Quando o Evangelho deixa de ser Cristo e passa a ser o homem


Vladimir Chaves

Por Vladimir Chaves

Há uma pergunta que precisa ser feita com coragem, especialmente em uma época em que a palavra “evangelho” é usada para justificar quase todo tipo de mensagem religiosa:

O evangelho que estamos ouvindo e pregando é realmente o Evangelho de Jesus Cristo?

A pergunta não é exagerada.

Em muitos ambientes religiosos, a mensagem da cruz parece estar sendo substituída por uma mensagem centrada no sucesso pessoal, na prosperidade financeira, no poder, na influência, no status e na realização dos desejos humanos.

A cruz sendo trocada pelo conforto.

A renúncia sendo trocada pela conveniência.

O arrependimento sendo trocado pela autoestima.

O serviço sendo trocado pelo poder.

A humildade sendo trocada pelo status.

E, talvez mais grave ainda, Cristo correndo o risco de deixar de ser o centro para se tornar apenas um meio de alcançar aquilo que o homem deseja.

O Evangelho não foi criado para massagear o ego

O verdadeiro Evangelho não existe para dizer ao pecador tudo aquilo que ele gostaria de ouvir.

Ele existe para revelar a verdade, conduzir ao arrependimento e transformar vidas.

Jesus não disse: “Venha a mim e você terá todos os seus sonhos realizados.”

Ele disse: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me.” (Lucas 9:23)

Essa talvez seja uma das mensagens menos populares do nosso tempo.

Negar a si mesmo não combina com uma cultura que ensina que nossos desejos devem estar sempre em primeiro lugar.

Tomar a cruz não combina com um cristianismo que promete eliminar qualquer sofrimento.

Seguir Jesus não significa colocar Deus a serviço dos nossos projetos.

Significa colocar nossa vida à disposição de Deus.

O problema não é a prosperidade, mas transformar prosperidade em evangelho

É importante fazer uma distinção.

A Bíblia não ensina que possuir recursos materiais seja pecado. Há pessoas de Deus nas Escrituras que possuíam bens e recursos.

O problema começa quando a prosperidade material passa a ser apresentada como principal evidência da bênção de Deus, ou quando a fé é transformada em uma espécie de mecanismo para alcançar riqueza e sucesso.

Nesse modelo distorcido, Deus deixa de ser amado por quem Ele é e passa a ser procurado principalmente pelo que pode oferecer.

A pergunta deixa de ser: “Senhor, como posso servir?”

E passa a ser: “Senhor, o que podes me dar?”

Jesus advertiu: “Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que possui.” (Lucas 12:15)

Se a própria Bíblia nos alerta contra a avareza, não podemos transformar a busca por riqueza em centro da vida cristã.

A bênção nunca pode ocupar o lugar do Abençoador.

Quando a fé vira ferramenta para conquistar poder

Outro sinal preocupante é a aproximação entre fé e desejo de poder.

O Reino de Deus passa a ser tratado como uma estrutura de influência. O púlpito vira plataforma. O ministério vira carreira. O título vira símbolo de importância. A liderança deixa de ser serviço e passa a ser instrumento de domínio.

Mas Jesus ensinou exatamente o contrário.

Quando os discípulos discutiam sobre quem seria o maior, Jesus disse: “Se alguém quer ser o primeiro, será o último e servo de todos.” (Marcos 9:35)

Essa declaração deveria ser suficiente para nos fazer repensar a maneira como enxergamos liderança cristã.

No Reino de Deus, grandeza não significa estar acima dos outros. Significa estar disposto a servir.

Jesus tinha autoridade, mas não usou sua autoridade para explorar pessoas.

Ele tinha poder, mas não construiu um império pessoal.

Ele era Senhor, mas lavou os pés dos discípulos.

“Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros.” (João 13:14)

O exemplo de Cristo é devastador para qualquer modelo de liderança baseado em orgulho, superioridade e domínio.

O Evangelho do status e da aparência

Existe também uma espiritualidade preocupada demais com aparência.

Temos ambientes onde o tamanho do templo, a posição ocupada, o título recebido, a quantidade de seguidores e a visibilidade pública parecem ter adquirido uma importância que a Bíblia não lhes atribui.

Mas Deus não mede uma pessoa pelos mesmos critérios dos homens.

Jesus denunciou uma religiosidade que valorizava a aparência enquanto escondia problemas no coração.

“Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.” (Mateus 15:8)

É possível falar muito sobre Deus e estar distante de Deus.

É possível carregar uma Bíblia e não obedecer à Bíblia.

É possível ocupar uma posição religiosa e continuar dominado pelo orgulho.

É possível receber aplausos dos homens e não receber aprovação de Deus.

Por isso Jesus ensinou: “Pois todo o que se exaltar será humilhado, e o que se humilha será exaltado.” (Lucas 14:11)

Quando a bênção se torna mais importante que Deus

Talvez esse seja um dos maiores problemas de uma fé excessivamente centrada na prosperidade.

