Deus não te chamou para agradar a homens, Ele te chamou para obedecer a Ele


Vladimir Chaves

“Porventura, procuro eu, agora, o favor dos homens ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo.” Gálatas 1.10

Existe uma diferença profunda entre ser uma pessoa agradável e viver para agradar pessoas. A primeira pode revelar educação e maturidade; a segunda revela uma perigosa dependência da aprovação alheia. Quando a necessidade de ser aceito se torna maior que o compromisso com Deus, a fidelidade começa a ser negociada.

Paulo sabia disso. Em Gálatas 1.10, ele não está defendendo uma postura arrogante ou indiferente às pessoas. Está afirmando que o servo de Cristo não pode colocar a aprovação humana acima da vontade de Deus. Afinal, quem foi chamado para servir ao Senhor não pode permitir que o medo da rejeição determine sua obediência.

Essa é uma questão especialmente séria dentro da vida cristã. Há momentos em que dizer a verdade custará amizades; manter princípios provocará críticas; corrigir um erro produzirá resistência; recusar determinados comportamentos fará com que alguns nos considerem inconvenientes. Nesses momentos, surge uma escolha: preservar a aprovação das pessoas ou permanecer fiel àquilo que Deus estabeleceu.

A Bíblia mostra que essa tensão não é nova. Jesus não adaptou sua mensagem simplesmente para manter multidões. Quando muitos se escandalizaram com seu ensino e deixaram de segui-lo, ele não suavizou a verdade para recuperá-los. Perguntou aos discípulos: “Porventura, quereis também vós outros retirar-vos?” (João 6.67).

Isso deveria nos fazer refletir sobre o tipo de cristianismo que estamos construindo. Quando a preocupação em agradar supera a preocupação em obedecer, a fé corre o risco de se transformar em uma busca por aceitação. E uma igreja que se distância da verdade de Deus, corre o risco de perder sua essência.

É preciso reconhecer, porém, que obedecer a Deus não significa tratar as pessoas com desprezo. O cristão não foi chamado para ser agressivo, insensível ou deliberadamente desagradável. A verdade deve caminhar acompanhada do amor. Paulo escreveu: “Seguindo a verdade em amor” (Efésios 4.15). Portanto, firmeza sem amor pode se transformar em dureza; mas amor sem verdade pode se transformar em omissão.

O problema não está em querer fazer o bem às pessoas. O problema está em precisar da aprovação delas para continuar fazendo aquilo que Deus mandou.

Há cristãos que silenciam suas convicções para não serem rejeitados por amigos, familiares ou grupos. Aos poucos, a pergunta deixa de ser “O que Deus espera de mim?” e passa a ser “O que preciso fazer para que continuem gostando de mim?”

Essa troca de referência é perigosa.

Quem vive para agradar a todos acaba prisioneiro das expectativas de todos. Hoje precisará agradar uma pessoa; amanhã, outra. Uma exigirá silêncio, outra exigirá posicionamento. Uma pedirá concessão, outra cobrará coerência. E, tentando satisfazer todas as expectativas, a pessoa perde a capacidade de permanecer firme.

O chamado de Deus não é para sermos populares, mas fiéis.

Nem toda crítica significa que estamos errados, assim como todo elogio não significa que estamos certos. A aprovação humana é uma referência instável. Pessoas mudam de opinião, multidões mudam de lado e circunstâncias mudam rapidamente. A Palavra de Deus, porém, permanece.

Por isso, o cristão precisa aprender a suportar a incompreensão sem abandonar a obediência. Haverá momentos em que você será mal interpretado justamente porque decidiu fazer o que é correto. Haverá pessoas que não compreenderão suas escolhas, outras que discordarão de sua postura e algumas que talvez se afastem.

Nem sempre será agradável. Mas fidelidade nunca foi sinônimo de facilidade.

Jesus afirmou: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mateus 16.24). Seguir Cristo envolve renúncia. E uma das renúncias mais difíceis é abandonar a necessidade constante de ser aprovado.

No final, a pergunta mais importante não será quantas pessoas aplaudiram nossas escolhas, mas se permanecemos fiéis ao Senhor. Não será quantos nos admiraram, mas se nossa vida honrou aquele que nos chamou.

