Quando a Igreja deixa de sentir falta das ovelhas


Vladimir Chaves

“Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu até encontrá-la?” Lucas 15:4

Lucas 15 começa apresentando o cenário que levou Jesus a contar essa parábola: “Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir” (Lc 15:1). Do outro lado estavam os fariseus e escribas, que murmuravam: “Este recebe pecadores e come com eles” (Lc 15:2). É nesse ambiente que Jesus fala da ovelha perdida, mostrando o contraste entre aqueles que se preocupavam com a condição religiosa das pessoas e aquele que se preocupava com sua recuperação.

Jesus fala de cem ovelhas e de uma que se perde. Para quem olha apenas para números, noventa e nove representam um grande rebanho. Para o Pastor, porém, a ausência não podia ser ignorada. Ele deixa as noventa e nove e vai atrás da perdida “até encontra-la”.

Quando a encontra, coloca-a sobre os ombros, cheio de alegria. Não há desprezo pela que se afastou, mas celebração pela recuperação. Jesus conclui: “Assim haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende...” (Lc 15:7).

A parábola mostra, portanto, que a perda não deve ser recebida com indiferença. O pastor percebe a ausência, toma uma atitude e se empenha até recuperar aquilo que havia se perdido. Enquanto os fariseus viam o pecador como motivo de reprovação, Jesus mostrava que sua restauração era motivo de alegria.

Aqui está uma das grandes mensagens de Lucas 15: para Deus, quem está perdido não perde seu valor. A condição daquela pessoa exige cuidado, não desprezo.

É significativo que Jesus não concentre a narrativa em descobrir como a ovelha se perdeu, mas na responsabilidade diante de sua ausência. O foco não está na acusação, mas na restauração.

Isso nos confronta. Podemos olhar para as noventa e nove e considerar que o rebanho continua bem. Podemos justificar o esvaziamento dizendo que “os tempos mudaram”, que “as pessoas não querem compromisso” ou que “quem saiu, saiu porque quis”.

Mas Jesus apresenta outro padrão.

Uma igreja pode perceber que alguém não está mais presente sem se importar. Pode registrar a ausência sem perguntar a causa, ver os bancos diminuindo sem procurar compreender o que aconteceu e continuar sua rotina sem que isso produza oração, visita ou cuidado.

E existe algo ainda mais sério: há religiosos que, por suas próprias atitudes, ajudam a expulsar as ovelhas que deveriam cuidar. Palavras duras, julgamentos precipitados, humilhações, disputas de poder, falta de perdão e uma religiosidade sem misericórdia podem ferir profundamente. Depois, quando a pessoa vai embora, é fácil dizer: “Ela saiu porque quis”, “não era convertido”, “não era crente”. Mas é preciso coragem para perguntar: será que algumas atitudes não contribuíram para sua saída?

Existem pessoas que deixaram uma congregação e talvez ninguém tenha perguntado por elas. Pessoas que serviram, contribuíram e participaram durante anos, mas que, depois de desaparecerem, foram simplesmente esquecidas, deletadas dos grupos.

Alguns são chamados de “desigrejados”. Porém, por trás dessa palavra existem histórias diferentes: pessoas feridas, decepcionadas, cansadas, afastadas espiritualmente, pessoas que discordaram de práticas religiosas, que pecaram, foram humilhadas ou simplesmente se afastaram.

E muitos mesmo afastados continuam buscando a Deus, buscando o acolhimento e o amor de Cristo que a igreja negou.

E a pergunta permanece: Quem está cuidando daqueles que se afastaram?

É possível corrigir o pecado sem abandonar o pecador, discordar sem transformar o outro em inimigo e reconhecer erros sem abandonar quem está ferido.

Por isso, diante do esvaziamento das igrejas, a pergunta não deveria ser: “O que essas pessoas fizeram de errado?”.

Deveria ser:

Onde estão nossas ovelhas?

Onde estão os jovens que desapareceram?

Onde estão as famílias que ocupavam aqueles bancos?

Onde estão os irmãos que participavam dos trabalhos?

Onde estão os que saíram silenciosamente?

Onde estão os que foram feridos?

Onde estão os que precisam de reconciliação?

Uma Igreja pode conservar cultos, cargos, programações e estruturas enquanto pessoas desaparecem sem que ninguém perceba a gravidade. Uma igreja doente e cada vez mais distante de Cristo.

A porta da igreja pode permanecer aberta, enquanto o coração da Igreja permanece fechado para quem saiu.

A Igreja não foi chamada apenas para receber quem chega. Também foi chamada para cuidar, restaurar e acolher quem se afastou.

Lucas 15 termina apontando para a alegria do céu: o que estava perdido foi encontrado e o pecador se arrependeu.

Talvez essa seja uma das grandes lições da parábola: a saúde de uma Igreja não pode ser medida apenas pelo número dos que permanecem, mas também pela maneira como trata aqueles que se afastaram.

Jesus não considerou a perda irrelevante.

Ele agiu.

E, quando recuperou a ovelha, houve alegria no céu.

Sejamos imitadores de Cristo.

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