Quando o dom não revela Cristo


Vladimir Chaves

A igreja de Corinto nos ensina uma verdade que continua profundamente atual: é possível ter muitos dons e, ainda assim, ter relacionamentos espiritualmente doentes.

Os coríntios tinham manifestações extraordinárias, mas permitiram que o orgulho, a competição e as divisões ocupassem espaço dentro da comunidade. O problema não estava nos dons, mas na maneira como estavam sendo usados. Aquilo que deveria edificar o corpo de Cristo estava, em alguns momentos, servindo para exaltar pessoas.

Paulo precisou lembrá-los de que Cristo não criou a Igreja para ser um palco de disputas, mas um corpo no qual cada membro precisa cuidar do outro: “Deus coordenou o corpo, concedendo muito mais honra àquilo que menos tinha, para que não haja divisão no corpo, pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros” (1 Coríntios 12:24-25).

Essa advertência fica ainda mais forte quando Paulo trata da Ceia do Senhor. Enquanto alguns tinham fartura, outros passavam necessidade. A reunião que deveria expressar comunhão havia se transformado em demonstração de egoísmo. Por isso, Paulo declarou: “Menosprezai a igreja de Deus e envergonhais os que nada têm?” (1 Coríntios 11:22).

Isso nos leva a uma reflexão importante: não basta participar de um culto; é preciso compreender o que significa pertencer ao corpo de Cristo.

Podemos conhecer a Bíblia, cantar, pregar, ensinar, exercer dons espirituais e até experimentar manifestações extraordinárias. Mas, se as pessoas ao nosso redor são feridas pelo nosso orgulho, desprezo, arrogância ou competição para saber quem tem mais autoridade, alguma coisa está profundamente errada. 

Por isso Paulo coloca o amor no centro de tudo: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, e não tiver amor, seria como o bronze que soa ou como o címbalo que retine” (1 Coríntios 13:1).

O dom pode impressionar, mas é o amor revela Cristo.

O conhecimento pode produzir admiração, mas é o caráter transforma relacionamentos.

A manifestação espiritual pode chamar atenção, mas a maneira como tratamos as pessoas revela o que realmente está governando o nosso coração.

O próprio Paulo resume o propósito da vida cristã quando diz: “Seja tudo feito para edificação” (1 Coríntios 14:26). Esse deve ser um dos critérios para avaliarmos aquilo que fazemos dentro da Igreja: isso está edificando ou ferindo? Está aproximando as pessoas de Cristo ou alimentando a vaidade humana? Está preservando a dignidade do irmão ou colocando alguém em posição de humilhação?

O dom de Deus não deveria ser utilizado para diminuir alguém.

Quando o Espírito Santo opera, o resultado não deve ser uma disputa para saber quem aparece mais, quem fala melhor ou quem possui maior autoridade. O resultado deveria ser uma comunidade em que Cristo é reconhecido na maneira como seus discípulos amam, servem, perdoam e cuidam uns dos outros.

Jesus mesmo estabeleceu esse sinal: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (João 13:35).

A grande pergunta, portanto, não é apenas: “Que dom eu tenho?”

É também: “O que o meu dom está produzindo nas pessoas?”

Se ele serve para edificar, encorajar, consolar e conduzir outros a Cristo, está cumprindo seu propósito. Mas se alimenta orgulho, competição, humilhação e divisão, precisamos parar e examinar o coração.

Porque, no Reino de Deus, o valor de um dom não está apenas naquilo que ele manifesta, mas naquilo que ele produz quando é colocado a serviço do corpo de Cristo.

E quando o amor deixa de ser apenas uma palavra e passa a governar nossas atitudes, o caráter de Cristo começa a ser reconhecido não somente no que fazemos dentro da igreja, mas principalmente na maneira como tratamos uns aos outros.

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