Os pequeninos que Jesus não despreza


Vladimir Chaves

“O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” Mateus 25:40

Há uma expressão que aparece com grande força nos ensinamentos de Jesus: “os pequeninos”. À primeira vista, podemos pensar apenas nas crianças. E, de fato, em algumas passagens Jesus está falando literalmente delas. Porém, quando observamos seus ensinamentos com atenção, percebemos que o Senhor também chama de “pequeninos” aqueles que, aos olhos da sociedade, parecem ter pouco valor: os necessitados, os frágeis, os perseguidos, os que sofrem e até aqueles que são esquecidos pelos homens.

Jesus demonstra que, para Deus, ninguém é pequeno demais para ser visto, amado e cuidado.

Jesus e as crianças: os pequeninos que devem chegar até Ele

Em Mateus 19:13-15, algumas pessoas levaram crianças a Jesus para que Ele lhes impusesse as mãos e orasse por elas. Os discípulos, porém, tentaram impedir.

A resposta de Jesus foi firme:

“Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é o reino dos céus.” Mateus 19:14

Marcos registra: “Deixai vir a mim as crianças, não as impeçais, porque dos tais é o reino de Deus.” Marcos 10:14

E Lucas também registra: “Deixai vir a mim os meninos e não os impeçais, porque dos tais é o reino de Deus.” Lucas 18:16

A atitude de Jesus revela algo precioso: aqueles que muitos consideravam pequenos demais para receber atenção eram importantes para Ele.

As crianças não tinham posição social, autoridade ou influência. Não poderiam oferecer nada em troca. Mesmo assim, Jesus as recebeu.

Ele não disse: “Quando crescerem, venham a mim”.

Ele disse: “Deixai vir a mim os pequeninos.”

Isso nos ensina que o valor de uma pessoa diante de Deus não depende de sua idade, posição, tempo de igreja, riqueza, conhecimento ou reconhecimento.

Os pequeninos também podem ser os que precisam de cuidado

Em Mateus 25:31-46, Jesus apresenta a cena do julgamento das nações e fala sobre aqueles que estavam passando por necessidades.

Os que tinham fome e sede, os estrangeiros que precisavam ser acolhidos, as pessoas sem roupas, os enfermos e os presos.

Então o Rei diz aos justos: “Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes visitar-me.” Mateus 25:3

Os justos ficam surpresos. Eles perguntam quando fizeram essas coisas.

E o Rei responde: “Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” Mateus 25:40

Aqui encontramos uma verdade profunda: Jesus se identifica com aqueles que pertencem a Ele e estão passando por necessidades.

O necessitado pode ser ignorado pelos homens, mas não é ignorado por Deus.

E aquilo que fazemos por esse “pequenino” é considerado por Cristo como algo feito a Ele.

Mateus 19 e Mateus 25: dois sentidos que se complementam

Em Mateus 19, Jesus está falando literalmente de crianças. Elas são apresentadas como exemplos daqueles que recebem o Reino com humildade e dependência.

Em Mateus 25, o contexto é diferente. Os “pequeninos irmãos” estão relacionados aos seguidores de Cristo que enfrentam situações de necessidade, como fome, sede, falta de roupas, doença, prisão, perseguição e outras aflições.

Portanto, não devemos simplesmente dizer que “pequeninos” significa exatamente a mesma coisa nas duas passagens.

O contexto mostra uma diferença.

Mas existe também uma preciosa ligação entre elas: Jesus valoriza aqueles que os homens tendem a considerar pequenos.

Em Mateus 19, são crianças.

Em Mateus 25, são irmãos necessitados.

Em ambos os casos, Jesus corrige uma tendência humana: desprezar aquilo que parece pequeno.

Deus olha para aquilo que os homens não valorizam

A nossa sociedade que costuma valorizar o grande.

Grandes templos, grandes multidões, grandes pregadores, grandes ministérios, grandes projetos, grandes resultados.

Mas Jesus chama nossa atenção para coisas que aos nossos parecem pequenas.

Um copo de água, uma refeição, uma roupa, uma visita, uma palavra de acolhimento, uma ajuda oferecida no momento certo, um cuidado que ninguém viu.

Isso nos ensina que, no Reino de Deus, a importância de uma obra não é determinada pelo tamanho que ela possui aos olhos dos homens.

Uma pequena atitude de amor pode ter grande significado diante de Deus.

O perigo de não perceber os pequeninos

Existe também uma advertência séria nesse ensino.

