Quando um pastor transforma
sua autoridade espiritual em instrumento para conduzir votos, ele assume uma
responsabilidade muito maior do que a de um simples eleitor. Ele passa a
vincular a confiança do rebanho ao projeto político de alguém que, amanhã, poderá
defender exatamente aquilo que a Palavra de Deus condena.
Foi isso que muitos cristãos
passaram a questionar após a declaração pública de apoio do pastor José Carlos
de Lima, presidente da Assembleia de Deus na Paraíba e da COMADEP, à
pré-candidatura de Nabor Wanderley ao Senado.
Dois dias depois da declaração pública, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta — filho de Nabor — conduziu a aprovação da urgência de um projeto de lei (Lei da Misoginia) que pode produzir conflitos entre a legislação e a liberdade de exposição de determinados ensinos bíblicos sobre família, casamento e papéis entre homem e mulher.
Independentemente do destino
desse projeto, permanece uma pergunta que nenhuma liderança cristã deveria
ignorar:
Quem responde diante de Deus
quando o púlpito empresta sua credibilidade a projetos políticos incompatíveis
com a fé cristã?
A Bíblia não diz: "Maldito
o homem que vota errado."
Mas diz: "Maldito o
homem que confia no homem e faz da carne mortal o seu braço e aparta seu
coração do SENHOR." (Jeremias 17:5)
Quando a confiança em
políticos ocupa o lugar do discernimento espiritual, a Igreja deixa de ser voz
profética para tornar-se plateia do poder.
O mais preocupante não é um
político defender pautas contrárias às Escrituras. A história sempre conheceu
governantes que rejeitaram os princípios de Deus.
O escândalo começa quando
líderes da própria Igreja oferecem respaldo moral a esses projetos sem exercer
qualquer discernimento público.
O profeta Oséias advertiu: "O
meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu
sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também te rejeitarei, para que não sejas
sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me
esquecerei de teus filhos" (Oséias 4:6)
Hoje, talvez fosse
necessário acrescentar:
O povo também perece quando
lhe sobra confiança em homens e lhe falta conhecimento das Escrituras.
Muitos cristãos que conhecem
o número do candidato, mas desconhecem o contexto de Efésios 5.
Conhecem as estratégias
eleitorais, mas ignoram as cartas pastorais.
Sabem defender um partido,
mas não conseguem defender a própria fé.
A Igreja não pode tratar a
Bíblia como um detalhe secundário quando escolhe quem merece sua confiança
pública.
Se um agente político apoia
propostas que restringem a liberdade religiosa, relativizam princípios bíblicos
sobre família ou colocam em risco a livre pregação das Escrituras, a Igreja não
pode fingir que isso é irrelevante em nome de alianças políticas.
O apóstolo Paulo escreveu: "Não
vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos; porquanto que sociedade pode
haver entre a justiça com e a iniquidade? Ou que comunhão tem a luz com as
trevas?" (2 Coríntios 6:14)
Embora esse texto trate
primariamente da comunhão espiritual, seu princípio permanece atual: a Igreja
não pode negociar sua fidelidade às Escrituras em troca de proximidade com o
poder.
Cristãos podem divergir em
temas econômicos, administrativos ou tributários. Mas há princípios que não
pertencem à direita nem à esquerda.
Pertencem ao Reino de Deus.
A autoridade das Escrituras.
A liberdade de anunciá-las.
A santidade do casamento.
A estrutura da família.
A pregação integral do
Evangelho.
Esses princípios nunca
deveriam ser relativizados por conveniência política.
Os bereanos foram elogiados
porque examinavam tudo à luz da Palavra.
"Examinando as Escrituras
todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim" (Atos 17:11)
Talvez esteja faltando
exatamente isso.
Menos entusiasmo por
candidatos.
Mais zelo pela Palavra.
Menos compromisso com
projetos de poder.
Mais compromisso com aquele que declarou: "Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão." (Mateus 24:35)
Quando a Igreja troca o
discernimento pelo alinhamento político, deixa de iluminar o mundo e corre o
risco de apenas refletir seus interesses.
E uma Igreja que prefere
agradar aos homens em vez de permanecer fiel às Escrituras já começou a perder
sua voz profética.



0 comentários:
Postar um comentário
Conteúdo é ideal para leitores cristãos interessados em doutrina, ética ministerial e fidelidade bíblica.