A mudança da classificação
indicativa do programa "Record Kids: Desenhos Bíblicos", da Record,
de Livre para não recomendado para menores de 12 anos, levanta uma questão: por
que um programa infantil baseado em histórias bíblicas passou a ser considerado
inadequado para crianças dessa faixa etária?
A decisão compromete sua
exibição às 9h de domingo e reacende o debate sobre liberdade religiosa e o
direito das famílias de transmitir valores cristãos aos filhos.
Não se está defendendo que
produções religiosas estejam dispensadas de avaliação. Todo conteúdo destinado
às crianças deve observar critérios de proteção, independentemente de sua
origem ou finalidade. Entretanto, qualquer mudança de classificação precisa ser
acompanhada de justificativas claras, fundamentadas em elementos concretos do
programa.
Se existem cenas ou
abordagens consideradas impróprias para determinada faixa etária, é necessário
identificá-las. O que não seria aceitável é que a simples presença de conteúdo
religioso se transforme, direta ou indiretamente, em motivo para restringir sua
exibição ao público infantil.
Liberdade religiosa também é
um direito das famílias
A Constituição Federal
assegura a liberdade de consciência e de crença, bem como o livre exercício dos
cultos religiosos. Essa garantia também se manifesta no direito dos pais de
orientar a formação moral e espiritual dos filhos, respeitando os limites legais.
O Brasil é um Estado laico.
Isso significa que o poder público não deve impor uma religião nem favorecer
uma crença em detrimento de outra. Entretanto, laicidade não significa retirar
a religião da convivência social ou dificultar sua expressão.
Uma sociedade
verdadeiramente plural precisa permitir que conteúdos cristãos, assim como
manifestações de outras tradições religiosas, tenham espaço e sejam avaliados
pelos mesmos critérios. O respeito à diversidade precisa valer para todos.
A proteção da infância não
pode ser seletiva
Aqui surge uma contradição
que merece reflexão. Enquanto um programa infantil dedicado a histórias
bíblicas passa a ser considerado inadequado para menores de 12 anos, outras
situações envolvendo crianças parecem receber atenção e questionamentos muito menos
rigorosos.
A presença de crianças em
manifestações de movimentos LGBT, especialmente naquelas que envolvem
apresentações ou conteúdos de natureza sexual, merece ser questionada. Crianças
não devem ser utilizadas como instrumentos de divulgação de pautas políticas ou
ideológicas, nem envolvidas em discussões e manifestações para as quais ainda
não possuem maturidade.
Isso não significa
desrespeitar pessoas por sua orientação sexual ou negar sua dignidade.
Significa reconhecer que a infância possui necessidades próprias e que os
adultos têm o dever de estabelecer limites, independentemente do movimento, da
ideologia ou da instituição envolvida.
A mesma preocupação deve
existir nas escolas. O ensino de questões relacionadas à sexualidade e à
identidade de gênero precisa considerar a idade dos alunos, a adequação
pedagógica e o direito das famílias de participar da formação dos filhos.
Ensinar respeito às diferenças é necessário, mas isso não justifica antecipar
abordagens inadequadas à maturidade infantil.
Também causa preocupação a
execução de músicas que fazem apologia à prostituição, à violência e ao consumo
de drogas em ambientes frequentados por crianças. É contraditório demonstrar
rigor diante de desenhos bíblicos e tolerância diante de conteúdos que
banalizam comportamentos prejudiciais à formação infantil.
A pergunta precisa ser a
mesma para todos: esse conteúdo é apropriado para a idade da criança? Se a
proteção da infância é uma prioridade, não pode depender de quem produz,
divulga ou defende determinado conteúdo.
A formação espiritual começa
na família
Para milhões de famílias
brasileiras, a Bíblia é uma referência de conduta e a base de sua compreensão
sobre a vida. Apresentar suas histórias às crianças significa transmitir
ensinamentos sobre honestidade, perdão, responsabilidade, respeito e amor ao próximo.
Provérbios 22:6
orienta: "Ensina a criança no caminho em que deve andar". Essa
responsabilidade pertence, antes de tudo, aos pais.
Nenhum programa de televisão
substitui a educação familiar, mas produções como o Record Kids podem
contribuir para que as crianças conheçam as Escrituras de maneira acessível à
sua idade. Em uma época de tantas influências, oferecer conteúdo alinhados aos
valores familiares é uma escolha legítima.
Critérios iguais, sem
privilégios ideológicos
A questão central não é
exigir tratamento especial para um programa evangélico. É exigir critérios
técnicos, objetivos e coerentes para todos os conteúdos destinados às crianças.
A proteção da infância é
legítima e necessária, mas não pode servir de justificativa genérica para
dificultar o acesso a conteúdos religiosos. É preciso transparência: quais
elementos motivaram a mudança de classificação? A medida é proporcional ao
conteúdo apresentado?
Essas perguntas precisam de
respostas.
Uma sociedade democrática
não deve impor a fé cristã a ninguém, mas também não pode tratar sua
manifestação como algo inconveniente. As famílias cristãs têm o direito de
transmitir suas convicções e oferecer aos filhos uma formação fundamentada nas
Escrituras.
A infância não pode ser
protegida de acordo com conveniências ideológicas. Se existe rigor para avaliar
um desenho bíblico, deve existir o mesmo rigor diante de qualquer conteúdo que
possa comprometer o desenvolvimento moral e emocional das crianças. A proteção
infantil não pode ter dois pesos e duas medidas.
Os pais não podem ser
tratados como espectadores da educação dos próprios filhos, muito menos ter
suas convicções religiosas desconsideradas. Cabe à família decidir os
princípios que deseja transmitir, acompanhar a formação das crianças e exercer
seu direito de educá-las segundo sua fé, dentro dos limites da lei.
Não queremos privilégios
para a religião cristã. Queremos respeito, coerência e liberdade. Queremos que
nossas crianças possam conhecer as histórias bíblicas, aprender os ensinamentos
de Jesus e crescer sabendo que a fé não precisa ser escondida para ser
respeitada.
Se contar histórias da
Bíblia às crianças merece restrições, enquanto outros conteúdos potencialmente
prejudiciais são tratados com tolerância, então é legítimo perguntar: estamos
realmente protegendo a infância ou escolhendo quais valores podem chegar até
ela?
Não abriremos mão do direito
de ensinar nossos filhos no caminho da fé. Essa não é uma concessão que
esperamos do governo, mas uma responsabilidade que assumimos diante de Deus.
"Ensina a criança no
caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará
dele." (Provérbios 22:6).


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