Quando a igreja troca discípulos por cabos eleitorais


Vladimir Chaves

“Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações...” Mateus 28.19

Existe uma crise que merece ser discutida com seriedade: em alguns ambientes cristãos, a missão de formar discípulos de Jesus tem sido substituída pela formação de militantes políticos. O púlpito, que deveria conduzir pessoas à Palavra, ao arrependimento, à santidade e ao serviço, passa, em determinados contextos, a funcionar como espaço de mobilização eleitoral.

O problema não está em o cristão possuir consciência política, participar da sociedade ou exercer seu direito de voto. O cristão não deixa de ser cidadão quando entra na igreja. O problema começa quando a identidade cristã passa a ser confundida com identidade partidária e quando políticos são apresentados quase como representantes da fé, mesmo quando suas atitudes, decisões e práticas contradizem princípios claramente ensinados pelas Escrituras.

A igreja recebeu uma missão muito maior do que eleger candidatos.

O chamado de Jesus não foi para formar cabos eleitorais

Antes de subir aos céus, Jesus não disse aos discípulos: “Ide e conquistai posições políticas”. Também não os enviou para construir estruturas de poder. Sua ordem foi clara: “fazei discípulos”.

Discípulo é alguém que aprende com Cristo, segue seus passos, submete sua vida à sua Palavra e procura reproduzir seu caráter. É muito diferente de alguém que simplesmente veste uma camisa política, repete slogans e defende determinado candidato.

Uma igreja pode produzir eleitores apaixonados e, ainda assim, fracassar na produção de discípulos maduros.

Pode ensinar alguém a votar, mas não ensiná-lo a perdoar. Pode ensiná-lo a defender determinado político, mas não a defender a verdade. Pode despertar indignação contra os adversários, mas não levá-lo ao arrependimento diante do próprio pecado.

Nesse caso, algo essencial foi perdido.

Paulo escreveu: “Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Romanos 8.14). A referência fundamental para a vida cristã não é um partido, um líder político ou uma ideologia, mas o Espírito de Deus e a Palavra de Cristo.

Quando o político ocupa o lugar que pertence a Cristo

Existe um perigo particularmente grave quando líderes políticos passam a receber dentro da igreja um tratamento que se aproxima de veneração.

Fotos, homenagens, aplausos, discursos, campanhas e elogios podem criar uma atmosfera na qual o político deixa de ser visto simplesmente como cidadão ou autoridade pública e passa a ocupar um lugar simbólico dentro da comunidade cristã.

É nesse ponto que o discernimento precisa entrar em cena.

Nenhum político deve receber uma espécie de imunidade moral apenas porque declara simpatia pelo cristianismo. O fato de alguém frequentar uma igreja, citar a Bíblia ou aparecer ao lado de pastores não transforma automaticamente suas atitudes em atitudes cristãs.

Jesus ensinou que a árvore é conhecida pelos frutos (Mateus 7.16). Portanto, não basta observar o discurso. É preciso observar caráter, coerência, justiça, honestidade e compromisso com aquilo que se afirma defender.

O cristão não deveria perguntar apenas: “Esse político está do meu lado?”

Deveria perguntar também: “As atitudes dele são compatíveis com os princípios que a Bíblia me ensina?”

Essa pergunta é muito mais incômoda; e justamente por isso, muito mais necessária.

Judas continua sendo uma advertência

A referência a Judas precisa ser tratada com cuidado, mas sua história contém uma advertência poderosa.

Judas caminhou com Jesus, ouviu seus ensinamentos, testemunhou seus milagres e fazia parte do grupo dos discípulos. Entretanto, em determinado momento, transformou sua proximidade com Cristo em oportunidade de negociação.

O problema de Judas não foi simplesmente dinheiro. Houve uma ruptura profunda entre aquilo que ele aparentava representar e aquilo que seu coração estava disposto a fazer.

Por isso, a imagem de Judas continua sendo perturbadora para a igreja. Ela nos lembra que é possível estar perto de Jesus e, ainda assim, negociar aquilo que é santo.

