O mercado dos objetos “poderosos” e a fé bíblica


Vladimir Chaves

A fé cristã não está em objetos, mas em Deus. Essa distinção parece simples, porém se torna necessária quando elementos materiais passam a receber uma importância que a Escritura nunca lhes atribuiu.

Em Éfeso, Deus realizou milagres extraordinários por meio de Paulo. Lucas registra: “E Deus, pelas mãos de Paulo, fazia maravilhas extraordinárias” (Atos 19:11). Na sequência, relata que lenços e aventais que haviam sido usados por Paulo eram levados aos enfermos, e estes eram curados (Atos 19:12). O texto, entretanto, não apresenta aqueles objetos como fontes de poder. Pelo contrário, deixa claro quem realizava as maravilhas: Deus.

Essa diferença é fundamental. Os lenços foram instrumentos dentro de uma ação extraordinária de Deus; não se transformaram em amuletos religiosos. O poder não estava no tecido, na roupa ou no contato físico com Paulo. Estava em Deus.

O problema começa quando o instrumento passa a ocupar o lugar daquele que o utiliza. Aquilo que poderia ser apenas um símbolo ou elemento circunstancial passa a ser apresentado como portador de poder espiritual próprio. Então óleo, água, sal, rosas, lenços, fitas, copos, toalhas, mantos, sabonetes, pedras, chaves, papéis, fotografias e tantos outros objetos podem deixar de apontar para Deus e começar a receber uma confiança que pertence exclusivamente a Ele.

A Bíblia é clara ao estabelecer esse limite. O segundo mandamento proíbe transformar coisas criadas em objetos de culto e confiança espiritual (Êxodo 20:3-5). Deus declara por meio de Isaías: “A minha glória, pois, a outrem não darei” (Isaías 42:8). O Salmo 115 também confronta a inutilidade dos ídolos feitos pelas mãos humanas: possuem forma, mas não possuem poder.

Isso não significa que todo objeto utilizado em uma prática cristã seja, por si mesmo, errado. A questão está no significado que lhe é atribuído. O óleo pode ser utilizado como símbolo de consagração e oração; a água pode ser utilizada em diferentes contextos bíblicos; um lenço pode simplesmente ser um lenço. O perigo surge quando alguém começa a acreditar que determinado objeto carrega uma força espiritual, produz milagres, afasta problemas, garante proteção ou libera bênçãos por possuir determinada procedência ou ter recebido determinada oração.

Nesse ponto, a fé deixa de descansar em Deus e começa a depender de coisas.

A diferença entre fé e superstição pode estar justamente aí. A fé confia em Deus; a superstição tenta controlar o espiritual por meio de objetos, fórmulas e procedimentos. A fé se submete à vontade de Deus; a superstição procura transformar determinadas coisas em instrumentos de garantia.

Por isso, é necessário discernimento. Nem tudo que recebe uma linguagem religiosa possui fundamento bíblico. Um objeto pode ser apresentado como “ungido”, “consagrado”, “profético” ou “poderoso”, mas nenhum desses títulos transforma matéria em fonte de poder espiritual.

Paulo não era a fonte do milagre em Éfeso. Seus lenços também não eram. Deus era a fonte. O próprio apóstolo ensinou que a fé não deveria estar fundamentada na sabedoria ou capacidade humana, “e sim no poder de Deus” (1 Coríntios 2:5).

Essa verdade protege a igreja de uma perigosa inversão: quando o símbolo se torna mais importante que aquilo que ele deveria representar; quando o instrumento recebe a confiança que deveria estar somente em Deus; quando a pessoa passa a acreditar mais naquilo que segura nas mãos do que naquele em quem deveria depositar a sua fé.

Instrumento não é fonte. Símbolo não é poder. Matéria não substitui o Criador.

Deus pode usar pessoas, situações e até elementos materiais de maneiras extraordinárias. Mas nada disso transforma a criatura em fonte do poder que pertence ao Criador. A fé cristã não precisa de objetos dotados de supostos poderes especiais para existir. Ela precisa conhecer, confiar e permanecer em Deus.

Quando a fé se apoia em Deus, o objeto volta ao seu devido lugar: é apenas objeto. Deus continua sendo Deus.

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