Quando a justiça de Deus se encontra com a cruz de Cristo


Vladimir Chaves

Poucos temas bíblicos revelam tão claramente a profundidade da condição humana e a grandeza da obra de Cristo quanto a justificação. Para compreendê-la, é preciso antes encarar nossa realidade espiritual: todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus (Rm 3:23). Diante do tribunal divino, todo ser humano é réu, culpado, sem defesa possível.

A lei não foi dada para salvar, mas para expor o pecado. Por isso, qualquer tentativa de se justificar por obras, moralidade ou religiosidade fracassa inevitavelmente. A necessidade da justificação nasce do fato de que ninguém consegue alcançar justiça diante de Deus por si mesmo.

Deus é perfeitamente justo e santo. Isso significa que Ele não pode agir como um juiz corrupto que fecha os olhos diante de um crime. Ignorar o pecado seria negar sua própria natureza. Sua justiça exige que a culpa seja punida: “o salário do pecado é a morte” (Rm 6:23).

Se Deus punisse cada pecador conforme merece, ninguém seria salvo. Mas se simplesmente absolvesse sem punição, deixaria de ser justo. É nesse ponto que a justificação se apresenta como o coração do plano de salvação.

Cristo, o fundamento da justificação

A resposta divina ao dilema foi enviar o Filho. Jesus viveu sem pecado, cumpriu toda a lei, e voluntariamente tomou sobre si a condenação que nos cabia. Na cruz, Ele não apenas morreu fisicamente: Ele assumiu sobre si a ira divina destinada à humanidade caída. Como escreveu Isaías: “o castigo que nos traz a paz estava sobre Ele” (Is 53:5).

Paulo resume esse mistério com clareza: “Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que n’Ele fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5:21). Em Cristo, a justiça de Deus não é anulada, mas plenamente satisfeita. E, ao mesmo tempo, a graça é revelada em sua forma mais pura.

Graça, não é mérito

A justificação não é uma conquista humana. Não depende de boas obras, disciplina moral ou esforços religiosos. É dom gratuito, fruto exclusivo da graça divina: “pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8-9).

A graça não ignora a justiça, mas a cumpre em Cristo. A punição foi aplicada, mas não sobre nós, e sim sobre o Filho. Essa é a essência da justificação: Deus nos declara justos porque alguém pagou em nosso lugar.

A fé

Se a justificação é obra de Deus, como ela chega até nós? Pela fé. Mas é importante compreender: não somos justificados pela intensidade da nossa fé, mas pelo objeto dela. Não é a força do crer que salva, mas Aquele em quem cremos. A fé é o canal pelo qual recebemos a justiça imputada de Cristo.

Assim, a justificação é o ponto de encontro entre a justiça rígida de Deus e a sua graça abundante. E somente em Cristo esse encontro se torna possível.

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