Quando a pessoa aprende a buscar mais as mãos de Deus do que a presença de Deus, sua fé começa a depender das circunstâncias.

Se Deus dá, ela agradece.

Se Deus não dá, ela se decepciona.

Se tudo vai bem, ela diz que Deus está presente.

Se surgem dificuldades, começa a questionar sua fé.

Mas a verdadeira fé não depende apenas daquilo que recebemos.

Jó nos oferece uma das maiores lições sobre isso. Depois de experimentar perdas profundas, declarou:

“O Senhor o deu, e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor.” (Jó 1:21)

A fé verdadeira permanece mesmo quando as circunstâncias não correspondem às nossas expectativas.

Deus continua sendo Deus quando recebemos aquilo que pedimos e também quando não recebemos.

O Evangelho não promete uma vida sem sofrimento

Um dos maiores problemas de determinadas mensagens religiosas é criar a expectativa de que seguir Jesus significa viver livre de dificuldades.

Mas Jesus foi muito honesto com seus discípulos:

“No mundo, passais por aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” (João 16:33)

Observe que Jesus não disse “vocês não terão aflições”.

Ele disse que teríamos aflições.

A diferença está na promessa seguinte: “Eu venci o mundo.”

O Evangelho não é uma garantia de ausência de problemas.

É a certeza da presença de Cristo em meio aos problemas.

A cruz não foi um acidente na trajetória de Jesus.

A cruz faz parte da mensagem do Evangelho.

Por isso Paulo declarou: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.” (Gálatas 6:14)

Um evangelho que agrada demais precisa ser examinado

Precisamos ter cuidado com uma mensagem que nunca confronta.

Se o sermão nunca fala sobre pecado, algo está errado.

Se nunca fala sobre arrependimento, precisamos perguntar por quê.

Se nunca fala sobre santidade, precisamos examinar a mensagem.

Se fala muito de dinheiro, mas pouco de generosidade e contentamento, precisamos prestar atenção.

Se fala muito de poder, mas pouco de serviço, precisamos questionar.

Se fala muito do sucesso do homem, mas pouco da cruz de Cristo, precisamos voltar às Escrituras.

Paulo já havia alertado: “Pois haverá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, se cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças.” (2 Timóteo 4:3)

O falso evangelho diz aquilo que queremos ouvir.

O verdadeiro Evangelho diz aquilo que precisamos ouvir.

Cristo precisa voltar ao centro

Não precisamos de um Evangelho adaptado ao mercado.

Não precisamos transformar a fé em produto.

Não precisamos fazer da igreja uma empresa, do púlpito um palco, do pregador uma celebridade e da bênção uma mercadoria.

Precisamos voltar ao Evangelho de Cristo.

O Evangelho que chama ao arrependimento.

Que anuncia graça.

Que oferece perdão.

Que exige renúncia.

Que ensina humildade.

Que confronta o orgulho.

Que condena a avareza.

Que ensina a servir.

Que chama à santidade.

Que aponta para a cruz.

E que coloca Cristo no centro de todas as coisas.

Paulo resumiu sua mensagem de maneira extraordinariamente simples: “Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado.” (1 Coríntios 2:2)

Essa declaração deveria nos fazer refletir.

Cristo não morreu para transformar pecadores em consumidores de bênçãos.

Ele morreu para nos reconciliar com Deus e transformar nossa vida.

Paulo escreveu: “E, assim que, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.” (2 Coríntios 5:17)

Afinal, qual Evangelho estamos seguindo?

Talvez essa seja a pergunta mais importante.

Não basta perguntar se uma mensagem fala de Deus.

Precisamos perguntar:

Ela está de acordo com as Escrituras?

Ela conduz ao arrependimento?

Produz humildade?

Ensina a servir?

Confronta o pecado?

Aponta para Cristo?

Valoriza a santidade?

Ensina contentamento?

Ou apenas alimenta a busca por dinheiro, poder, status, influência e reconhecimento?

Porque uma mensagem pode usar o nome de Jesus, citar versículos e falar sobre bênçãos e, ainda assim, estar muito distante do Evangelho que Jesus e os apóstolos anunciaram.

O maior problema não é uma igreja pequena.

Não é um templo simples.

Não é a falta de recursos.

O maior problema é ter igrejas cheias, grandes estruturas, multidões, influência e muita aparência religiosa — mas Cristo já não ser o centro da mensagem.

Jesus fez uma pergunta que continua atual: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Marcos 8:36)

Essa pergunta deveria ecoar em todos os púlpitos.

Em todas as igrejas.

Em todos os ministérios.

E, principalmente, dentro de cada coração.

Que a Igreja volte à cruz.

Que os púlpitos voltem às Escrituras.

Que os líderes voltem a ser servos.

Que os cristãos voltem ao arrependimento.

E que Cristo volte a ocupar o lugar que nunca deveria ter deixado: o centro de tudo.

Porque o verdadeiro Evangelho não existe para fazer o homem parecer grande.

Existe para revelar a grandeza de Cristo.

“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas; A ele, pois, a glória eternamente. Amém.” (Romanos 11:36)

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