Por isso, não permita que o medo da rejeição determine sua obediência. Seja humilde para ouvir, sábio para reconhecer quando estiver errado e amoroso ao tratar as pessoas. Mas, quando souber que Deus exige de você uma determinada postura, não abandone a verdade apenas para preservar sua popularidade.

Você não foi chamado para agradar a todos.

Foi chamado para obedecer a Deus.

E, se em algum momento precisar escolher entre a aprovação dos homens e a fidelidade ao Senhor, lembre-se das palavras de Paulo: “Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo.” (Gálatas 1.10)

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

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Quando a Palavra é negligenciada dentro da própria igreja


Vladimir Chaves

A Bíblia está presente em todas as igrejas, mas isso não significa que a Palavra de Deus esteja ocupando o lugar que deveria ocupar. Há templos onde a programação é intensa, os eventos se multiplicam, as atividades se sucedem e os cultos são cuidadosamente organizados; mas o ensino das Escrituras recebe cada vez menos espaço.

Essa inversão precisa ser questionada.

Em muitas congregações, o culto que deveria conduzir o povo à adoração, ao conhecimento de Deus, ao arrependimento e à transformação pela Palavra acaba sendo preenchido por uma sequência de apresentações, anúncios, homenagens, campanhas, eventos e outras atividades. Não que essas coisas sejam necessariamente erradas. O problema começa quando aquilo que é secundário passa a ocupar o espaço daquilo que é essencial.

A Palavra não pode ser apenas uma parte da programação. Ela precisa ser o fundamento da programação.

O autor de Hebreus apresenta uma advertência que merece ser levada muito a sério:

“Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido.” Hebreus 5:12

E acrescenta: “...vos tendes tornado tardios para ouvir...” Hebreus 5:11

A expressão é significativa: “tardios para ouvir”.

O problema não era falta de tempo, nem ausência da Palavra. O problema era a negligência em ouvi-la e amadurecer por meio dela.

Isso também pode acontecer dentro da igreja. Uma pessoa pode frequentar cultos durante anos, participar de congressos, conferências, encontros e eventos, mas continuar sem conhecimento suficiente das Escrituras. Pode estar sempre presente na igreja e, ainda assim, permanecer espiritualmente imatura.

Hebreus 5:13-14 mostra justamente essa diferença entre imaturidade e maturidade espiritual. O autor relaciona o crescimento do cristão ao conhecimento e à prática da “palavra da justiça”, mostrando que o discernimento é desenvolvido pelo exercício.

Sem conhecimento da Palavra, como o cristão poderá discernir?

Como reconhecerá um falso ensino?

Como saberá quando uma doutrina contradiz as Escrituras?

Como distinguirá a vontade de Deus das opiniões humanas?

Como poderá obedecer a aquilo que não conhece?

Hebreus 2:1 acrescenta: “Por esta razão, importa que nos apeguemos, com mais firmeza, às verdades ouvidas, para que delas jamais nos desviemos”

A advertência é clara: a negligência em ouvir pode levar ao desvio.

Por isso, reduzir o ensino bíblico não é uma questão meramente de organização do culto. É uma questão espiritual.

Quando a Palavra recebe pouco espaço, o cristão perde oportunidades de conhecer mais profundamente a Deus, compreender a doutrina, reconhecer o pecado, desenvolver discernimento e fortalecer sua fé.

Hebreus 4:2 afirma: “Porque também a nós foram anunciadas as boas-novas, como se deu com eles; mas a palavra que ouviram não lhes aproveitou, visto não ter sido acompanhada pela fé naqueles que a ouviram.”

Não basta ouvir a Palavra. É necessário recebê-la com fé e obedecê-la.

E Hebreus 4:12 revela por que a Escritura não pode ser tratada como um simples complemento do culto: “Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes...”

É a Palavra que confronta o pecado, corrige o erro, revela o coração, produz arrependimento e conduz o homem à verdade.

Por isso, não há evento que possa substituir a exposição das Escrituras.

Não há apresentação que substitua o ensino.

Não há entretenimento que produza o mesmo efeito da Palavra.

Não há programação que possa ocupar o lugar daquilo que Deus determinou para ensinar, corrigir, repreender e instruir o seu povo.

Paulo escreveu: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para repreensão, para correção, para a educação na justiça.” 2 Timóteo 3:16

Isso não significa que eventos, música, comunhão ou atividades sejam inúteis. Eles podem ter seu lugar. A questão é outra: o que está no centro?

