Carnaval da intolerância: Bíblia vira fantasia no escárnio travestido de cultura


Vladimir Chaves


O desfile da Acadêmicos de Niterói, realizado no Sambódromo da Marquês de Sapucaí e promovido com recursos públicos, reacendeu um debate urgente: até que ponto a sátira é arte legítima e em que momento ela se transforma em ataque direcionado à fé de milhões de brasileiros?

A escola homenageou o petista Luiz Inácio Lula da Silva e incluiu uma ala intitulada “Neoconservadores em Conserva”. Fantasias em formato de lata ironizavam diferentes perfis considerados conservadores; entre eles, a família e o segmento evangélico, representado por um personagem segurando uma Bíblia dentro de uma lata. O que poderia ser defendido como crítica política acabou ultrapassando a fronteira do debate ideológico e adentrando o campo da ridicularização religiosa.

É preciso dizer com clareza: criticar posicionamentos políticos faz parte da democracia. Zombar da fé de um povo, não. O Brasil é um país majoritariamente cristão. Milhões de evangélicos (e também católicos) não podem ser reduzidos a caricaturas. Quando símbolos sagrados, como a Bíblia, são usados para compor uma cena de escárnio, a mensagem transmitida é de desprezo, não de diálogo.

A cristofobia se manifesta quando manifestações culturais, financiadas com dinheiro público, escolhem como alvo específico a identidade religiosa de um grupo. Se o mesmo tipo de representação fosse feito com outra religião minoritária, provavelmente haveria imediata reação institucional e midiática. Por que, então, quando se trata de cristãos, a ofensa é relativizada como “apenas humor” ou “apenas arte”?

O problema central não é o carnaval, nem a liberdade artística; ambos são expressões legítimas da cultura brasileira. A questão é o uso seletivo da sátira para deslegitimar convicções religiosas, especialmente quando estas se mostram politicamente divergentes do político homenageado no mesmo desfile. A mistura entre celebração política e escárnio religioso cria um ambiente institucional que tolera e incentiva a ridicularização de cristãos.

Uma democracia madura exige pluralidade e respeito. O Estado é laico, mas isso não significa que deva ser hostil à fé de milhões de brasileiros. Pelo contrário, laicidade pressupõe neutralidade e proteção igualitária a todas as crenças. Quando recursos públicos financiam manifestações que ridicularizam uma religião específica, essa neutralidade é colocada em xeque.

Transformar a fé cristã em objeto de deboche público corrói o tecido social e aprofunda divisões. Se a arte pretende provocar reflexão, que provoque também responsabilidade. A liberdade de expressão é um direito precioso; mas ela não deve se tornar instrumento de humilhação coletiva. O respeito à dignidade humana, inclusive à dignidade religiosa, é um princípio que deve estar acima de qualquer enredo carnavalesco.

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