Carnaval: Celebrando o prazer, ignorando as consequências


Vladimir Chaves


“Ai dos que se levantam pela manhã para seguir a bebida forte… e não consideram as obras do Senhor.” (Isaías 5:11-12)

O brado de Isaías não pertence a um passado distante. Ele descreve, com precisão desconfortável, a realidade de uma geração que transformou o excesso em virtude e a ausência de Deus em estilo de vida. O profeta denuncia uma sociedade que amanhece buscando embriaguez e adormece ignorando o Senhor. A pergunta é inevitável: o que mudou?

Em períodos como o carnaval, essa advertência bíblica ganha contornos ainda mais evidentes. O discurso oficial fala de cultura, liberdade e alegria. Mas, por trás da narrativa romantizada, o que se vê é a celebração da desmedida. Exalta-se a perda de controle como se fosse libertação. Trata-se a embriaguez como direito, a sensualização como empoderamento e a irresponsabilidade como autenticidade.

Não se trata de demonizar cultura ou música. O problema é outro: quando o prazer ocupa o trono e Deus é empurrado para a periferia da consciência. Quando qualquer limite é visto como opressão. Quando a única regra é “sentir”, “experimentar” e “aproveitar”, independentemente das consequências.

A sociedade repete, quase como um dogma: “Você merece ser feliz.” Mas nunca explica que felicidade construída sobre impulsos é frágil. O álcool e as drogas prometem euforia, mas frequentemente entregam acidentes, violência e decisões irreversíveis. A liberdade proclamada nas ruas muitas vezes termina em lares feridos, consciências culpadas e relacionamentos despedaçados.

Há um custo, sempre há. Só que ele raramente aparece nas propagandas, nos discursos oficiais ou nas postagens festivas. Ele surge depois: nas estatísticas de violência, nas famílias desestruturadas, nas vidas marcadas por escolhas feitas sob efeito de instantes intensos e pouco refletidos.

Isaías descreve festas, instrumentos, celebrações. O problema nunca foi a música. O problema era a indiferença espiritual. “Não consideram as obras do Senhor.” Eis o diagnóstico. Uma sociedade pode cantar alto e, ainda assim, estar espiritualmente surda. Pode sorrir para as câmeras e, ao mesmo tempo, caminhar para o vazio.

O cristianismo não propõe uma vida sem alegria. Pelo contrário: oferece uma alegria que não depende de substâncias químicas, não exige máscaras e não cobra juros emocionais depois. A alegria que vem de Deus não destrói vínculos, não banaliza o corpo, não transforma pessoas em objetos de consumo momentâneo.

O que está em jogo não é um evento isolado, mas uma mentalidade: a crença de que prazer sem responsabilidade não causa danos. A história mostra o oposto. Civilizações não entram em colapso apenas por crises econômicas ou políticas, mas por erosão moral; quando o excesso deixa de ser vício e passa a ser celebrado como valor.

Ignorar isso não é sinal de progresso; é sinal de cegueira voluntária. O alerta de Isaías continua ecoando porque continua necessário. Uma geração que se acostuma a viver anestesiada dificilmente perceberá quando estiver espiritualmente falida.

A questão final não é cultural, é espiritual: quem ocupa o centro? O prazer momentâneo ou o Senhor da vida? Porque toda sociedade que escolhe viver sem considerar as obras de Deus acaba, inevitavelmente, colhendo as consequências dessa decisão.

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