Quando o secundário toma o lugar do essencial, a igreja pode continuar movimentada, mas o povo deixa de crescer na mesma proporção.

Uma agenda cheia não é prova de maturidade espiritual. 

Um templo cheio não é necessariamente sinal de conhecimento bíblico.

Uma grande quantidade de eventos não significa, por si só, uma igreja forte.

A verdadeira maturidade aparece quando homens e mulheres conhecem a Palavra, discernem o erro, rejeitam o pecado e vivem em obediência a Cristo.

É exatamente por isso que Hebreus 3:7-8 diz: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações...”

Deus continua falando. A questão é se estamos dispostos a ouvir.

A igreja precisa recuperar a centralidade das Escrituras.

Não para abandonar a adoração, a comunhão ou as atividades, mas para colocar cada coisa no seu devido lugar.

Menos superficialidade. Mais ensino.

Menos distração. Mais Escritura.

Menos preocupação em preencher a agenda. Mais compromisso em formar discípulos.

Porque uma igreja ocupada pode produzir espectadores.

Mas uma igreja fundamentada na Palavra produz discípulos.

E discípulos que conhecem a Palavra estão mais preparados para permanecer firmes, discernir o erro e obedecer a Deus.

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Salmo 119: Quando a Palavra de Deus deixa de ser apenas leitura e se torna direção


Vladimir Chaves

O Salmo 119 é um dos maiores testemunhos de amor e reverência à Palavra de Deus encontrados nas Escrituras. Seus 176 versículos mostram que a Palavra não foi dada apenas para ser lida, mas para ensinar, corrigir, orientar, advertir, fortalecer e transformar.

Ao longo do salmo, David utiliza diferentes expressões para falar da Palavra de Deus. Cada uma delas revela uma característica e nos ajuda a compreender por que as Escrituras devem ocupar um lugar central na vida de quem deseja andar com Deus.

Oito maneiras de compreender a Palavra de Deus

Lei (Torah): significa ensino ou instrução. Apresenta a Palavra como aquilo que Deus nos ensina para orientar nossa maneira de viver.

Palavra (Dabar): refere-se àquilo que Deus comunica. É a revelação de sua vontade ao ser humano.

Mandamentos (Mitzvah): destacam a autoridade de Deus. Seus mandamentos não são simples sugestões; são orientações que exigem obediência.

Estatutos (Chok): apontam para aquilo que Deus estabeleceu de maneira firme e permanente. São princípios que não mudam conforme a sociedade muda.

Juízos (Mishpat) : revelam as decisões e os padrões de Deus acerca do que é certo e errado. Mostram que Deus é o justo Juiz.

Preceitos (Piqud): apresentam instruções detalhadas para a vida. Mostram que Deus se importa também com os detalhes do nosso comportamento.

Testemunhos (Edah): lembram aquilo que Deus declarou sobre si mesmo e sobre suas obras. Fazem-nos recordar sua fidelidade e aquilo que Ele já realizou.

Promessas (Imrah): ressaltam a fidelidade de Deus ao que Ele falou. Suas promessas alimentam a esperança e fortalecem a fé.

Perceber essas diferentes expressões muda a maneira de ler a Bíblia. Não estamos diante de um livro que simplesmente informa; estamos diante da Palavra daquele que deseja conduzir nossa vida.

Como transformar a leitura em prática?

Uma maneira simples de fazer isso é utilizar quatro perguntas durante a leitura diária.

1. O texto está trazendo uma ordem ou orientação?

Quando encontramos lei, mandamentos ou preceitos, devemos procurar direção para a prática.

Pergunte: “Existe alguma coisa aqui que Deus está me mandando fazer ou alguma atitude que preciso corrigir?”

Se a Palavra ensina a falar a verdade, por exemplo, não basta concordar com o texto. É preciso examinar nossa própria maneira de falar e abandonar exageros, mentiras ou omissões.

A verdadeira leitura começa quando aquilo que lemos encontra espaço em nossas atitudes.

2. O texto apresenta um padrão que não muda?

Quando encontramos estatutos ou juízos, somos chamados a reconhecer os valores permanentes de Deus.

Pergunte: “Qual princípio eterno de Deus aparece neste texto e como posso permanecer firme nele?”

