No Carnaval o Brasil
confirma sua especialidade: transformar crise estrutural em espetáculo
coreografado. Enquanto o país desfila fantasias, a realidade segue nua;
hospitais lotados, escolas sucateadas, estradas que mais parecem armadilhas e
uma economia que patina há décadas.
Não é coincidência. É
método. O país que não consegue garantir o básico aprende a investir no
supérfluo com eficiência impressionante. Montam-se palcos monumentais com
rapidez cirúrgica, mas reformas hospitalares levam anos. A iluminação da
avenida funciona perfeitamente; já a iluminação das salas de aula, muitas
vezes, é precária. Para o evento, há planejamento detalhado. Para o futuro,
improviso.
A fórmula é antiga, e
eficaz. Na Roma Antiga, distribuía-se pão e circo para conter a insatisfação
popular. Séculos depois, o roteiro permanece surpreendentemente atual. A
diferença é que hoje não falta informação. Falta indignação consistente.
A cada ano, repete-se o
mesmo ciclo: discursos inflamados, promessas de desenvolvimento, anúncios de
investimentos estruturais. Mas, quando chega a hora de priorizar, o que rende
palco, imagem e aplauso costuma vencer o que exige trabalho silencioso e resultado
a longo prazo. É mais fácil financiar o barulho do que resolver o problema.
E o mais inquietante não é a
festa em si, é a complacência. Parte da população vibra com os mesmos agentes
públicos que falham na entrega do essencial. Aplaudem-se patrocinadores do
entretenimento enquanto se normaliza a precariedade na saúde e na educação. O
político que inaugura palco ganha manchete; o que deveria garantir saneamento
básico raramente recebe cobrança proporcional.
O país que poderia estar
discutindo produtividade, inovação, competitividade internacional e qualidade
do ensino prefere discutir fantasia e desfile. Enquanto isso, jovens perdem
oportunidades por deficiência educacional, famílias aguardam meses por procedimentos
médicos e trabalhadores enfrentam infraestrutura decadente.
O Carnaval acaba. A conta
fica. A ressaca não é apenas moral, é estrutural.
A pergunta que deveria ecoar
mais alto que qualquer trio elétrico é simples: até quando aceitaremos
espetáculo no lugar de responsabilidade? Porque um país que prioriza a vitrine
e ignora o alicerce não está apenas distraído, está em decadência anunciada.



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