A igreja de Corinto nos
ensina uma verdade que continua profundamente atual: é possível ter muitos dons
e, ainda assim, ter relacionamentos espiritualmente doentes.
Os coríntios tinham
manifestações extraordinárias, mas permitiram que o orgulho, a competição e as
divisões ocupassem espaço dentro da comunidade. O problema não estava nos dons,
mas na maneira como estavam sendo usados. Aquilo que deveria edificar o corpo
de Cristo estava, em alguns momentos, servindo para exaltar pessoas.
Paulo precisou lembrá-los de
que Cristo não criou a Igreja para ser um palco de disputas, mas um corpo no
qual cada membro precisa cuidar do outro: “Deus coordenou o corpo, concedendo
muito mais honra àquilo que menos tinha, para que não haja divisão no corpo, pelo
contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros” (1
Coríntios 12:24-25).
Essa advertência fica ainda
mais forte quando Paulo trata da Ceia do Senhor. Enquanto alguns tinham
fartura, outros passavam necessidade. A reunião que deveria expressar comunhão
havia se transformado em demonstração de egoísmo. Por isso, Paulo declarou: “Menosprezai
a igreja de Deus e envergonhais os que nada têm?” (1 Coríntios 11:22).
Isso nos leva a uma reflexão
importante: não basta participar de um culto; é preciso compreender o que
significa pertencer ao corpo de Cristo.
Podemos conhecer a Bíblia, cantar, pregar, ensinar, exercer dons espirituais e até experimentar manifestações extraordinárias. Mas, se as pessoas ao nosso redor são feridas pelo nosso orgulho, desprezo, arrogância ou competição para saber quem tem mais autoridade, alguma coisa está profundamente errada.
Por isso Paulo coloca o amor
no centro de tudo: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, e não
tiver amor, seria como o bronze que soa ou como o címbalo que retine” (1
Coríntios 13:1).
O dom pode impressionar, mas
é o amor revela Cristo.
O conhecimento pode produzir
admiração, mas é o caráter transforma relacionamentos.
A manifestação espiritual
pode chamar atenção, mas a maneira como tratamos as pessoas revela o que
realmente está governando o nosso coração.
O próprio Paulo resume o
propósito da vida cristã quando diz: “Seja tudo feito para edificação” (1
Coríntios 14:26). Esse deve ser um dos critérios para avaliarmos aquilo que
fazemos dentro da Igreja: isso está edificando ou ferindo? Está aproximando as
pessoas de Cristo ou alimentando a vaidade humana? Está preservando a dignidade
do irmão ou colocando alguém em posição de humilhação?
O dom de Deus não deveria
ser utilizado para diminuir alguém.
Quando o Espírito Santo
opera, o resultado não deve ser uma disputa para saber quem aparece mais, quem
fala melhor ou quem possui maior autoridade. O resultado deveria ser uma
comunidade em que Cristo é reconhecido na maneira como seus discípulos amam,
servem, perdoam e cuidam uns dos outros.
Jesus mesmo estabeleceu esse
sinal: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns
aos outros” (João 13:35).
A grande pergunta, portanto,
não é apenas: “Que dom eu tenho?”
É também: “O que o meu dom
está produzindo nas pessoas?”
Se ele serve para edificar,
encorajar, consolar e conduzir outros a Cristo, está cumprindo seu propósito.
Mas se alimenta orgulho, competição, humilhação e divisão, precisamos parar e
examinar o coração.
Porque, no Reino de Deus, o
valor de um dom não está apenas naquilo que ele manifesta, mas naquilo que ele
produz quando é colocado a serviço do corpo de Cristo.
E quando o amor deixa de ser
apenas uma palavra e passa a governar nossas atitudes, o caráter de Cristo
começa a ser reconhecido não somente no que fazemos dentro da igreja, mas
principalmente na maneira como tratamos uns aos outros.



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