Louvor: Quando a música vira decoração e a igreja perde a direção


Vladimir Chaves

A igreja evangélica vem enfrentado um dilema silencioso e perigoso: Pois o louvor se tornou, em muitos lugares, decoração de culto ou preenchimento do tempo. Bonito, emocionante, mas vazio de propósito. Canta-se muito, mas proclama-se pouco. O que deveria ser testemunho vivo do Evangelho frequentemente se reduz a uma lista aleatória de músicas, selecionadas sem critério, sem direção bíblica e sem a clareza do porquê.

O salmista nos alerta:

“Louvai ao Senhor, invocai o seu nome; fazei conhecidas as suas obras entre os povos. Cantai-lhe, cantai-lhe salmos; falai de todas as suas maravilhas.” (Salmo 105:1-2)

Se o louvor não narra a história de Deus e não aponta para a obra de Cristo, torna-se apenas som. A congregação canta, mas não é edificada; repete versos, mas não contempla o Evangelho.

O perigo das preferências pessoais

Quando não olhamos para a Escritura, escolhemos músicas que agradam ao nosso gosto musical, à moda do momento ou, em contrapartida, nos prendemos ao legalismo da tradição, cantando sempre as mesmas canções, sem reflexão. O resultado é um culto moldado por conveniências humanas, não pela Palavra.

Isaías já denunciava esse culto aparente, mas vazio:

“Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim.” (Isaías 29:13)

Não basta saber cantar, ter técnica ou popularidade. Se o coração não aponta para Cristo, tudo não passa de performance religiosa.

Uma igreja sem direção

Um louvor sem propósito é como uma bússola quebrada: até pode se movimentar, mas não indica o caminho certo. Hebreus lembra que o verdadeiro louvor nasce do sacrifício espiritual e da confissão de fé:

“Por meio dele, pois, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome.” (Hebreus 13:15)

Quando o repertório não conduz a igreja ao reconhecimento de Cristo, cria-se uma comunidade que canta muito, mas caminha sem direção.

Tradição e popularidade não são critérios

Outra armadilha comum é o costume de cantar “o que sempre cantamos” ou simplesmente aderir ao que é popular no meio gospel. Mas tradição e popularidade não são critérios de adoração. O chamado de Pedro é outro:

“Vós, porém, sois geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.” (1 Pedro 2:9)

Se nossa música não proclama as virtudes de Deus, não cumpre sua missão.

As disputas absurdas entre líderes

O cenário se agrava quando o louvor deixa de ser serviço a Deus e se transforma em arena de vaidades. Não são poucas as igrejas marcadas por disputas entre líderes de ministério, vocalistas e músicos que disputam espaço, microfone e prestígio. Alguns brigam para “aparecer mais”, outros competem por quem escolhe as músicas ou quem tem mais influência sobre a congregação.

Essas disputas absurdas revelam um problema ainda mais profundo: o coração que busca palco e não cruz, reconhecimento humano e não a glória de Deus. Nesse contexto, até chamamos de louvor, mas muitas vezes o que oferecemos é apenas alimento para o nosso próprio ego.

O louvor que conta a história de Deus

O louvor verdadeiro não é sobre nós. Ele não existe para massagear nossos sentimentos ou agradar nosso paladar espiritual. Ele é testemunho da salvação e participação na obra do Senhor. O Salmo 96 nos convida a um cântico novo, não no sentido de novidade musical, mas de renovação da mensagem que aponta para Cristo:

“Cantai ao Senhor um cântico novo; cantai ao Senhor, todas as terras. Cantai ao Senhor, bendizei o seu nome; anunciai a sua salvação dia após dia.” (Salmo 96:1-2)

Cantar sem refletir é perigoso, porque molda uma fé superficial. Mas cantar com consciência, proclamando o Evangelho, molda uma comunidade que aprende a viver em adoração.

Um chamado à reflexão

Se o louvor que entoamos não conduz a igreja ao Evangelho, estamos apenas embelezando o culto com melodias passageiras. Se músicos e líderes se consomem em disputas por palco e influência, estamos proclamando a nós mesmos, não a Cristo.

A grande questão que fica é:

O que nossa igreja tem cantado aponta para Cristo ou para o ego humano?

Nosso louvor tem ensinado a congregação a viver o Evangelho, ou apenas preenchido o silêncio com belas canções?

Estamos cultivando adoradores ou apenas formando plateias?

Enquanto essas perguntas não forem respondidas à luz da Escritura, seguiremos correndo o risco de chamar de “louvor” aquilo que, na verdade, não passa de entretenimento religioso.

Somos chamado a viver e falar a verdade, mesmo que isso cause desconforto.

“Eis as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu companheiro; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas.” Zacarias 8:16

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