“Ouvindo todo o povo, disse Jesus aos seus discípulos: Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com vestes longas, amam as saudações nas praças, as primeiras cadeiras nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes; os quais devoram as casas das viúvas e, para o justificar, fazem longas orações. Estes receberão mais duro juízo.” (Lucas 20:45–47)
Lucas 20:45–47 não
é apenas uma advertência aos escribas do primeiro século. É um espelho que
atravessa o tempo e confronta a fé contemporânea. Jesus não condena a Lei, o
ensino ou a liderança espiritual em si, mas algo mais perigoso: o uso da fé
como instrumento de autopromoção.
Os escribas ocupavam o topo
da autoridade religiosa. Eram referências morais e intérpretes da Escritura. O
problema não estava no cargo, mas na distância entre discurso e prática. O
ministério virou palco, a devoção virou performance e a oração, estratégia. A
fé deixou de ser serviço e passou a ser status.
Essa denúncia ecoa
fortemente hoje. Vivemos tempos em que visibilidade vale mais que fidelidade.
Há quem fale muito de Deus, mas pouco se pareça com Cristo. Orações longas e
discursos eloquentes não garantem comunhão. É possível falar de Deus e, ainda
assim, estar longe dEle.
O alerta mais grave está na
frase: “devoram as casas das viúvas”. Não é só corrupção financeira, é
violência espiritual. É usar o nome de Deus para explorar a fé simples, a dor e
a vulnerabilidade. Quando a religião pesa mais do que consola e cobra mais
do que ama, ela deixa de refletir o Reino.
Hoje isso aparece quando a
fé vira negócio, quando a promessa depende da oferta e o medo do juízo vira
controle. Jesus é claro: o juízo será mais severo. Não por injustiça, mas porque
quem lida com o sagrado carrega maior responsabilidade.
Há também um chamado
pessoal. Esse texto não é só para líderes. Sempre que buscamos aplausos acima
da obediência e reconhecimento acima da aprovação divina, flertamos com a mesma
espiritualidade vazia. A religião que Jesus rejeita não é a do templo, mas a do
ego.
Cristo nos chama a uma fé
sem holofotes. Uma espiritualidade que se revela no cuidado com o próximo, na
integridade silenciosa, na oração no secreto e na justiça longe das câmeras. O
Reino não se constrói com aparência, mas com corações rendidos.
Lucas 20:45–47 nos
confronta e nos purifica. Deus não se impressiona com títulos, discursos ou um
terno alinhado e bem passado. Ele busca verdade, misericórdia e humildade. No
fim, não será avaliada a imagem que projetamos, mas a vida que vivemos diante
dEle.



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