Quando os pastores deixam de ouvir o clamor das ovelhas


Vladimir Chaves

“Não apagueis o Espírito.” 1 Tessalonicenses 5:19

Existe uma pergunta que a Igreja precisa ter coragem de fazer, especialmente seus líderes: estamos realmente sendo conduzidos pelo Espírito Santo ou apenas aprendemos a manter uma estrutura religiosa funcionando?

Essa pergunta não deve ser dirigida somente aos membros. Ela precisa chegar aos púlpitos, às lideranças, aos pastores, aos presbíteros e a todos aqueles que receberam a responsabilidade de cuidar do rebanho de Deus.

Porque existe uma realidade que não pode ser ignorada: há pessoas deixando as igrejas.

Algumas simplesmente abandonam a fé. Outras continuam buscando a Deus, mas fora das instituições. Algumas se afastam depois de serem feridas, ignoradas ou decepcionadas. Outras saem porque não encontram mais espaço para suas dúvidas, dores e necessidades espirituais.

E diante disso, qual tem sido a reação da liderança?

Muitas vezes, simplesmente contar quantos continuam frequentando.

Mas a pergunta deveria ser outra:

Quem está faltando? Por que está faltando? Alguém foi atrás? Alguém sentiu sua ausência?

Uma igreja pode registrar presença, arrecadação, atividades e crescimento institucional e, ainda assim, não perceber que pessoas estão desaparecendo silenciosamente.

O problema começa quando a ausência de uma ovelha deixa de produzir preocupação no coração do pastor.

Jesus ensinou que uma ovelha perdida não deveria ser tratada como estatística. O pastor deveria procurá-la. Essa imagem confronta profundamente uma Igreja que, algumas vezes, parece mais preocupada em manter os que estão dentro do templo do que em procurar os que ficaram para trás.

Quando foi a última vez que um líder procurou alguém que deixou de congregar sem esperar que essa pessoa voltasse por iniciativa própria?

Não estamos falando de perseguir pessoas ou de obrigá-las a retornar. Estamos falando de cuidado.

Uma ligação, uma visita, uma mensagem, uma conversa sem julgamento, uma pergunta sincera: “Como você está?”

Talvez algumas pessoas não precisassem de uma cobrança. Precisassem apenas descobrir que alguém realmente sentiu sua falta.

É preciso ter cuidado para não transformar o púlpito em um lugar de condenação daqueles que se afastaram. Antes de perguntar por que alguém saiu, talvez seja necessário perguntar se a Igreja fez tudo o que estava ao seu alcance para cuidar daquela pessoa.

Nem todo afastamento é culpa da liderança. Nem toda pessoa que sai está certa. Existem aqueles que abandonam a comunhão por escolhas pessoais, por conflitos, por pecado ou simplesmente porque decidiram seguir outro caminho.

Mas também existem pessoas que foram embora carregando feridas que poderiam ter sido tratadas com mais amor, atenção e acompanhamento.

E isso precisa ser encarado com honestidade.

O pastor não recebeu apenas a responsabilidade de alimentar quem está no aprisco; recebeu também a responsabilidade de se importar com quem está se perdendo.

Uma liderança pode estar tão ocupada administrando a igreja que já não tem tempo para pastorear pessoas.

Pode haver reuniões de liderança, agendas lotadas, congressos, convenções, campanhas, departamentos e projetos, enquanto uma ovelha está sofrendo sozinha.

Que paradoxo!

A estrutura funciona, mas a pessoa está desaparecendo.

O calendário está cheio, mas o coração de alguém está vazio.

O templo está preparado para o próximo culto, mas ninguém percebeu quem não voltou ao culto anterior.

Precisamos recuperar o sentido bíblico de pastoreio.

Pastor não é apenas aquele que prega. Não é apenas aquele que administra. Não é apenas aquele que dirige cultos.

Pastor é aquele que cuida.

E cuidar exige proximidade.

Exige ouvir.

Exige conhecer as pessoas.

Exige perceber mudanças.

Exige sensibilidade.

Exige tempo.

E, acima de tudo, exige amor.

O Espírito Santo não deveria ser usado apenas como tema de sermões, enquanto sua direção é ignorada nas decisões da Igreja.

Quando o Espírito Santo conduz, a liderança não olha somente para números. Olha para pessoas.

Não pergunta apenas quantos entraram.

Pergunta também quantos estão feridos.

Não comemora apenas crescimento.

Pergunta se aqueles que permanecem estão crescendo espiritualmente.