A sociedade muda, os costumes mudam e as opiniões mudam. Mas aquilo que Deus estabeleceu não precisa ser atualizado de acordo com cada geração.

Por isso, conhecer a Palavra é também aprender a permanecer de pé quando tudo ao redor parece estar mudando.

3. O texto me lembra quem Deus é?

Quando encontramos testemunhos e promessas, devemos exercitar a memória e a fé.

Pergunte: “O que este texto me lembra sobre Deus e sobre sua fidelidade?”

Quando lemos sobre as obras de Deus no passado, não estamos apenas conhecendo uma história antiga. Estamos sendo lembrados de quem Deus é.

O Deus que abriu o Mar Vermelho, sustentou seu povo e cumpriu suas promessas continua sendo Deus.

Recordar o que Ele já fez fortalece a fé para enfrentar aquilo que ainda não conseguimos enxergar.

4. O que Deus está ensinando ao meu coração?

Quando pensamos na Palavra de maneira ampla, a leitura deixa de ser apenas uma obrigação religiosa e se transforma em relacionamento.

Pergunte: “O que preciso compreender e colocar em prática diante de Deus neste momento da minha vida?”

Ler a Bíblia não deve ser apenas cumprir uma quantidade de capítulos por dia. É preciso ler com disposição para ouvir.

É como alguém que se coloca diante de Deus e diz: “Senhor, ensina-me. Mostra-me o que preciso enxergar, corrige aquilo que precisa ser corrigido e conduz meus passos.”

O próprio Salmo 119 responde por que precisamos da Palavra

David não fala da Palavra de maneira teórica. Ele experimentou seus efeitos.

“Guardo no coração as tuas palavras, para não pecar contra ti” (Salmo 119:11)

A Palavra guardada no coração torna-se uma defesa contra o pecado. Aquilo que aprendemos nas Escrituras precisa deixar de ocupar apenas a memória e passar a governar nossas escolhas.

“De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho? Observando-o conforme a tua palavra.” (Salmo 119:9)

A Palavra mostra o caminho da pureza. Ela não apenas revela o erro depois que caímos; também nos ensina a reconhecer o caminho que devemos evitar.

“Lâmpada para os meus pés é tua palavra e luz para o meu caminho.” (Salmo 119:105)

A Bíblia é comparada à luz porque o ser humano pode caminhar no escuro mesmo estando convencido de que sabe para onde está indo.

A Palavra ilumina os próximos passos.

“Para sempre, ó Senhor, está firmada a tua palavra no céu.” (Salmo 119:89)

Tudo ao nosso redor pode mudar. Opiniões, costumes, governos, culturas e tendências passam. A Palavra de Deus permanece.

“Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Mais que o mel à minha boca.” (Salmo 119:103)

Existe também prazer em conhecer a Deus por meio de sua Palavra. A Bíblia não foi dada apenas para confrontar; ela também consola, alimenta, fortalece e traz satisfação à alma.

“Grande paz têm os que amam a tua lei, e para eles não há tropeço.” (Salmo 119:165)

A paz apresentada aqui não significa uma vida sem problemas. Significa possuir uma direção segura mesmo quando os problemas aparecem.

E David declara: “A revelação das tuas palavras esclarece e dá entendimento aos simples.” (Salmo 119:130)

A Palavra ilumina aquilo que não compreendemos e produz entendimento em quem se dispõe a ouvi-la.

Mais do que ler, é preciso permanecer na Palavra

Talvez uma das grandes lições do Salmo 119 seja justamente esta: a Palavra de Deus não deve ocupar apenas algumas horas da nossa semana; ela precisa participar da nossa vida.

Não basta possuir uma Bíblia. Não basta ouvir um versículo. Não basta conhecer histórias bíblicas.

A pergunta é outra: A Palavra que conhecemos está governando a maneira como vivemos?

Podemos ler sobre perdão e continuar alimentando ressentimentos. Podemos ler sobre verdade e continuar justificando pequenas mentiras. Podemos conhecer os mandamentos e permanecer indiferentes à obediência.

Nesse caso, a Palavra entrou pelos olhos, passou pela mente, mas não chegou ao coração.

O salmo 119 apresenta outro caminho: “Guardo no coração as tuas palavras.”

É aí que a Bíblia deixa de ser apenas um livro que carregamos e passa a ser uma Palavra que carregamos dentro de nós.

