“Qual, dentre vós, é o homem
que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as
noventa e nove e vai em busca da que se perdeu até encontrá-la?” Lucas 15:4
Lucas 15
começa apresentando o cenário que levou Jesus a contar essa parábola:
“Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir” (Lc
15:1). Do outro lado estavam os fariseus e escribas, que murmuravam: “Este
recebe pecadores e come com eles” (Lc 15:2). É nesse ambiente que Jesus
fala da ovelha perdida, mostrando o contraste entre aqueles que se preocupavam
com a condição religiosa das pessoas e aquele que se preocupava com sua
recuperação.
Jesus fala de cem ovelhas e
de uma que se perde. Para quem olha apenas para números, noventa e nove representam
um grande rebanho. Para o Pastor, porém, a ausência não podia ser ignorada. Ele
deixa as noventa e nove e vai atrás da perdida “até encontra-la”.
Quando a encontra, coloca-a
sobre os ombros, cheio de alegria. Não há desprezo pela que se afastou, mas
celebração pela recuperação. Jesus conclui: “Assim haverá maior júbilo no céu
por um pecador que se arrepende...” (Lc 15:7).
A parábola mostra, portanto,
que a perda não deve ser recebida com indiferença. O pastor percebe a ausência,
toma uma atitude e se empenha até recuperar aquilo que havia se perdido.
Enquanto os fariseus viam o pecador como motivo de reprovação, Jesus mostrava
que sua restauração era motivo de alegria.
Aqui está uma das grandes
mensagens de Lucas 15: para Deus, quem está perdido não perde seu valor.
A condição daquela pessoa exige cuidado, não desprezo.
É significativo que Jesus
não concentre a narrativa em descobrir como a ovelha se perdeu, mas na
responsabilidade diante de sua ausência. O foco não está na acusação, mas na
restauração.
Isso nos confronta. Podemos
olhar para as noventa e nove e considerar que o rebanho continua bem. Podemos
justificar o esvaziamento dizendo que “os tempos mudaram”, que “as pessoas não
querem compromisso” ou que “quem saiu, saiu porque quis”.
Mas Jesus apresenta outro
padrão.
Uma igreja pode perceber que
alguém não está mais presente sem se importar. Pode registrar a ausência sem
perguntar a causa, ver os bancos diminuindo sem procurar compreender o que
aconteceu e continuar sua rotina sem que isso produza oração, visita ou
cuidado.
E existe algo ainda mais
sério: há religiosos que, por suas próprias atitudes, ajudam a expulsar as
ovelhas que deveriam cuidar. Palavras duras, julgamentos precipitados,
humilhações, disputas de poder, falta de perdão e uma religiosidade sem
misericórdia podem ferir profundamente. Depois, quando a pessoa vai embora, é
fácil dizer: “Ela saiu porque quis”, “não era convertido”, “não era crente”.
Mas é preciso coragem para perguntar: será que algumas atitudes não
contribuíram para sua saída?
Existem pessoas que deixaram
uma congregação e talvez ninguém tenha perguntado por elas. Pessoas que
serviram, contribuíram e participaram durante anos, mas que, depois de
desaparecerem, foram simplesmente esquecidas, deletadas dos grupos.
Alguns são chamados de
“desigrejados”. Porém, por trás dessa palavra existem histórias diferentes:
pessoas feridas, decepcionadas, cansadas, afastadas espiritualmente, pessoas
que discordaram de práticas religiosas, que pecaram, foram humilhadas ou
simplesmente se afastaram.
E muitos mesmo afastados
continuam buscando a Deus, buscando o acolhimento e o amor de Cristo que a
igreja negou.
E a pergunta permanece: Quem
está cuidando daqueles que se afastaram?
É possível corrigir o pecado
sem abandonar o pecador, discordar sem transformar o outro em inimigo e
reconhecer erros sem abandonar quem está ferido.
Por isso, diante do
esvaziamento das igrejas, a pergunta não deveria ser: “O que essas pessoas
fizeram de errado?”.
Deveria ser:
Onde estão nossas ovelhas?
Onde estão os jovens que
desapareceram?
Onde estão as famílias que ocupavam
aqueles bancos?
Onde estão os irmãos que
participavam dos trabalhos?
Onde estão os que saíram
silenciosamente?
Onde estão os que foram
feridos?
Onde estão os que precisam
de reconciliação?
Uma Igreja pode conservar cultos, cargos, programações e estruturas enquanto pessoas desaparecem sem que ninguém perceba a gravidade. Uma igreja doente e cada vez mais distante de Cristo.
A porta da igreja pode
permanecer aberta, enquanto o coração da Igreja permanece fechado para quem
saiu.
A Igreja não foi chamada
apenas para receber quem chega. Também foi chamada para cuidar, restaurar e
acolher quem se afastou.
Lucas 15
termina apontando para a alegria do céu: o que estava perdido foi encontrado e
o pecador se arrependeu.
Talvez essa seja uma das
grandes lições da parábola: a saúde de uma Igreja não pode ser medida apenas
pelo número dos que permanecem, mas também pela maneira como trata aqueles que
se afastaram.
Jesus não considerou a perda
irrelevante.
Ele agiu.
E, quando recuperou a
ovelha, houve alegria no céu.
Sejamos imitadores de Cristo.


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