Proclamar a Palavra de Deus com fidelidade


Vladimir Chaves

Proclamar a Palavra de Deus é uma grande responsabilidade. Não se trata simplesmente de falar sobre a Bíblia, ensinar versículos ou ocupar um púlpito. Quem anuncia a Palavra assume o compromisso de transmitir aquilo que Deus revelou com verdade, reverência e integridade.

Paulo nos apresenta uma imagem significativa ao dizer que devemos ser considerados “ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus”. E acrescenta: “o que se requer dos despenseiros é que cada um deles seja encontrado fiel” (1 Co 4.1,2).

O despenseiro não é dono daquilo que administra. Ele recebeu algo que pertence a outro e deve cuidar e entregar corretamente. Da mesma forma, quem anuncia a Palavra não pode modificá-la segundo interesses pessoais, conveniências ou preferências humanas.

Fidelidade exige não adulterar a Palavra

Muitas mensagens são adaptadas para agradar às pessoas ou, em outros momentos, para atacá-las. Há uma tendência de selecionar apenas aquilo que interessa ao pregador, enquanto textos que confrontam o pecado, chamam ao arrependimento e exigem mudança de vida são deixados de lado.

Entretanto, a fidelidade bíblica não permite a “pesca de versículos” para atender aos interesses de quem está no púlpito.

Jesus declarou: “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4). Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, repreender, corrigir e instruir em justiça (2 Tm 3.16,17).

Proclamar a Palavra com fidelidade significa não acrescentar o que Deus não disse, nem retirar aquilo que preferimos não dizer. A mensagem precisa permanecer acima do mensageiro.

A Palavra precisa ser anunciada e vivida

Existe uma dimensão ainda mais profunda da fidelidade: não basta falar corretamente sobre a Palavra; é necessário viver de acordo com ela.

Nossa vida também é uma mensagem.

De pouco adianta falar sobre santidade enquanto cultivamos uma vida distante de Deus. Não faz sentido ensinar sobre perdão e permanecer dominado pelo ressentimento. Não é coerente proclamar a fé enquanto nossas atitudes revelam incredulidade.

O testemunho cristão começa quando a Palavra que anunciamos também transforma nossa própria vida.

Isso não significa perfeição, mas disposição para obedecer, corrigir os próprios caminhos, arrepender-se dos erros e permanecer fiel mesmo quando isso custa alguma coisa.

Fidelidade também é permanecer firme nas tentações

A fidelidade de Deus não significa ausência de dificuldades e tentações. A Bíblia afirma que seremos provados, mas Deus permanece conosco.

Paulo escreve: “Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar” (1 Co 10.13).

Essa verdade precisa fazer parte da nossa proclamação. Quando anunciamos a Palavra, não estamos oferecendo uma vida sem problemas, mas anunciando um Deus que permanece fiel no meio deles.

A fé cristã não promete ausência de lutas; promete a presença de Deus durante elas.

É preciso preparo e reverência

Proclamar a Palavra também exige preparo. Jeremias apresenta um contraste entre a palavra humana e a Palavra de Deus:

“O profeta que tem sonho conte-o como apenas sonho; mas aquele em quem está a minha palavra fale a minha palavra com verdade. Que tem a palha com o trigo? Diz o Senhor” (Jr 23.28).

A pergunta de Deus continua atual.

Nem tudo aquilo que emociona vem de Deus. Nem toda opinião religiosa possui autoridade bíblica. Nem toda mensagem bonita é necessariamente verdadeira.

Por isso, quem ensina a Bíblia precisa estudá-la, conhecê-la e tratá-la com reverência. O mensageiro fiel não procura fazer a Bíblia dizer aquilo que deseja; procura compreender e transmitir aquilo que Deus realmente disse.

A fidelidade começa no coração

Antes de perguntarmos se estamos proclamando corretamente a Palavra aos outros, devemos perguntar se estamos permitindo que ela confronte a nós mesmos.

A Palavra que pregamos precisa primeiro passar pelo nosso próprio coração. Precisamos ouvir antes de ensinar, obedecer antes de exigir obediência e permitir que Deus transforme nossa vida antes de tentar transformar a vida dos outros.

A verdadeira proclamação não acontece apenas diante de uma igreja. Ela acontece também dentro de casa, no trabalho, nas amizades, nas decisões e na maneira como tratamos as pessoas.

Nossa conduta deve confirmar aquilo que nossos lábios anunciam.

Proclamar a Palavra de Deus com fidelidade é muito mais do que repetir textos bíblicos. É assumir a responsabilidade de ser um fiel despenseiro daquilo que Deus confiou a nós.

É anunciar a verdade sem adulterá-la, ensiná-la sem omissões, estudá-la com seriedade e, acima de tudo, vivê-la com sinceridade.

O mundo não precisa de mais mensagens moldadas para agradar aos homens. Precisa da verdade de Deus anunciada com amor, coragem e fidelidade.

E, no final, a grande pergunta não será quanto falamos, quantas pessoas nos ouviram ou quanto reconhecimento recebemos. A pergunta será:

Fomos fiéis àquilo que Deus colocou em nossas mãos?

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