Quando interesses pessoais, políticos, financeiros ou de poder passam a valer mais do que a fidelidade ao evangelho, a igreja precisa parar e examinar a si mesma.

Não se trata de afirmar que todo cristão envolvido em política seja um Judas. Isso seria injusto e superficial. Há cristãos sinceros exercendo a cidadania e participando da vida pública com integridade.

A advertência é outra: quando Cristo é utilizado como instrumento para promover projetos humanos, o evangelho deixa de ser tratado como mensagem e passa a ser tratado como moeda de troca.

E isso é extremamente perigoso.

A igreja não pode terceirizar seu discernimento

Outro problema surge quando cristãos passam a acreditar que precisam de determinados líderes políticos para preservar sua fé.

A igreja começa então a depender de estruturas de poder, enquanto sua confiança em Deus vai sendo progressivamente substituída pela confiança em homens.

Jeremias advertiu: “Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta seu coração do Senhor.” Jeremias 17.5

Isso não significa desprezar autoridades ou rejeitar a participação política. Significa não transformar nenhuma autoridade humana em salvador, protetor absoluto ou representante infalível dos interesses de Deus.

Nenhum candidato merece a lealdade que pertence a Cristo.

E nenhuma igreja deveria colocar sua identidade espiritual nas mãos de uma estrutura partidária.

O púlpito não pode se transformar em palanque

Quando a política entra na igreja, ela precisa encontrar limites.

O púlpito existe para proclamar a Palavra de Deus. Pode denunciar injustiça, corrupção, abuso de poder, violência, mentira e opressão. Pode ensinar princípios de cidadania, responsabilidade e justiça. Pode formar cristãos conscientes.

Mas existe uma diferença enorme entre ensinar princípios bíblicos para orientar o cidadão e usar a autoridade espiritual do púlpito para conduzir votos.

Quando o pastor deixa de formar consciências e passa a formar cabos eleitorais, alguma coisa está profundamente errada.

O pastor não foi chamado para ser cabo eleitoral de político. Foi chamado para cuidar de pessoas.

Paulo disse aos presbíteros de Éfeso: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus.” Atos 20.28

Pastorear exige ensinar, proteger, confrontar e conduzir pessoas a Cristo. Isso é muito mais difícil do que simplesmente reunir uma multidão em torno de uma causa política.

A igreja precisa recuperar sua missão

A igreja existe para anunciar Cristo, ensinar a Palavra, fazer discípulos, cuidar dos necessitados, proclamar arrependimento, promover reconciliação e preparar pessoas para viverem de maneira digna do evangelho.

A política pode fazer parte da cidadania do cristão, mas não pode ocupar o centro da sua fé.

O centro é Cristo.

Se uma igreja consegue mobilizar centenas de pessoas para uma campanha política, mas não consegue formar cristãos que perdoem, sirvam, sejam honestos, rejeitem a corrupção, amem o próximo e permaneçam firmes quando ninguém está olhando, então talvez esteja formando militantes, mas não discípulos.

E essa diferença é decisiva.

Jesus não morreu na cruz para criar uma militância partidária. Morreu para redimir pecadores. Por isso, a pergunta que a igreja precisa fazer não é apenas “quem devemos eleger?”, mas principalmente:

“Que tipo de discípulos estamos formando?”

Porque uma igreja pode ganhar eleições e perder sua missão.

Pode conquistar influência e perder sua identidade.

Pode aproximar-se do poder e afastar-se de Cristo.

E, quando isso acontece, talvez seja necessário lembrar novamente a advertência de Paulo:

“Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo.” Gálatas 1.10

A igreja não foi chamada para negociar Jesus em troca de poder. Foi chamada para anunciá-lo.

E o verdadeiro discípulo não é aquele que sabe defender seu político até o fim, mas aquele que permanece fiel a Cristo mesmo quando seguir Jesus exige contrariar os interesses do seu próprio grupo.

Esse é o teste do discipulado: quando Cristo e nossos interesses entram em conflito, quem permanece no trono?

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