Não observa apenas quem está no altar.

Também procura saber quem está sentado sozinho, quem deixou de participar, quem perdeu a esperança e quem está pensando em desistir.

Porque o verdadeiro pastoreio enxerga aquilo que uma simples lista de presença não consegue mostrar.

Existe ainda outro perigo: a liderança se acostumar com o esvaziamento.

Quando poucos vão embora, preocupa.

Quando muitos vão embora, pode começar a parecer normal.

E quando o anormal se torna habitual, a consciência deixa de reagir.

Uma igreja não deveria considerar normal perder pessoas sem ao menos perguntar por quê.

Não basta dizer: “Quem quiser ficar, fique.”

Essa postura pode até parecer firme, mas não expressa necessariamente o coração do Bom Pastor.

Jesus não ensinou que a liderança deva ser indiferente.

Ele ensinou busca, cuidado, restauração, amor...

Isso não significa abandonar a verdade para agradar pessoas. O pastor precisa continuar ensinando a Palavra, corrigindo quando necessário e mantendo princípios bíblicos. Mas verdade sem amor pode ferir; e amor sem verdade pode enganar.

A liderança precisa das duas coisas.

Verdade para não perder o caminho. Amor para não perder as pessoas.

Talvez esteja na hora de algumas igrejas diminuírem um pouco o ritmo das atividades para ouvir melhor o que está acontecendo dentro do próprio rebanho.

Talvez seja necessário perguntar aos membros por que alguns estão desanimados.

Talvez seja necessário ouvir aqueles que se afastaram.

Talvez algumas lideranças precisem admitir: “Não percebemos. Não cuidamos como deveríamos.”

Reconhecer isso não diminui um pastor.

Ao contrário, demonstra humildade.

O problema não é uma liderança reconhecer que errou. O problema é perceber os erros e continuar repetindo-os.

A Igreja não pode pedir um grande avivamento enquanto permanece indiferente às pessoas que estão espiritualmente morrendo ao seu redor.

Não adianta falar sobre o derramamento do Espírito Santo se não existe disposição para obedecer ao Espírito naquilo que Ele claramente ensina sobre amor, cuidado, misericórdia, serviço e responsabilidade.

O Espírito Santo não nos torna indiferentes às ovelhas.

Ele nos torna sensíveis.

Por isso, antes de perguntar quantas pessoas Deus acrescentará à Igreja, talvez seja necessário perguntar:

Quantas pessoas estamos deixando escapar?

Antes de planejar o próximo grande evento, talvez seja necessário procurar aqueles que desapareceram.

Antes de preparar mais um sermão sobre avivamento, talvez seja necessário visitar alguém que está afastado.

Antes de criticar os “desigrejados”, talvez seja necessário ouvir suas histórias.

Nem todos os que estão fora de uma igreja estão fora de Cristo. E nem todos os que estão dentro de uma igreja estão espiritualmente bem.

Essa realidade deveria levar a liderança à reflexão, não à acusação.

O desafio pastoral não é simplesmente manter o templo cheio.

É cuidar de pessoas.

Porque números podem mostrar quantos estão presentes, mas somente o pastoreio pode revelar quantos estão sendo cuidados.

Uma igreja pode perder uma pessoa e continuar funcionando normalmente. Mas o céu não trata uma alma como um número.

E se a Igreja realmente deseja experimentar a ação do Espírito Santo, talvez precise começar por aquilo que parece pequeno aos olhos humanos: voltar a sentir falta das pessoas.

Sentir falta de quem sumiu, procurar quem se afastou, ouvir quem foi ferido, restaurar quem caiu, ensinar quem está começando, fortalecer quem está fraco e amar sem abrir mão da verdade.

Porque uma Igreja verdadeiramente conduzida pelo Espírito Santo não se torna apenas mais poderosa no púlpito.

Torna-se mais parecida com Cristo no cuidado das ovelhas. 

E talvez essa seja uma das maiores confrontações para nossos dias:

Não basta perguntar por que as pessoas estão saindo. A liderança também precisa perguntar se a Igreja ainda está sendo um lugar onde as pessoas encontram cuidado, verdade, comunhão e Cristo.

Se a resposta for desconfortável, talvez não seja motivo para esconder o problema.

Talvez seja o momento de começar a buscar a Deus novamente.

Não apenas para encher os templos.

Mas para reacender nos pastores o amor pelas ovelhas de Deus.

A graça do Senhor Jesus seja com todos!

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