Quando a fé vira vitrine e o sagrado é usado como escudo


Vladimir Chaves

“Ouvindo todo o povo, disse Jesus aos seus discípulos: Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com vestes longas, amam as saudações nas praças, as primeiras cadeiras nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes; os quais devoram as casas das viúvas e, para o justificar, fazem longas orações. Estes receberão mais duro juízo.” (Lucas 20:45–47)

Lucas 20:45–47 não é apenas uma advertência aos escribas do primeiro século. É um espelho que atravessa o tempo e confronta a fé contemporânea. Jesus não condena a Lei, o ensino ou a liderança espiritual em si, mas algo mais perigoso: o uso da fé como instrumento de autopromoção.

Os escribas ocupavam o topo da autoridade religiosa. Eram referências morais e intérpretes da Escritura. O problema não estava no cargo, mas na distância entre discurso e prática. O ministério virou palco, a devoção virou performance e a oração, estratégia. A fé deixou de ser serviço e passou a ser status.

Essa denúncia ecoa fortemente hoje. Vivemos tempos em que visibilidade vale mais que fidelidade. Há quem fale muito de Deus, mas pouco se pareça com Cristo. Orações longas e discursos eloquentes não garantem comunhão. É possível falar de Deus e, ainda assim, estar longe dEle.

O alerta mais grave está na frase: “devoram as casas das viúvas”. Não é só corrupção financeira, é violência espiritual. É usar o nome de Deus para explorar a fé simples, a dor e a vulnerabilidade. Quando a religião pesa mais do que consola e cobra mais do que ama, ela deixa de refletir o Reino.

Hoje isso aparece quando a fé vira negócio, quando a promessa depende da oferta e o medo do juízo vira controle. Jesus é claro: o juízo será mais severo. Não por injustiça, mas porque quem lida com o sagrado carrega maior responsabilidade.

Há também um chamado pessoal. Esse texto não é só para líderes. Sempre que buscamos aplausos acima da obediência e reconhecimento acima da aprovação divina, flertamos com a mesma espiritualidade vazia. A religião que Jesus rejeita não é a do templo, mas a do ego.

Cristo nos chama a uma fé sem holofotes. Uma espiritualidade que se revela no cuidado com o próximo, na integridade silenciosa, na oração no secreto e na justiça longe das câmeras. O Reino não se constrói com aparência, mas com corações rendidos.

Lucas 20:45–47 nos confronta e nos purifica. Deus não se impressiona com títulos, discursos ou um terno alinhado e bem passado. Ele busca verdade, misericórdia e humildade. No fim, não será avaliada a imagem que projetamos, mas a vida que vivemos diante dEle.

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