A fé cristã não está em
objetos, mas em Deus. Essa distinção parece simples, porém se torna necessária
quando elementos materiais passam a receber uma importância que a Escritura
nunca lhes atribuiu.
Em Éfeso, Deus realizou
milagres extraordinários por meio de Paulo. Lucas registra: “E Deus, pelas
mãos de Paulo, fazia maravilhas extraordinárias” (Atos 19:11). Na
sequência, relata que lenços e aventais que haviam sido usados por Paulo eram
levados aos enfermos, e estes eram curados (Atos 19:12). O texto,
entretanto, não apresenta aqueles objetos como fontes de poder. Pelo contrário,
deixa claro quem realizava as maravilhas: Deus.
Essa diferença é
fundamental. Os lenços foram instrumentos dentro de uma ação extraordinária de
Deus; não se transformaram em amuletos religiosos. O poder não estava no
tecido, na roupa ou no contato físico com Paulo. Estava em Deus.
O problema começa quando o
instrumento passa a ocupar o lugar daquele que o utiliza. Aquilo que poderia
ser apenas um símbolo ou elemento circunstancial passa a ser apresentado como
portador de poder espiritual próprio. Então óleo, água, sal, rosas, lenços,
fitas, copos, toalhas, mantos, sabonetes, pedras, chaves, papéis, fotografias e
tantos outros objetos podem deixar de apontar para Deus e começar a receber uma
confiança que pertence exclusivamente a Ele.
A Bíblia é clara ao
estabelecer esse limite. O segundo mandamento proíbe transformar coisas criadas
em objetos de culto e confiança espiritual (Êxodo 20:3-5). Deus declara
por meio de Isaías: “A minha glória, pois, a outrem não darei” (Isaías 42:8).
O Salmo 115 também confronta a inutilidade dos ídolos feitos pelas mãos
humanas: possuem forma, mas não possuem poder.
Isso não significa que todo
objeto utilizado em uma prática cristã seja, por si mesmo, errado. A questão
está no significado que lhe é atribuído. O óleo pode ser utilizado como símbolo
de consagração e oração; a água pode ser utilizada em diferentes contextos
bíblicos; um lenço pode simplesmente ser um lenço. O perigo surge quando alguém
começa a acreditar que determinado objeto carrega uma força espiritual, produz
milagres, afasta problemas, garante proteção ou libera bênçãos por possuir
determinada procedência ou ter recebido determinada oração.
Nesse ponto, a fé deixa de
descansar em Deus e começa a depender de coisas.
A diferença entre fé e
superstição pode estar justamente aí. A fé confia em Deus; a superstição tenta
controlar o espiritual por meio de objetos, fórmulas e procedimentos. A fé se
submete à vontade de Deus; a superstição procura transformar determinadas coisas
em instrumentos de garantia.
Por isso, é necessário
discernimento. Nem tudo que recebe uma linguagem religiosa possui fundamento
bíblico. Um objeto pode ser apresentado como “ungido”, “consagrado”,
“profético” ou “poderoso”, mas nenhum desses títulos transforma matéria em
fonte de poder espiritual.
Paulo não era a fonte do
milagre em Éfeso. Seus lenços também não eram. Deus era a fonte. O próprio
apóstolo ensinou que a fé não deveria estar fundamentada na sabedoria ou
capacidade humana, “e sim no poder de Deus” (1 Coríntios 2:5).
Essa verdade protege a
igreja de uma perigosa inversão: quando o símbolo se torna mais importante que
aquilo que ele deveria representar; quando o instrumento recebe a confiança que
deveria estar somente em Deus; quando a pessoa passa a acreditar mais naquilo
que segura nas mãos do que naquele em quem deveria depositar a sua fé.
Instrumento não é fonte.
Símbolo não é poder. Matéria não substitui o Criador.
Deus pode usar pessoas,
situações e até elementos materiais de maneiras extraordinárias. Mas nada disso
transforma a criatura em fonte do poder que pertence ao Criador. A fé cristã
não precisa de objetos dotados de supostos poderes especiais para existir. Ela
precisa conhecer, confiar e permanecer em Deus.
Quando a fé se apoia em
Deus, o objeto volta ao seu devido lugar: é apenas objeto. Deus continua sendo
Deus.



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