Uma forma diferente de abrir a Bíblia todos os dias

Ao abrir as Escrituras, experimente não perguntar somente:

“Quantos capítulos vou ler hoje?”

Pergunte também:

“O que Deus está me ensinando?”

“Existe alguma ordem que preciso obedecer?”

“Existe alguma atitude que preciso abandonar?”

“Que princípio de Deus devo manter, mesmo que o mundo pense diferente?”

“O que este texto me lembra sobre a fidelidade de Deus?”

“Existe alguma promessa que devo guardar no coração?”

Então a leitura deixa de ser apenas uma rotina religiosa.

Ela se transforma em ensino, correção, direção, memória, fé, obediência e relacionamento com Deus.

É isso que o Salmo 119 ensina ao longo de seus 176 versículos: a Palavra de Deus não foi entregue simplesmente para ser admirada.

Foi entregue para ser conhecida, guardada, obedecida e vivida.

E quando a Palavra ocupa esse lugar, ela realmente se torna aquilo que o salmista declarou:

“Lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho.”

terça-feira, 25 de agosto de 2026

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Quando o dom não revela Cristo


Vladimir Chaves

A igreja de Corinto nos ensina uma verdade que continua profundamente atual: é possível ter muitos dons e, ainda assim, ter relacionamentos espiritualmente doentes.

Os coríntios tinham manifestações extraordinárias, mas permitiram que o orgulho, a competição e as divisões ocupassem espaço dentro da comunidade. O problema não estava nos dons, mas na maneira como estavam sendo usados. Aquilo que deveria edificar o corpo de Cristo estava, em alguns momentos, servindo para exaltar pessoas.

Paulo precisou lembrá-los de que Cristo não criou a Igreja para ser um palco de disputas, mas um corpo no qual cada membro precisa cuidar do outro: “Deus coordenou o corpo, concedendo muito mais honra àquilo que menos tinha, para que não haja divisão no corpo, pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros” (1 Coríntios 12:24-25).

Essa advertência fica ainda mais forte quando Paulo trata da Ceia do Senhor. Enquanto alguns tinham fartura, outros passavam necessidade. A reunião que deveria expressar comunhão havia se transformado em demonstração de egoísmo. Por isso, Paulo declarou: “Menosprezai a igreja de Deus e envergonhais os que nada têm?” (1 Coríntios 11:22).

Isso nos leva a uma reflexão importante: não basta participar de um culto; é preciso compreender o que significa pertencer ao corpo de Cristo.

Podemos conhecer a Bíblia, cantar, pregar, ensinar, exercer dons espirituais e até experimentar manifestações extraordinárias. Mas, se as pessoas ao nosso redor são feridas pelo nosso orgulho, desprezo, arrogância ou competição para saber quem tem mais autoridade, alguma coisa está profundamente errada. 

Por isso Paulo coloca o amor no centro de tudo: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, e não tiver amor, seria como o bronze que soa ou como o címbalo que retine” (1 Coríntios 13:1).

O dom pode impressionar, mas é o amor revela Cristo.

O conhecimento pode produzir admiração, mas é o caráter transforma relacionamentos.

A manifestação espiritual pode chamar atenção, mas a maneira como tratamos as pessoas revela o que realmente está governando o nosso coração.

O próprio Paulo resume o propósito da vida cristã quando diz: “Seja tudo feito para edificação” (1 Coríntios 14:26). Esse deve ser um dos critérios para avaliarmos aquilo que fazemos dentro da Igreja: isso está edificando ou ferindo? Está aproximando as pessoas de Cristo ou alimentando a vaidade humana? Está preservando a dignidade do irmão ou colocando alguém em posição de humilhação?

O dom de Deus não deveria ser utilizado para diminuir alguém.

Quando o Espírito Santo opera, o resultado não deve ser uma disputa para saber quem aparece mais, quem fala melhor ou quem possui maior autoridade. O resultado deveria ser uma comunidade em que Cristo é reconhecido na maneira como seus discípulos amam, servem, perdoam e cuidam uns dos outros.

Jesus mesmo estabeleceu esse sinal: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (João 13:35).

A grande pergunta, portanto, não é apenas: “Que dom eu tenho?”

É também: “O que o meu dom está produzindo nas pessoas?”

