O desfile da Acadêmicos de
Niterói, realizado no Sambódromo da Marquês de Sapucaí e promovido com recursos
públicos, reacendeu um debate urgente: até que ponto a sátira é arte legítima e
em que momento ela se transforma em ataque direcionado à fé de milhões de
brasileiros?
A escola homenageou o petista
Luiz Inácio Lula da Silva e incluiu uma ala intitulada “Neoconservadores em
Conserva”. Fantasias em formato de lata ironizavam diferentes perfis
considerados conservadores; entre eles, a família e o segmento evangélico,
representado por um personagem segurando uma Bíblia dentro de uma lata. O que
poderia ser defendido como crítica política acabou ultrapassando a fronteira do
debate ideológico e adentrando o campo da ridicularização religiosa.
É preciso dizer com clareza:
criticar posicionamentos políticos faz parte da democracia. Zombar da fé de um
povo, não. O Brasil é um país majoritariamente cristão. Milhões de evangélicos (e
também católicos) não podem ser reduzidos a caricaturas. Quando símbolos
sagrados, como a Bíblia, são usados para compor uma cena de escárnio, a
mensagem transmitida é de desprezo, não de diálogo.
A cristofobia se manifesta
quando manifestações culturais, financiadas com dinheiro público, escolhem como
alvo específico a identidade religiosa de um grupo. Se o mesmo tipo de
representação fosse feito com outra religião minoritária, provavelmente haveria
imediata reação institucional e midiática. Por que, então, quando se trata de
cristãos, a ofensa é relativizada como “apenas humor” ou “apenas arte”?
O problema central não é o
carnaval, nem a liberdade artística; ambos são expressões legítimas da cultura
brasileira. A questão é o uso seletivo da sátira para deslegitimar convicções
religiosas, especialmente quando estas se mostram politicamente divergentes do político
homenageado no mesmo desfile. A mistura entre celebração política e escárnio
religioso cria um ambiente institucional que tolera e incentiva a
ridicularização de cristãos.
Uma democracia madura exige
pluralidade e respeito. O Estado é laico, mas isso não significa que deva ser
hostil à fé de milhões de brasileiros. Pelo contrário, laicidade pressupõe
neutralidade e proteção igualitária a todas as crenças. Quando recursos
públicos financiam manifestações que ridicularizam uma religião específica,
essa neutralidade é colocada em xeque.
Transformar a fé cristã em
objeto de deboche público corrói o tecido social e aprofunda divisões. Se a
arte pretende provocar reflexão, que provoque também responsabilidade. A
liberdade de expressão é um direito precioso; mas ela não deve se tornar
instrumento de humilhação coletiva. O respeito à dignidade humana, inclusive à
dignidade religiosa, é um princípio que deve estar acima de qualquer enredo
carnavalesco.



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