Quando a tradição e a opinião ocupam o lugar da Palavra


Vladimir Chaves


Jesus fez uma pergunta que continua profundamente atual: “Por que transgredis vós também o mandamento de Deus, por causa da vossa tradição?” (Mateus 15:3). Em seguida, declarou: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mateus 15:8), e completou: “Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mateus 15:9).

Essas palavras nos levam a uma reflexão necessária sobre a maneira como lidamos com a Palavra de Deus. O problema não está simplesmente em possuir tradições, opiniões ou interpretações humanas, mas em permitir que elas ocupem o lugar que pertence às Escrituras. Quando aquilo que os homens dizem passa a ter mais autoridade do que aquilo que Deus revelou, a fé corre o risco de se afastar de sua verdadeira fonte.

É preocupante ouvir ministros da Palavra afirmarem que estudar a Bíblia não é tão importante, porque o Espírito Santo capacitaria aqueles que não estudam. É verdade que o Espírito Santo capacita, ensina e conduz o servo de Deus. Porém, isso jamais significa que o estudo das Escrituras seja desnecessário. Paulo orientou Timóteo: “Procura apresentar-te a Deus aprovado”, e acrescentou que ele deveria manejar corretamente “a palavra da verdade” (2Tm 2:15). O mesmo apóstolo também afirmou que “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino” (2Tm 3:16).

O Espírito Santo não foi dado para nos tornar indiferentes à Palavra, mas para nos conduzir à verdade. A capacitação espiritual não é uma desculpa para a falta de preparo. Pelo contrário, quanto maior for a responsabilidade de ensinar, maior deve ser o compromisso com o conhecimento e a fidelidade às Escrituras.

Também merece atenção a linguagem usada por quem ocupa o púlpito. É diferente dizer “segundo estudiosos, isso aconteceu dessa maneira” e afirmar aquilo que a Bíblia realmente ensina. Estudos históricos, arqueológicos e acadêmicos podem contribuir para a compreensão do contexto bíblico, mas não devem substituir a autoridade das Escrituras. O pregador cristão precisa saber distinguir entre uma informação histórica, uma interpretação pessoal e aquilo que está claramente revelado na Palavra.

O púlpito não deve ser lugar para exibir opiniões pessoais como se fossem revelação divina. Quando a Bíblia diz, devemos dizer: “A Palavra de Deus afirma”. Quando o texto não afirma algo claramente, é mais honesto reconhecer: “Essa é uma interpretação” ou “há diferentes entendimentos sobre essa questão”. Humildade também faz parte da fidelidade bíblica.

Jesus advertiu: “Deixai-os; são cegos, guias de cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, cairão ambos no barranco” (Mt 15:14). A advertência é séria porque quem ensina não influencia apenas a si mesmo. Suas palavras podem orientar pessoas, formar convicções e até determinar a maneira como elas compreendem a fé.

Por isso, precisamos voltar ao princípio: nem tradição humana, nem opinião pessoal, nem a palavra de estudiosos deve ocupar o lugar da Palavra de Deus. O Espírito Santo capacita, mas também nos conduz às Escrituras. O verdadeiro ministro não precisa escolher entre depender do Espírito e estudar a Bíblia; ele deve fazer as duas coisas.

Onde a Palavra de Deus é colocada no centro, o Espírito Santo não é diminuído; é honrado. E onde a opinião humana toma o lugar das Escrituras, mesmo que haja muita eloquência, existe o risco de se ensinar sobre Deus sem, de fato, permanecer fiel ao que Deus disse.

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