Se ele serve para edificar, encorajar, consolar e conduzir outros a Cristo, está cumprindo seu propósito. Mas se alimenta orgulho, competição, humilhação e divisão, precisamos parar e examinar o coração.

Porque, no Reino de Deus, o valor de um dom não está apenas naquilo que ele manifesta, mas naquilo que ele produz quando é colocado a serviço do corpo de Cristo.

E quando o amor deixa de ser apenas uma palavra e passa a governar nossas atitudes, o caráter de Cristo começa a ser reconhecido não somente no que fazemos dentro da igreja, mas principalmente na maneira como tratamos uns aos outros.

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Salmo 22 e a Cruz — A profecia que aponta para Cristo


Vladimir Chaves

Existe no Salmo 22 uma das mais impressionantes proféticas da crucificação de Cristo. Escrita pelo rei Davi séculos antes do nascimento de Jesus, o salmo descreve, com detalhes surpreendentes, cenas que encontrariam seu cumprimento na cruz.

E há uma imagem particularmente interessante logo no início dessa profecia.

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Salmo 22:1

Jesus, pendurado na cruz, clamou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Mateus 27:46; Marcos 15:34

Essas palavras não aparecem por acaso. São exatamente as palavras que iniciam o Salmo 22:

Jesus estava citando as Escrituras no momento mais dramático de sua missão.

Isso não significa que sua humanidade não experimentasse uma agonia indescritível. Ele realmente sofreu, foi rejeitado, humilhado e carregou sobre si o peso do pecado. Mas o clamor da cruz também conduz imediatamente aqueles que conheciam as Escrituras ao Salmo 22.

E quanto mais avançamos no salmo, mais impressionante se torna a correspondência com a crucificação.

“Todos os que me veem zombam de mim”

Davi escreve: “Todos os que me veem zombam de mim; afrouxam os lábios e meneiam a cabeça.” Salmo 22:7

O Evangelho registra exatamente esse tipo de reação diante de Jesus: “Os que iam passando blasfemavam dele, meneando a cabeça.” Mateus 27:39

Os líderes religiosos também zombavam dele, dizendo, em essência, que se era realmente o Filho de Deus deveria salvar a si mesmo.

O Salmo continua: “Confiou no Senhor! Livre-o ele; salve-o, pois nele tem prazer.” Salmo 22:8

E Mateus registra a mesma provocação dirigida a Jesus:

“Confiou em Deus; pois venha livrá-lo agora, se de fato lhe quer bem.” Mateus 27:43

A linguagem é extraordinariamente próxima.

O sofrimento físico

O salmista prossegue descrevendo uma situação de extrema fragilidade:

“Derramei-me como água, e todos os meus ossos se desconjuntaram; meu coração fez-se como cera, derrete-se dentro de mim.” Salmo 22:14

E acrescenta:

“Secou-se o meu vigor, como um caco de barro, e a língua se me apega ao céu da boca.” Salmo 22:15

Na cruz, Jesus experimentou intensa exaustão, desidratação e sofrimento físico. João registra que, pouco antes de sua morte:

“Tenho sede.” João 19:28

A linguagem do salmo não é uma descrição médica da crucificação, mas retrata de maneira impressionante a condição de alguém submetido a sofrimento extremo.

“Traspassaram minhas mãos e meus pés”

Então chegamos a uma das passagens mais conhecidas:

“Cães me cercam; uma súcia de malfeitores me rodeia; traspassaram-me as mãos e os pés.” Salmo 22:16

A imagem é particularmente impressionante porque a crucificação romana envolvia justamente a fixação do condenado à estrutura de madeira por meio de pregos.

O método de execução por crucificação tornou-se conhecido e amplamente utilizado no mundo antigo muito depois da época de Davi.

Por isso, quando lemos Salmo 22 à luz do Novo Testamento, enxergamos aqui uma correspondência extraordinária com Jesus.

“Posso contar todos os meus ossos”

O salmista continua: “Posso contar todos os meus ossos; eles estão me olhando e encarando a mim.” Salmo 22:17

A crucificação deixava o corpo do condenado exposto diante daqueles que o observavam. Jesus foi colocado diante da multidão, dos soldados, dos líderes religiosos e dos que passavam pelo caminho.

E existe ainda outro detalhe significativo: João registra que, ao contrário dos dois criminosos crucificados com Jesus, os soldados não quebraram suas pernas.

