Discernir espiritualmente é
aprender a enxergar além daquilo que os olhos conseguem ver. É perceber que nem
sempre a aparência corresponde à realidade, que nem todo discurso religioso
revela um coração transformado e que nem toda manifestação de fé demonstra
verdadeira comunhão com Deus.
Por isso, quem desenvolve
discernimento espiritual nem sempre será compreendido ou bem recebido, pois
terá pela frente pessoas que preferem ser admiradas a serem confrontadas, que
se sentem mais confortáveis com uma religião de aparência do que com uma fé que
exige transformação. Enquanto a aparência procura esconder, a luz de Deus
revela. E, quando aquilo que estava oculto começa a ser exposto, naturalmente
surge resistência.
Por isso, Jesus advertiu:
“Ai de vós, escribas e
fariseus, hipócritas! Porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por
fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de
toda imundícia.” Mateus 23:27
Um sepulcro podia ser bonito
por fora, mas continuava sendo um sepulcro. Da mesma forma, pode existir uma
aparência religiosa impecável acompanhada de um coração distante de Deus.
O discernimento: ver além da
aparência
A Bíblia não ensina o
cristão a ser ingênuo. João escreveu:
“Amados, não deis crédito a
qualquer espírito, antes, provai os espíritos se procedem de Deus.” 1 João 4:1
Nem toda palavra religiosa
procede de Deus, nem toda manifestação espiritual é genuína, e nem todo aquele
que usa o nome de Jesus representa o caráter de Jesus.
Há discursos que parecem
piedosos, mas escondem manipulação; sorrisos que ocultam interesses;
demonstrações de humildade que procuram controle. Por isso, discernimento
espiritual não é desconfiança de tudo, mas capacidade de distinguir o que
apenas parece verdadeiro daquilo que realmente é.
Quando a aparência se veste
de luz
Paulo advertiu: “E não é
de admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz.” 2 Coríntios
11:14
Nem tudo que parece luz vem
da luz. O engano raramente se apresenta como engano. Muitas vezes, chega
vestido de boas palavras, espiritualidade, autoridade e aparência de piedade.
Por isso, Jesus ensinou: “Por
seus frutos os conhecereis.” Mateus 7:16
Jesus não apontou para
discursos, aparência ou quantidade de seguidores, mas para os frutos. O fruto
revela aquilo que a aparência tenta esconder.
Quando a fé é usada para
manipular
Um dos maiores perigos
dentro da religião acontece quando alguém deixa de conduzir pessoas para Cristo
e passa a conduzi-las para si mesmo.
O verdadeiro servo aponta
para Jesus; o manipulador aponta para si. O verdadeiro pastor cuida das
pessoas; o abusador usa as pessoas. O verdadeiro líder serve; o abusador exige
submissão. O verdadeiro ensino produz maturidade; a manipulação produz dependência.
Pedro advertiu sobre aqueles
que utilizariam a fé para obter vantagens:
“Movidos por avareza, farão
comércio de vós, com palavras fictícias.” 2 Pedro 2:3
Quando o coração deixa de
buscar a glória de Deus e passa a buscar prestígio, dinheiro, influência ou
controle sobre as pessoas, a religião se transformar em instrumento de poder.
Por isso, não basta
perguntar: “Essa pessoa fala de Deus?” É preciso perguntar: “A vida dela
demonstra o caráter de Cristo?”
Religiosidade sem
transformação
Uma das maiores tragédias
espirituais é conhecer a linguagem da fé sem experimentar a transformação que
ela produz.
Muitos conhecem versículos,
mas não conhecem o Deus dos versículos; falam sobre santidade e vivem na
hipocrisia; pregam união e alimentam divisões; falam de perdão, mas cultivam
vingança; defendem a verdade, mas vivem uma mentira.
Jesus disse: “Este povo
honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.” Mateus 15:8
A distância entre os lábios
e o coração revela uma fé meramente exterior. Deus não procura apenas pessoas
que saibam falar sobre Ele, mas corações verdadeiros.
O discernimento nasce da
comunhão com Deus
Discernimento espiritual não
é espírito crítico, desconfiança ou desejo de encontrar defeitos nos outros.
Ele nasce de uma vida próxima de Deus e submetida à Palavra.
Hebreus afirma: “Mas o
mantimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas
faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal.” Hebreus
5:14
A expressão “faculdades exercitados”
mostra que o discernimento é desenvolvido. Quanto mais conhecemos a Palavra,
mais percebemos aquilo que a contradiz. Quanto mais conhecemos o caráter de
Cristo, mais reconhecemos aquilo que não vem dEle.
Por isso, Paulo escreveu: “E
não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa
mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de
Deus.” Romanos 12:2
Quem anda na luz não precisa
viver de aparência. Reconhece seus erros, pede perdão, aceita correção e
abandona aquilo que desagrada a Deus.
Isso não significa perfeição
absoluta, mas verdade, arrependimento e transformação.
Discernir não significa
condenar
É preciso equilíbrio.
Discernimento não nos autoriza a julgar o coração das pessoas, pois somente
Deus conhece plenamente suas intenções:
“O homem vê o exterior,
porém o Senhor, o coração.” 1 Samuel 16:7
Discernir significa observar
frutos, comparar ensinamentos com as Escrituras, reconhecer sinais de
manipulação e agir com prudência diante de comportamentos incompatíveis com o
evangelho.
Jesus também ensinou: “Tira
primeiro a trave do teu olho, e então, verás claramente o argueiro do olho do
teu irmão.” Mateus 7:5
O verdadeiro discernimento
começa dentro de nós. Antes de perguntar “o que há de errado com aquela
pessoa?”, devemos perguntar: “Senhor, existe alguma coisa errada em mim que
preciso enxergar?”
A verdade confronta antes de
libertar
O discernimento espiritual
muitas vezes incomoda porque tira as máscaras. Ele não permite que a aparência
substitua o caráter, o discurso substitua a prática ou a religiosidade
substitua a comunhão com Deus.
Jesus afirmou: “E
conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8:32
A verdade liberta, mas,
antes, muitas vezes confronta: confronta nosso orgulho, nossas ilusões, pessoas
que idealizamos e até práticas religiosas que aceitamos sem examinar.
Quem busca a verdade precisa
estar disposto a perder algumas ilusões.
Enfim
O discernimento espiritual é
uma bênção quando acompanhado de humildade, amor e submissão à Palavra de Deus.
Ele nos ensina que nem todo sorriso é sinceridade, nem todo discurso bonito é
verdade, nem toda manifestação religiosa é espiritualidade genuína e nem todo
aquele que usa o nome de Deus representa o caráter de Deus.
Mas também nos ensina a
olhar para nós mesmos antes de apontar para os outros.
A verdadeira luz não precisa
de maquiagem. A verdadeira fé não precisa de manipulação. A verdadeira
espiritualidade não precisa de palco.
Quem realmente caminha com
Deus aprende a distinguir aparência de realidade, eloquência de verdade,
religiosidade de santidade e manipulação de serviço.
Que nossa oração seja
semelhante à do salmista:
“Sonda-me, ó Deus, e conhece
o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum
caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno.” Salmo 139:23-24
Porque o maior sinal de
discernimento espiritual não é apenas conseguir enxergar o erro dos outros, mas
permitir que a luz de Deus também revele aquilo que precisa ser transformado em
nós


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