Quando a religiosidade ocupa o lugar da Palavra


Vladimir Chaves

“O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito. Então, lhe perguntou Nicodemos: Como pode suceder isto? Acudiu Jesus: Tu és mestre em Israel e não compreendes estas coisas?” João 3:8-10

Há uma pergunta feita por Jesus a Nicodemos que continua extremamente atual: “Tu és mestre de Israel e não sabes isso?”

Nicodemos era religioso, conhecedor das Escrituras e ocupava uma posição de destaque entre os judeus. Entretanto, diante de uma verdade espiritual ensinada por Jesus, revelou que seu conhecimento religioso não era suficiente para compreender as coisas do Espírito.

Esse episódio nos apresenta uma advertência importante: é possível estar dentro da religião e, ao mesmo tempo, permanecer distante da compreensão da Palavra de Deus.

O perigo de uma religião sem conhecimento da Palavra

A religiosidade, quando deixa de ser expressão de uma fé viva e passa a ser apenas um conjunto de costumes, regras e tradições, pode produzir uma aparência de espiritualidade sem transformação interior.

Jesus não estava condenando a busca por Deus. Ele estava confrontando uma religiosidade que havia se tornado incapaz de reconhecer a própria obra de Deus quando ela estava diante dos seus olhos.

O problema não é existir uma vida de culto, disciplina, doutrina ou tradição. O problema surge quando essas coisas ocupam o lugar da Palavra e do relacionamento verdadeiro com Deus.

Uma pessoa pode conhecer os horários dos cultos, os hinos, os costumes da igreja, as regras denominacionais e até defender determinada tradição com grande fervor, mas ainda assim conhecer pouco das Escrituras.

E quando a religiosidade cresce enquanto o conhecimento bíblico diminui, a igreja corre um sério risco: passar a defender aquilo que aprendeu dos homens sem examinar aquilo que Deus realmente revelou em sua Palavra.

Quando os religiosos desconhecem a Palavra

A afirmação de Jesus a Nicodemos é muito forte:

“Tu és mestre de Israel e não compreendes estas coisas?”

Nicodemos ensinava, mas não compreendia.

Isso nos mostra que posição religiosa não é sinônimo de conhecimento espiritual.

É possível ocupar um púlpito e conhecer pouco da Bíblia.

É possível ensinar costumes e desconhecer princípios bíblicos.

É possível falar muito sobre Deus e conhecer pouco a Palavra de Deus.

Por isso, Paulo orienta:

“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.” 2 Timóteo 2:15

A igreja não precisa apenas de pessoas religiosas. Precisa de homens e mulheres que conheçam a Palavra, vivam a Palavra e ensinem a Palavra.

A religiosidade pode esvaziar a igreja

Em muitos lugares, o esvaziamento das igrejas não acontece simplesmente porque as pessoas deixaram de acreditar em Deus. Em muitos casos, pessoas se afastam porque encontraram dentro da própria igreja aquilo que esperavam encontrar no mundo: julgamento sem misericórdia, aparência sem transformação, regras sem compreensão, discursos sem vida e religião sem relacionamento com Deus.

Quando alguém procura a igreja em busca de Cristo e encontra apenas religiosidade, pode acabar decepcionado.

Quando a tradição se torna mais importante que a Bíblia, a pessoa pode ser ensinada a obedecer a costumes que não consegue encontrar claramente nas Escrituras.

Quando líderes exigem dos outros aquilo que eles próprios não aprenderam na Palavra, a fé pode se transformar em um peso.

E quando o pecador é tratado apenas como alguém que precisa ser condenado, e não como alguém que precisa ouvir o chamado de Cristo ao arrependimento e à transformação, a igreja perde uma de suas principais responsabilidades: anunciar o Evangelho.

O problema não está na igreja, mas naquilo que colocamos no lugar de Cristo

Não podemos afirmar que toda tradição seja errada ou que toda igreja cheia esteja espiritualmente saudável e toda igreja vazia esteja espiritualmente morta.

O verdadeiro problema é outro: o que está sendo colocado no centro?

Se Cristo está no centro, a Palavra é respeitada.

Se a Palavra é respeitada, ela confronta tanto o pecador quanto o religioso.

Se a Palavra é ensinada corretamente, ninguém fica autorizado a transformar sua preferência pessoal em mandamento de Deus.

Jesus confrontou justamente esse tipo de comportamento quando disse: “E, assim, invalidastes a Palavra de Deus, por causa da vossa tradição.” Mateus 15:6

A tradição pode ter seu lugar, mas não pode ocupar o lugar da Escritura.

O vento sopra onde quer

Em João 3:8, Jesus utiliza a figura do vento para explicar a ação do Espírito.

O vento não pode ser controlado pelo homem. Pode-se ouvir sua voz e perceber seus efeitos, mas não se pode determinar soberanamente para onde ele deve soprar.

Da mesma maneira, a obra do Espírito Santo não pode ser reduzida aos limites da religiosidade humana.

Deus não está preso aos nossos costumes, às nossas estruturas ou às nossas preferências.

O Espírito transforma vidas, Ele convence do pecado, Ele conduz à verdade, Ele produz novo nascimento, Ele gera fruto, Ele leva o homem a Cristo.

Por isso, uma igreja espiritualmente viva não é simplesmente aquela que mantém suas tradições, mas aquela que permanece debaixo da autoridade da Palavra e sensível à ação do Espírito Santo.

Precisamos voltar à Bíblia

Talvez uma das maiores necessidades da igreja contemporânea não seja inventar novas formas de atrair pessoas, mas voltar a ensinar profundamente aquilo que a Bíblia já ensinou.

Jesus disse: “Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8:31-32

A solução para uma igreja esvaziada não está simplesmente em tornar o culto mais atraente, aumentar a programação ou criar novos métodos.

Antes de tudo, precisamos perguntar:

Estamos ensinando a Palavra?

Estamos formando discípulos?

Estamos conduzindo as pessoas a Cristo ou apenas à nossa tradição?

Estamos ensinando aquilo que a Bíblia diz ou aquilo que sempre aprendemos?

Estamos permitindo que o Espírito Santo transforme vidas ou apenas tentando preservar uma aparência religiosa?

Enfim:

Nicodemos era mestre, mas ainda precisava aprender. Essa é uma lição que todos nós precisamos guardar.

Ninguém está acima da necessidade de conhecer a Palavra.

A religiosidade pode ensinar o homem a parecer espiritual; a Palavra de Deus o chama à transformação.

A religiosidade pode produzir aparência; o Espírito produz novo nascimento.

A religiosidade pode criar distância entre pessoas; Cristo chama para a reconciliação.

A religiosidade pode defender costumes; a Palavra revela a verdade.

E talvez a pergunta de Jesus a Nicodemos precise ecoar dentro da igreja: “Tu és mestre...e não sabes isso?”

Que Deus nos livre de sermos religiosos conhecedores de costumes, mas ignorantes das Escrituras.

Que nossas igrejas não sejam apenas lugares onde pessoas aprendem como ser religiosas, mas lugares onde pecadores encontram Cristo, discípulos aprendem a Palavra e vidas são transformadas pelo Espírito Santo.

Porque uma igreja pode sobreviver com poucos recursos, mas dificilmente permanecerá espiritualmente viva quando a religiosidade ocupa o lugar da Palavra e o conhecimento bíblico é substituído por tradições humanas.

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