A inversão de valores
tornou-se uma das marcas mais evidentes do nosso tempo. O mundo pode ser
resumido em três elementos: Deus, pessoas e coisas. A ordem estabelecida por
Deus é simples: adorar a Deus, amar as pessoas e usar as coisas. Entretanto, a
lógica predominante segue o caminho oposto: despreza-se Deus, usam-se as
pessoas e amam-se as coisas.
Essa mudança não é apenas um
fenômeno da sociedade secular. Infelizmente, ela também tem encontrado espaço
dentro de ambientes religiosos. A fé, que deveria conduzir homens e mulheres ao
arrependimento e à comunhão com Cristo, em muitos casos passou a ser tratada
como instrumento de influência, poder e negociação.
Jesus foi categórico ao
ensinar qual é o maior mandamento: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o
teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento" (Mateus
22:37). Logo em seguida, acrescentou: "Amarás o teu próximo como a
ti mesmo" (Mateus 22:39). Nessa declaração está estabelecida a
verdadeira ordem da vida cristã: Deus em primeiro lugar, o próximo em segundo e
as coisas em seu devido lugar.
Contudo, o apego ao poder e
às vantagens temporárias tem levado muitos a inverter essa prioridade. Pessoas
tornam-se instrumentos para alcançar objetivos pessoais, enquanto bens
materiais, influência política e prestígio passam a ocupar o centro das atenções.
É exatamente o oposto do ensinamento de Cristo, que afirmou: "Ninguém
pode servir a dois senhores... Não podeis servir a Deus e às riquezas"
(Mateus 6:24).
Essa realidade torna-se
ainda mais preocupante durante os períodos eleitorais. Em vez de preservar o
púlpito como espaço de proclamação do Evangelho, algumas igrejas o transformam
em plataforma para campanhas políticas. Sob diferentes justificativas, candidatos
são apresentados aos fiéis como se o altar pudesse ser compartilhado com
interesses eleitorais.
O problema não está na
participação dos cristãos na vida pública, pois a Bíblia reconhece a
importância das autoridades e da responsabilidade cívica (Romanos 13:1-7).
O problema surge quando líderes espirituais utilizam a confiança do rebanho
para promover candidatos que não demonstram compromisso com os princípios das
Escrituras, alguns deles marcados por escândalos, corrupção ou trajetórias
incompatíveis com os valores do Reino de Deus.
A Palavra de Deus alerta
repetidamente sobre esse perigo. O apóstolo Paulo advertiu que "virá
tempo em que não suportarão a sã doutrina" (2 Timóteo 4:3). O apóstolo
Pedro também escreveu: "Haverá entre vós falsos mestres... e muitos
seguirão as suas práticas libertinas, e por causa deles, será infamado o
caminho da verdade" (2 Pedro 2:1-2). Quando a igreja relativiza os
princípios bíblicos para atender interesses humanos, o nome de Cristo deixa de
ser exaltado, e o Evangelho perde credibilidade diante da sociedade.
Jesus fez uma advertência
severa aos pastores infiéis ao afirmar: "Acautelai-vos dos falsos
profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos
devoradores” (Mateus 7:15). O lobo nem sempre está do lado de fora tentando
entrar; muitas vezes é convidado a ocupar lugar de honra, apresentado por
aqueles que deveriam guardar o rebanho.
O apóstolo Paulo também
advertiu os líderes da igreja de Éfeso: "Depois da minha partida, entre
vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho" (Atos 20:29).
A missão do pastor é proteger as ovelhas, e não conduzi-las ao encontro dos
lobos.
A igreja jamais deveria
negociar sua fidelidade em troca de favores, influência ou proximidade com o
poder. O Reino de Deus não depende de acordos políticos para permanecer firme.
Sua força está na verdade do Evangelho e na fidelidade de seus servos.
Quando um líder utiliza a fé
para influenciar escolhas eleitorais em favor de pessoas sem testemunho
compatível com a Palavra de Deus, corre o risco de transformar aquilo que é
santo em instrumento de interesses passageiros. O altar deixa de ser lugar de
arrependimento para tornar-se palco de conveniências humanas.
Cristo nunca precisou
adaptar sua mensagem para agradar governantes ou conquistar influência. Pelo
contrário, declarou diante de Pilatos: "O meu reino não é deste
mundo" (João 18:36). A missão da igreja continua sendo anunciar a
salvação, denunciar o pecado e conduzir pessoas à cruz de Cristo,
independentemente de quem ocupe os cargos públicos.
Os últimos tempos são
marcados exatamente por essa confusão de prioridades. O amor ao dinheiro, ao
poder e aos prazeres substitui o amor a Deus (2 Timóteo 3:1-5). Por
isso, mais do que nunca, a igreja precisa recuperar sua identidade. O púlpito
deve continuar sendo lugar de exposição das Escrituras, e não de promoção de
projetos políticos.
A verdadeira fé nunca usa
pessoas como degraus nem transforma Deus em meio para alcançar interesses
humanos. Ela adora somente ao Senhor, ama sinceramente o próximo e reconhece
que as coisas são apenas instrumentos passageiros. Quando essa ordem é restaurada,
a igreja volta a refletir o caráter de Cristo e cumpre sua missão de ser sal da
terra e luz do mundo (Mateus 5:13-16).


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