“Não apagueis o Espírito.” 1
Tessalonicenses 5:19
Existe uma pergunta que a
Igreja precisa ter coragem de fazer, especialmente seus líderes: estamos
realmente sendo conduzidos pelo Espírito Santo ou apenas aprendemos a manter
uma estrutura religiosa funcionando?
Essa pergunta não deve ser
dirigida somente aos membros. Ela precisa chegar aos púlpitos, às lideranças,
aos pastores, aos presbíteros e a todos aqueles que receberam a
responsabilidade de cuidar do rebanho de Deus.
Porque existe uma realidade
que não pode ser ignorada: há pessoas deixando as igrejas.
Algumas simplesmente
abandonam a fé. Outras continuam buscando a Deus, mas fora das instituições.
Algumas se afastam depois de serem feridas, ignoradas ou decepcionadas. Outras
saem porque não encontram mais espaço para suas dúvidas, dores e necessidades
espirituais.
E diante disso, qual tem
sido a reação da liderança?
Muitas vezes, simplesmente
contar quantos continuam frequentando.
Mas a pergunta deveria ser
outra:
Quem está faltando? Por que
está faltando? Alguém foi atrás? Alguém sentiu sua ausência?
Uma igreja pode registrar
presença, arrecadação, atividades e crescimento institucional e, ainda assim,
não perceber que pessoas estão desaparecendo silenciosamente.
O problema começa quando a
ausência de uma ovelha deixa de produzir preocupação no coração do pastor.
Jesus ensinou que uma ovelha
perdida não deveria ser tratada como estatística. O pastor deveria procurá-la.
Essa imagem confronta profundamente uma Igreja que, algumas vezes, parece mais
preocupada em manter os que estão dentro do templo do que em procurar os que
ficaram para trás.
Quando foi a última vez que
um líder procurou alguém que deixou de congregar sem esperar que essa pessoa
voltasse por iniciativa própria?
Não estamos falando de
perseguir pessoas ou de obrigá-las a retornar. Estamos falando de cuidado.
Uma ligação, uma visita, uma
mensagem, uma conversa sem julgamento, uma pergunta sincera: “Como você está?”
Talvez algumas pessoas não
precisassem de uma cobrança. Precisassem apenas descobrir que alguém realmente
sentiu sua falta.
É preciso ter cuidado para
não transformar o púlpito em um lugar de condenação daqueles que se afastaram.
Antes de perguntar por que alguém saiu, talvez seja necessário perguntar se a
Igreja fez tudo o que estava ao seu alcance para cuidar daquela pessoa.
Nem todo afastamento é culpa
da liderança. Nem toda pessoa que sai está certa. Existem aqueles que abandonam
a comunhão por escolhas pessoais, por conflitos, por pecado ou simplesmente
porque decidiram seguir outro caminho.
Mas também existem pessoas
que foram embora carregando feridas que poderiam ter sido tratadas com mais
amor, atenção e acompanhamento.
E isso precisa ser encarado
com honestidade.
O pastor não recebeu apenas
a responsabilidade de alimentar quem está no aprisco; recebeu também a
responsabilidade de se importar com quem está se perdendo.
Uma liderança pode estar tão
ocupada administrando a igreja que já não tem tempo para pastorear pessoas.
Pode haver reuniões de
liderança, agendas lotadas, congressos, convenções, campanhas, departamentos e
projetos, enquanto uma ovelha está sofrendo sozinha.
Que paradoxo!
A estrutura funciona, mas a
pessoa está desaparecendo.
O calendário está cheio, mas
o coração de alguém está vazio.
O templo está preparado para
o próximo culto, mas ninguém percebeu quem não voltou ao culto anterior.
Precisamos recuperar o
sentido bíblico de pastoreio.
Pastor não é apenas aquele
que prega. Não é apenas aquele que administra. Não é apenas aquele que dirige
cultos.
Pastor é aquele que cuida.
E cuidar exige proximidade.
Exige ouvir.
Exige conhecer as pessoas.
Exige perceber mudanças.
Exige sensibilidade.
Exige tempo.
E, acima de tudo, exige
amor.
O Espírito Santo não deveria
ser usado apenas como tema de sermões, enquanto sua direção é ignorada nas
decisões da Igreja.
Quando o Espírito Santo
conduz, a liderança não olha somente para números. Olha para pessoas.
Não pergunta apenas quantos
entraram.
Pergunta também quantos
estão feridos.
Não comemora apenas
crescimento.
Pergunta se aqueles que
permanecem estão crescendo espiritualmente.
Não observa apenas quem está
no altar.
