a Igreja deixa de ser voz profética para tornar-se plateia do poder.

O mais preocupante não é um político defender pautas contrárias às Escrituras. A história sempre conheceu governantes que rejeitaram os princípios de Deus.

O escândalo começa quando líderes da própria Igreja oferecem respaldo moral a esses projetos sem exercer qualquer discernimento público.

O profeta Oséias advertiu: "O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos" (Oséias 4:6)

Hoje, talvez fosse necessário acrescentar:

O povo também perece quando lhe sobra confiança em homens e lhe falta conhecimento das Escrituras.

Muitos cristãos que conhecem o número do candidato, mas desconhecem o contexto de Efésios 5.

Conhecem as estratégias eleitorais, mas ignoram as cartas pastorais.

Sabem defender um partido, mas não conseguem defender a própria fé.

A Igreja não pode tratar a Bíblia como um detalhe secundário quando escolhe quem merece sua confiança pública.

Se um agente político apoia propostas que restringem a liberdade religiosa, relativizam princípios bíblicos sobre família ou colocam em risco a livre pregação das Escrituras, a Igreja não pode fingir que isso é irrelevante em nome de alianças políticas.

O apóstolo Paulo escreveu: "Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos; porquanto que sociedade pode haver entre a justiça com e a iniquidade? Ou que comunhão tem a luz com as trevas?" (2 Coríntios 6:14)

Embora esse texto trate primariamente da comunhão espiritual, seu princípio permanece atual: a Igreja não pode negociar sua fidelidade às Escrituras em troca de proximidade com o poder.

Cristãos podem divergir em temas econômicos, administrativos ou tributários. Mas há princípios que não pertencem à direita nem à esquerda.

Pertencem ao Reino de Deus.

A autoridade das Escrituras.

A liberdade de anunciá-las.

A santidade do casamento.

A estrutura da família.

A pregação integral do Evangelho.

Esses princípios nunca deveriam ser relativizados por conveniência política.

Os bereanos foram elogiados porque examinavam tudo à luz da Palavra.

"Examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim" (Atos 17:11)

Talvez esteja faltando exatamente isso.

Menos entusiasmo por candidatos.

Mais zelo pela Palavra.

Menos compromisso com projetos de poder.

Mais compromisso com aquele que declarou: "Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão." (Mateus 24:35)

Quando a Igreja troca o discernimento pelo alinhamento político, deixa de iluminar o mundo e corre o risco de apenas refletir seus interesses.

E uma Igreja que prefere agradar aos homens em vez de permanecer fiel às Escrituras já começou a perder sua voz profética.

0 comentários:

Postar um comentário

Conteúdo é ideal para leitores cristãos interessados em doutrina, ética ministerial e fidelidade bíblica.