Quando a fé vira peso e o medo vira regra


Vladimir Chaves

“Apesar disso, muitos até dentre as autoridades creram nele; mas por causa dos fariseus não o confessavam, para não serem expulsos da sinagoga. Porque amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus.”  João 12:42–43

João 12:42–43 nos mostra líderes que criam em Jesus, mas não O confessavam. Não era falta de fé, era medo. Medo de perder espaço, reputação e aceitação. Eles amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus. Esse texto lança luz sobre um problema que também se manifesta hoje, especialmente dentro da religiosidade rígida.

Em muitos ambientes religiosos, o evangelho é apresentado junto com uma lista de exigências que não vêm do coração da fé, mas da tradição humana: regras severas sobre vestes, adornos, costumes e comportamentos externos, tratados como se fossem pecados mortais. O resultado não é maturidade espiritual, mas peso, culpa e medo.

Recém-convertidos, que deveriam ser acolhidos, ensinados e discipulados com paciência, muitas vezes são pressionados a “se encaixar” rapidamente em um padrão externo. Antes mesmo de entenderem a graça, já aprendem a ter medo de errar. Antes de conhecerem a liberdade em Cristo, já sentem o peso da vigilância humana.

Esse texto bíblico se conecta diretamente com a nossa realidade.

O custo do discipulado não é trocar roupas, cortar adornos ou adotar um comportamento forçado para agradar líderes ou denominações. O verdadeiro custo é morrer para o ego, para o orgulho, para o desejo de aprovação. Mas quando a religiosidade ocupa o lugar do evangelho, o foco se inverte: busca-se agradar pessoas, sistemas e tradições.

“Amaram mais a glória dos homens” (aprovação, reconhecimento, prestígio...)

Essa glória também se manifesta quando líderes e instituições defendem regras rígidas mais para manter controle, identidade ou status espiritual do que para conduzir pessoas a Cristo. Cria-se um ambiente onde obedecer regras vale mais do que amar pessoas, e onde parecer santo é mais importante do que ser transformado.

O efeito disso é silencioso e devastador: muitos até creem, mas se calam; muitos até começam, mas desistem; muitos até querem Cristo, mas fogem da igreja. Não porque rejeitam o evangelho, mas porque não suportam o peso de uma fé que se tornou fardo, não boa notícia.

Jesus nunca afastou os fracos com exigências imediatas. Ele chamou, acolheu, ensinou e transformou de dentro para fora. Quando a igreja faz o contrário, ela repete o erro dos líderes de João 12: protege a estrutura, mas perde pessoas; mantém a aparência, mas sufoca a fé.

A reflexão que fica é clara e necessária:

Estamos conduzindo pessoas à glória de Deus ou exigindo que elas se ajustem à glória dos homens?

Onde a graça não é o ponto de partida, a fé se torna medo.

Onde a aparência é prioridade, o evangelho perde sua força.

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