Quando a Palavra é negligenciada dentro da própria igreja


Vladimir Chaves

A Bíblia está presente em todas as igrejas, mas isso não significa que a Palavra de Deus esteja ocupando o lugar que deveria ocupar. Há templos onde a programação é intensa, os eventos se multiplicam, as atividades se sucedem e os cultos são cuidadosamente organizados; mas o ensino das Escrituras recebe cada vez menos espaço.

Essa inversão precisa ser questionada.

Em muitas congregações, o culto que deveria conduzir o povo à adoração, ao conhecimento de Deus, ao arrependimento e à transformação pela Palavra acaba sendo preenchido por uma sequência de apresentações, anúncios, homenagens, campanhas, eventos e outras atividades. Não que essas coisas sejam necessariamente erradas. O problema começa quando aquilo que é secundário passa a ocupar o espaço daquilo que é essencial.

A Palavra não pode ser apenas uma parte da programação. Ela precisa ser o fundamento da programação.

O autor de Hebreus apresenta uma advertência que merece ser levada muito a sério:

“Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido.” Hebreus 5:12

E acrescenta: “...vos tendes tornado tardios para ouvir...” Hebreus 5:11

A expressão é significativa: “tardios para ouvir”.

O problema não era falta de tempo, nem ausência da Palavra. O problema era a negligência em ouvi-la e amadurecer por meio dela.

Isso também pode acontecer dentro da igreja. Uma pessoa pode frequentar cultos durante anos, participar de congressos, conferências, encontros e eventos, mas continuar sem conhecimento suficiente das Escrituras. Pode estar sempre presente na igreja e, ainda assim, permanecer espiritualmente imatura.

Hebreus 5:13-14 mostra justamente essa diferença entre imaturidade e maturidade espiritual. O autor relaciona o crescimento do cristão ao conhecimento e à prática da “palavra da justiça”, mostrando que o discernimento é desenvolvido pelo exercício.

Sem conhecimento da Palavra, como o cristão poderá discernir?

Como reconhecerá um falso ensino?

Como saberá quando uma doutrina contradiz as Escrituras?

Como distinguirá a vontade de Deus das opiniões humanas?

Como poderá obedecer a aquilo que não conhece?

Hebreus 2:1 acrescenta: “Por esta razão, importa que nos apeguemos, com mais firmeza, às verdades ouvidas, para que delas jamais nos desviemos”

A advertência é clara: a negligência em ouvir pode levar ao desvio.

Por isso, reduzir o ensino bíblico não é uma questão meramente de organização do culto. É uma questão espiritual.

Quando a Palavra recebe pouco espaço, o cristão perde oportunidades de conhecer mais profundamente a Deus, compreender a doutrina, reconhecer o pecado, desenvolver discernimento e fortalecer sua fé.

Hebreus 4:2 afirma: “Porque também a nós foram anunciadas as boas-novas, como se deu com eles; mas a palavra que ouviram não lhes aproveitou, visto não ter sido acompanhada pela fé naqueles que a ouviram.”

Não basta ouvir a Palavra. É necessário recebê-la com fé e obedecê-la.

E Hebreus 4:12 revela por que a Escritura não pode ser tratada como um simples complemento do culto: “Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes...”

É a Palavra que confronta o pecado, corrige o erro, revela o coração, produz arrependimento e conduz o homem à verdade.

Por isso, não há evento que possa substituir a exposição das Escrituras.

Não há apresentação que substitua o ensino.

Não há entretenimento que produza o mesmo efeito da Palavra.

Não há programação que possa ocupar o lugar daquilo que Deus determinou para ensinar, corrigir, repreender e instruir o seu povo.

Paulo escreveu: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para repreensão, para correção, para a educação na justiça.” 2 Timóteo 3:16

Isso não significa que eventos, música, comunhão ou atividades sejam inúteis. Eles podem ter seu lugar. A questão é outra: o que está no centro?

Quando o secundário toma o lugar do essencial, a igreja pode continuar movimentada, mas o povo deixa de crescer na mesma proporção.

Uma agenda cheia não é prova de maturidade espiritual. 

Um templo cheio não é necessariamente sinal de conhecimento bíblico.

Uma grande quantidade de eventos não significa, por si só, uma igreja forte.

A verdadeira maturidade aparece quando homens e mulheres conhecem a Palavra, discernem o erro, rejeitam o pecado e vivem em obediência a Cristo.

É exatamente por isso que Hebreus 3:7-8 diz: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações...”

Deus continua falando. A questão é se estamos dispostos a ouvir.

A igreja precisa recuperar a centralidade das Escrituras.

Não para abandonar a adoração, a comunhão ou as atividades, mas para colocar cada coisa no seu devido lugar.

Menos superficialidade. Mais ensino.

Menos distração. Mais Escritura.

Menos preocupação em preencher a agenda. Mais compromisso em formar discípulos.

Porque uma igreja ocupada pode produzir espectadores.

Mas uma igreja fundamentada na Palavra produz discípulos.

E discípulos que conhecem a Palavra estão mais preparados para permanecer firmes, discernir o erro e obedecer a Deus.

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