Os condenados não são apresentados dizendo que fizeram grandes males contra Jesus. Eles deixaram de fazer o bem quando tiveram oportunidade.

Viram pessoas com fome, mas não deram alimento, pessoas com sede, mas não deram água, necessitados de acolhimento, mas não acolheram, enfermos, mas não visitaram e presos que não foram visitar.

Isso chama nossa atenção para o pecado da omissão.

Às vezes pensamos que pecado é somente aquilo que fazemos de errado.

Jesus também mostra a gravidade daquilo que deixamos de fazer quando poderíamos fazer o bem.

O verdadeiro valor dos pequeninos

Talvez alguém possa olhar para uma criança e pensar: “Ela ainda não pode fazer muita coisa.”

Alguém pode olhar para um irmão necessitado e pensar: “Ele não tem importância.”

Mas Jesus olha de maneira diferente.

Quando fala das crianças, Ele diz: “Dos tais é o reino dos céus.”

Quando fala dos necessitados, Ele diz: “A mim o fizestes.”

Isso muda completamente nossa maneira de enxergar as pessoas.

O mundo pergunta: “O que essa pessoa pode fazer por mim?”

O discípulo de Cristo precisa aprender a perguntar: “O que posso fazer por essa pessoa?”

O mundo procura os importantes.

Jesus manda olhar para os pequeninos.

O Reino não é conquistado pelas boas obras

É necessário compreender também um equilíbrio fundamental.

Jesus não está ensinando que alguém compra a salvação através de boas obras.

A Bíblia afirma claramente: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.” Efésios 2:8-9

Entretanto, o versículo seguinte completa o pensamento: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.” Efésios 2:10

As boas obras não são a causa da nossa salvação; são fruto de uma vida alcançada pela graça.

Quem foi alcançado por Cristo passa a olhar para as pessoas de maneira diferente.

Percebe quem está sofrendo, enxerga quem precisa de ajuda, valoriza quem é ignorado, entende que servir ao próximo também é uma forma de demonstrar amor a Cristo.

O dia em que tudo será revelado

Mateus 25 também apresenta uma advertência sobre o juízo.

Enquanto vivemos neste mundo, muitas coisas permanecem misturadas.

Jesus ensinou sobre o trigo e o joio, sobre a separação dos justos e dos maus, sobre as virgens prudentes e as insensatas, sobre o servo fiel e o servo infiel.

Por algum tempo, as pessoas convivem lado a lado, mas chegará o momento da separação.

O julgamento de Deus revelará aquilo que realmente estava no coração.

É significativo que Jesus mencione atitudes tão simples.

Isso mostra que Deus não observa apenas aquilo que fazemos diante das multidões. Ele também observa aquilo que fazemos quando ninguém está olhando.

Uma visita, um copo de água, uma refeição, uma roupa,um acolhimento, um gesto de misericórdia.

Coisas que talvez sejam esquecidas por nós podem ser lembradas diante de Deus.

O pequenino que ninguém vê, Deus vê

Há pessoas que nunca aparecerão em uma lista de convidados, nunca terão seu nome em uma placa, nunca serão famosas, nunca ocuparão o primeiro banco, nunca subirão num púlpito, nunca serão reconhecidas dentro da própria congregação.

Mas isso não significa que sejam invisíveis para Deus.

A Bíblia declara que Deus tem especial cuidado com os necessitados e exige que seu povo também tenha esse cuidado.

“Todos os meus ossos dirão: Senhor, quem contigo se assemelha? Pois livras o aflito daquele que é demais forte para ele?” Salmo 35:10

E Paulo orienta: “Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé” Gálatas 6:10

O céu conhece aqueles que a terra não conhece.

Há pequeninos que precisam chegar a Jesus

Existe ainda uma responsabilidade especial da Igreja.

Jesus disse: “Deixai vir a mim os pequeninos.”

Portanto, não devemos criar obstáculos para que as pessoas se aproximem de Cristo.

Isso inclui as crianças, mas também alcança o princípio mais amplo de acolher os humildes, os necessitados, os frágeis e os que procuram o Senhor.

A Igreja não pode ser um lugar onde somente os fortes encontram espaço.

Ela deve ser um lugar onde o cansado encontra descanso, o ferido encontra cuidado, o necessitado encontra auxílio e o pecador encontra a mensagem da graça.

Jesus não afastava os pequenos, Jesus os chamava para perto.

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