Judas continua entre nós: quando a fé é transformada em moeda de troca eleitoral


Vladimir Chaves

"E, após o bocado, imediatamente, entrou nele Satanás. Então, disse Jesus: O que pretendes fazer, faze-o depressa." (João 13:27)

Quando se fala em possessão demoníaca, muitos imaginam manifestações impressionantes: gritos, convulsões ou comportamentos fora do comum. Entretanto, a Bíblia apresenta um dos episódios mais inquietantes justamente pela sua aparente normalidade.

Na última ceia, depois de receber o pão das mãos do próprio Senhor Jesus, Judas Iscariotes tornou-se instrumento da ação de Satanás (João 13:27). Nada chamou a atenção dos demais discípulos. Ele simplesmente levantou-se da mesa e saiu para entregar aquele que havia seguido durante três anos.

Essa narrativa revela uma verdade importante: o mal nem sempre se manifesta de forma escandalosa. Muitas vezes, veste a aparência da normalidade e até utiliza a linguagem da religião.

Judas vendeu Jesus por trinta moedas de prata (Mateus 26:14-16). O valor era pequeno, mas suficiente para revelar um coração dominado pela ganância. Sua traição foi consumada com um beijo (Lucas 22:47-48), transformando um gesto de afeto no instrumento da entrega.

Os séculos passaram, mas a tentação de trocar a fidelidade a Cristo por vantagens pessoais continua presente.

Nos últimos anos, especialmente na Paraíba e em diversas regiões do Brasil, tornou-se cada vez mais comum ver líderes religiosos anunciarem apoio público a candidatos sem qualquer compromisso com os princípios cristãos, alguns deles marcados por graves acusações ou históricos incompatíveis com os valores que dizem defender. Em muitos casos, as igrejas são convocadas a apoiar esses nomes sem uma explicação fundamentada nas Escrituras, como se o rebanho pudesse ser negociado ou como se o líder fosse proprietário da consciência e do voto dos fiéis.

Não há problema em cristãos participarem da vida pública. A própria Bíblia apresenta exemplos como José, Daniel e Neemias exercendo funções de governo. O problema surge quando a fé deixa de iluminar a política e passa a servir de instrumento para interesses políticos, transformando o Evangelho em moeda de troca.

As ovelhas pertencem a Cristo, não aos seus líderes. Nenhum pastor recebeu autoridade para negociar consciências ou transformar a confiança do rebanho em influência política.

Por isso Deus declarou:

"Ai dos pastores de Israel que apascentam a si mesmos! Não apascentam os pastores as ovelhas?" (Ezequiel 34:2).

Jesus também estabeleceu uma diferença clara entre o verdadeiro pastor e o mercenário:

"Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas." (João 10:11).

O verdadeiro pastor entrega a própria vida pelo rebanho. O mercenário entrega o rebanho para preservar seus próprios interesses.

Os apóstolos advertiram que esse perigo alcançaria a Igreja. Paulo alertou sobre líderes que procurariam atrair discípulos para si: “Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparam o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar discípulos atrás deles” (Atos 20:29-30), enquanto Pedro afirmou: “movidos pela avareza, farão comércio de vós" (2 Pedro 2:3).

Essa advertência continua atual. Sempre que a fé é usada para conquistar poder, cargos, influência ou vantagens pessoais, o Evangelho deixa de ocupar o centro e a Igreja corre o risco de repetir o caminho de Judas.

A história do discípulo que vendeu o Mestre não foi registrada apenas para contar um acontecimento do passado, mas para alertar todas as gerações. Cristo continua sendo traído sempre que a fidelidade ao Reino é substituída pela conveniência, pela ambição ou pelo comércio da fé.

Por isso, cada cristão deve exercer discernimento, como ensinam as Escrituras: "Provai os espíritos" (1 João 4:1) e "Julgai todas as coisas, retende o que é bom." (1 Tessalonicenses 5:21).

As ovelhas pertencem ao Senhor. O rebanho não está à venda. E todo líder prestará contas ao Supremo Pastor pela forma como conduziu aqueles que Cristo comprou com o seu próprio sangue.

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