Somos de Cristo, não de homens


Vladimir Chaves

Paulo encontrou em Corinto uma igreja que possuía dons, conhecimento e vida comunitária, mas ainda apresentava um problema sério: seus membros estavam divididos em torno de líderes. Uns diziam ser de Paulo, outros de Apolo. A igreja estava olhando para os homens como se eles fossem o centro da fé. (1 Coríntios 3: 1-9)

Por isso Paulo os chama de “carnais”. Não porque lhes faltasse religião, mas porque sua maneira de pensar e agir ainda era marcada pela disputa, pela preferência pessoal e pela imaturidade espiritual.

Esse problema continua atual. É possível frequentar uma igreja, conhecer a Bíblia, participar de ministérios e, ainda assim, colocar homens em um lugar que pertence somente a Cristo. Quando nossa fé começa a depender mais de quem prega do que daquele que é pregado, alguma coisa está fora do lugar.

Paulo corrige essa visão dizendo: “Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus.” (1 Coríntios 3:6)

Uma frase simples e profunda. Cada servo tem sua função, mas nenhum servo ocupa o lugar de Deus.

Paulo plantou. Apolo regou. Outros poderiam continuar trabalhando. Mas o crescimento não estava nas mãos deles. A obra pertencia a Deus.

Isso nos ensina a valorizar aqueles que trabalham no Reino sem transformá-los em donos da obra. Pastor, pregador, professor, evangelista e líder são instrumentos. Podem ensinar, orientar, cuidar e servir, mas somente Deus transforma vidas.

A igreja não deve ser construída em torno de personalidades. Quando um líder se torna mais importante que a mensagem de Cristo, surgem partidos, comparações e disputas. A comunhão dá lugar à competição.

Paulo vai ainda mais longe: “Porque de Deus somos cooperadores; lavoura de Deus, edifício de Deus sois vós.” (1 Coríntios 3:9)

A igreja pertence a Deus. Os trabalhadores pertencem a Deus. E o resultado do trabalho também pertence a Deus.

Isso muda nossa maneira de servir. Não precisamos disputar reconhecimento, defender nosso nome ou provar que somos melhores que outros. Nossa responsabilidade é cumprir fielmente aquilo que Deus colocou em nossas mãos.

Também precisamos aprender a reconhecer o trabalho de outros. Paulo não tratou Apolo como concorrente. Um plantou, outro regou. Havia funções diferentes, mas o mesmo propósito.

Uma igreja madura entende isso.

Nem todos terão a mesma função, o mesmo estilo ou a mesma maneira de trabalhar. Mas, se Cristo é o centro, as diferenças não precisam produzir divisão.

No fim, a pergunta não deveria ser: “Quem é o melhor?”

A pergunta é: “Estamos servindo ao propósito de Deus?”

Porque, no Reino de Deus, ninguém cresce sozinho, ninguém trabalha para si mesmo e ninguém deve receber aquilo que pertence a Cristo.

Somos apenas trabalhadores.

A lavoura é de Deus. O crescimento vem de Deus. E a glória também é de Deus.

Vamos refletir:

Não podemos olhar para esse texto apenas como uma correção feita aos cristãos de Corinto. A advertência é para todos nós.

A quem pertence nossa lealdade, nossa fidelidade, nossa reverência: a Cristo ou a homens?

Se ficamos ofendidos quando alguém questiona nosso líder, mas não nos incomodamos quando a Palavra de Deus é ignorada, precisamos rever nossas prioridades.

Se defendemos um pregador, uma igreja ou um ministério com mais zelo do que defendemos a verdade das Escrituras, estamos fazendo exatamente o que Paulo condenou em Corinto.

Também precisamos examinar nossas disputas. Há pessoas que não conseguem ver o crescimento de outro irmão sem sentir incômodo. Não suportam que outro pregador seja elogiado, que outro ministério prospere ou que outra pessoa receba reconhecimento. Isso não é zelo pela obra; isso é orgulho disfarçado de zelo.

Quem trabalha para Cristo não precisa competir com quem também trabalha para Cristo.

Paulo não disputou espaço com Apolo. Não tentou diminuir seu trabalho para destacar o próprio nome. Ele reconheceu: “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento.”

Essa palavra confronta nossa necessidade de aparecer.

Se Deus usa outra pessoa, agradeça.

Se outra pessoa é reconhecida, não inveje.

Se seu trabalho não recebe aplausos, continue fiel.

Se alguém diferente de você está sendo usado por Deus, não transforme diferença em rivalidade.

E deixo uma pergunta ainda mais séria:

Se Deus tirasse hoje nosso nome, nossa posição e nosso reconhecimento, continuaríamos servindo com a mesma disposição?

Essa resposta revela muito sobre o nosso coração.

A igreja não precisa de homens disputando quem será visto. Precisa de servos conscientes de que a lavoura é de Deus.

Portanto, examine seu coração. Abandone a competição, a idolatria de líderes, a necessidade de reconhecimento e as divisões criadas por preferências pessoais.

Plante. Regue. Sirva. Mas não tente ocupar o lugar de Deus.

Porque, no final, não seremos avaliados pelo tamanho do nosso nome, trabalho ou posição dentro da igreja, mas pela fidelidade com que cumprimos aquilo que Deus colocou em nossas mãos.

Não precisa esperar melhores condições.

Não precisa esperar uma posição maior.

Não precisa esperar que a vida fique diferente.

Se Deus o chamou, você deve ser fiel onde está.

Essa é a ideia central: a fidelidade não começa depois da mudança; ela começa agora.

Se um dia sua situação mudar, seja fiel nela. Se permanecer como está, seja fiel também. A mudança de circunstância pode acontecer, mas ela nunca deve ser a condição para sua obediência a Deus.

Paulo não está dizendo que você nunca deve mudar. Está dizendo que você não deve adiar sua fidelidade esperando mudar de lugar.

O trabalho que você tem hoje pode ser um lugar de testemunho.

A família que você tem hoje pode ser um lugar de serviço e testemunho.

As responsabilidades que estão em suas mãos hoje podem ser exercidas para a glória de Deus.

Não espere outra condição para viver o chamado que Deus colocou diante de você.

A circunstância pode mudar, a posição pode mudar.

Mas a fidelidade a Deus deve ser nossa prioridade.

Seja fiel onde Deus o chamou.

A graça do Senhor Jesus seja com todos.

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