Carnaval no país do pão, circo e da falta de prioridade


Vladimir Chaves

No Carnaval o Brasil confirma sua especialidade: transformar crise estrutural em espetáculo coreografado. Enquanto o país desfila fantasias, a realidade segue nua; hospitais lotados, escolas sucateadas, estradas que mais parecem armadilhas e uma economia que patina há décadas.

Não é coincidência. É método. O país que não consegue garantir o básico aprende a investir no supérfluo com eficiência impressionante. Montam-se palcos monumentais com rapidez cirúrgica, mas reformas hospitalares levam anos. A iluminação da avenida funciona perfeitamente; já a iluminação das salas de aula, muitas vezes, é precária. Para o evento, há planejamento detalhado. Para o futuro, improviso.

A fórmula é antiga, e eficaz. Na Roma Antiga, distribuía-se pão e circo para conter a insatisfação popular. Séculos depois, o roteiro permanece surpreendentemente atual. A diferença é que hoje não falta informação. Falta indignação consistente.

A cada ano, repete-se o mesmo ciclo: discursos inflamados, promessas de desenvolvimento, anúncios de investimentos estruturais. Mas, quando chega a hora de priorizar, o que rende palco, imagem e aplauso costuma vencer o que exige trabalho silencioso e resultado a longo prazo. É mais fácil financiar o barulho do que resolver o problema.

E o mais inquietante não é a festa em si, é a complacência. Parte da população vibra com os mesmos agentes públicos que falham na entrega do essencial. Aplaudem-se patrocinadores do entretenimento enquanto se normaliza a precariedade na saúde e na educação. O político que inaugura palco ganha manchete; o que deveria garantir saneamento básico raramente recebe cobrança proporcional.

O país que poderia estar discutindo produtividade, inovação, competitividade internacional e qualidade do ensino prefere discutir fantasia e desfile. Enquanto isso, jovens perdem oportunidades por deficiência educacional, famílias aguardam meses por procedimentos médicos e trabalhadores enfrentam infraestrutura decadente.

O Carnaval acaba. A conta fica. A ressaca não é apenas moral, é estrutural.

A pergunta que deveria ecoar mais alto que qualquer trio elétrico é simples: até quando aceitaremos espetáculo no lugar de responsabilidade? Porque um país que prioriza a vitrine e ignora o alicerce não está apenas distraído, está em decadência anunciada.

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