Também procura saber quem
está sentado sozinho, quem deixou de participar, quem perdeu a esperança e quem
está pensando em desistir.
Porque o verdadeiro
pastoreio enxerga aquilo que uma simples lista de presença não consegue
mostrar.
Existe ainda outro perigo: a
liderança se acostumar com o esvaziamento.
Quando poucos vão embora,
preocupa.
Quando muitos vão embora,
pode começar a parecer normal.
E quando o anormal se torna
habitual, a consciência deixa de reagir.
Uma igreja não deveria
considerar normal perder pessoas sem ao menos perguntar por quê.
Não basta dizer: “Quem
quiser ficar, fique.”
Essa postura pode até
parecer firme, mas não expressa necessariamente o coração do Bom Pastor.
Jesus não ensinou que a
liderança deva ser indiferente.
Ele ensinou busca, cuidado, restauração,
amor...
Isso não significa abandonar
a verdade para agradar pessoas. O pastor precisa continuar ensinando a Palavra,
corrigindo quando necessário e mantendo princípios bíblicos. Mas verdade sem
amor pode ferir; e amor sem verdade pode enganar.
A liderança precisa das duas
coisas.
Verdade para não perder o
caminho. Amor para não perder as pessoas.
Talvez esteja na hora de
algumas igrejas diminuírem um pouco o ritmo das atividades para ouvir melhor o
que está acontecendo dentro do próprio rebanho.
Talvez seja necessário
perguntar aos membros por que alguns estão desanimados.
Talvez seja necessário ouvir
aqueles que se afastaram.
Talvez algumas lideranças
precisem admitir: “Não percebemos. Não cuidamos como deveríamos.”
Reconhecer isso não diminui
um pastor.
Ao contrário, demonstra
humildade.
O problema não é uma
liderança reconhecer que errou. O problema é perceber os erros e continuar
repetindo-os.
A Igreja não pode pedir um
grande avivamento enquanto permanece indiferente às pessoas que estão
espiritualmente morrendo ao seu redor.
Não adianta falar sobre o
derramamento do Espírito Santo se não existe disposição para obedecer ao
Espírito naquilo que Ele claramente ensina sobre amor, cuidado, misericórdia,
serviço e responsabilidade.
O Espírito Santo não nos
torna indiferentes às ovelhas.
Ele nos torna sensíveis.
Por isso, antes de perguntar
quantas pessoas Deus acrescentará à Igreja, talvez seja necessário perguntar:
Quantas pessoas estamos
deixando escapar?
Antes de planejar o próximo
grande evento, talvez seja necessário procurar aqueles que desapareceram.
Antes de preparar mais um
sermão sobre avivamento, talvez seja necessário visitar alguém que está
afastado.
Antes de criticar os
“desigrejados”, talvez seja necessário ouvir suas histórias.
Nem todos os que estão fora
de uma igreja estão fora de Cristo. E nem todos os que estão dentro de uma
igreja estão espiritualmente bem.
Essa realidade deveria levar
a liderança à reflexão, não à acusação.
O desafio pastoral não é
simplesmente manter o templo cheio.
É cuidar de pessoas.
Porque números podem mostrar
quantos estão presentes, mas somente o pastoreio pode revelar quantos estão
sendo cuidados.
Uma igreja pode perder uma
pessoa e continuar funcionando normalmente. Mas o céu não trata uma alma como
um número.
E se a Igreja realmente
deseja experimentar a ação do Espírito Santo, talvez precise começar por aquilo
que parece pequeno aos olhos humanos: voltar a sentir falta das pessoas.
Sentir falta de quem sumiu,
procurar quem se afastou, ouvir quem foi ferido, restaurar quem caiu, ensinar
quem está começando, fortalecer quem está fraco e amar sem abrir mão da
verdade.
Porque uma Igreja
verdadeiramente conduzida pelo Espírito Santo não se torna apenas mais poderosa
no púlpito.
Torna-se mais parecida com Cristo no cuidado das ovelhas.
E talvez essa seja uma das
maiores confrontações para nossos dias:
Não basta perguntar por que
as pessoas estão saindo. A liderança também precisa perguntar se a Igreja ainda
está sendo um lugar onde as pessoas encontram cuidado, verdade, comunhão e
Cristo.
Se a resposta for
desconfortável, talvez não seja motivo para esconder o problema.
Talvez seja o momento de
começar a buscar a Deus novamente.
Não apenas para encher os
templos.
Mas para reacender nos
pastores o amor pelas ovelhas de Deus.
A graça do Senhor Jesus seja com todos!


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