“Nenhum dos seus ossos será quebrado.” João 19:36

Esse acontecimento também se harmoniza com o padrão das Escrituras, especialmente com Êxodo 12:46 e Salmo 34:20, aplicado por João à morte de Cristo.

As vestes divididas

Então surge outra cena extremamente específica:

“Repartem entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica deitam sortes.” Salmo 22:18

O Evangelho de João descreve exatamente isso:

“Os soldados, pois, quando crucificaram Jesus, tomaram-lhe as vestes e fizeram quatro partes, para cada soldado uma parte; e também a túnica.” João 19:23

E acrescenta: “Não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela para ver a quem caberá.” João 19:24

João então explica que isso aconteceu “para se cumprir a Escritura”.

Um salmo escrito séculos antes descreve uma cena que o Evangelho apresenta acontecendo aos pés da cruz.

O silêncio que conduz à vitória

Mas talvez o maior erro seja parar no versículo 1.

Quem conhece apenas: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”

pode imaginar que o Salmo 22 termina em abandono.

Não termina.

O salmo começa com sofrimento, passa pela humilhação, descreve a aflição do justo, mas termina com adoração, proclamação e vitória.

Davi declara: “Lembrar-se-ão do Senhor e a ele se converterão os confins da terra; perante ele se prostrarão todas as famílias das nações.” Salmo 22:27

Essa declaração aponta para algo muito maior do que a experiência individual de David.

A morte do Servo sofredor não terminaria em fracasso. O resultado seria a expansão do conhecimento de Deus entre as nações.

E é exatamente isso que encontramos depois da ressurreição de Cristo: o Evangelho começa em Jerusalém e alcança povos de todas as nações.

O próprio Jesus, depois de ressuscitar, declara:

“Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia, e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações.” Lucas 24:46-47

O sofrimento conduz à proclamação.

A cruz conduz às nações.

A morte conduz à vitória.

“À posteridade se anunciará o Senhor”

Os últimos versos são ainda mais fortes:

“A posteridade o servirá; falar-se-á do Senhor à geração vindoura.” Salmo 22:30

E: “Hão de vir anunciar a justiça dele; ao povo que há de nascer, contarão que foi ele quem o fez.” Salmo 22:31

O salmo termina olhando para gerações futuras.

Pessoas que ainda nem haviam nascido ouviriam a respeito daquilo que Deus havia feito.

E isso acontece de maneira extraordinária por meio da mensagem do Evangelho.

Gerações nasceram, morreram e foram substituídas por outras. Povos inteiros ouviram a mensagem. E, durante séculos, a Igreja continua anunciando que Deus realizou a salvação por meio de Cristo.

E aqui está o ponto central

Existe uma interpretação muito difundida segundo a qual a última expressão do Salmo 22 — “foi ele quem o fez” — seria equivalente, em hebraico, à palavra aramaica “Está consumado” (tetelestai), pronunciada por Jesus em João 19:30.

O Salmo 22 começa com: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”

E termina com: “Ele o fez.”

O Evangelho de João registra Jesus dizendo:

“Está consumado.” João 19:30

O sofrimento não era o capítulo final.

A cruz não era um acidente.

A humilhação não era a derrota.

O silêncio do sábado não era o fim da história.

O Salmo 22 começa na escuridão da dor, atravessa a humilhação e termina olhando para uma geração futura que anunciará a obra realizada por Deus.

E, quando Jesus cita sua primeira frase na cruz, Ele nos conduz ao salmo inteiro.

É como se, no momento de sua maior agonia, Jesus estivesse apontando para as Escrituras e dizendo:

Leiam e estudem a Bíblia

Leiam o Salmo 22.

Leiam sobre o justo que seria desprezado.

Leiam sobre aquele que seria zombado.

Leiam sobre aquele cujas mãos e pés seriam traspassados.

Leiam sobre suas vestes sendo repartidas.

Leiam sobre sua sede e seu sofrimento.

E leiam também o final.

Porque o homem da cruz não permaneceria na cruz.

O sofrimento não terminaria em derrota.

A morte não teria a última palavra.

A cruz apontava para a ressurreição.

O Salmo 22, lido à luz do Novo Testamento, revela uma das mais profundas linhas de continuidade entre as Escrituras de Israel e a paixão de Cristo: o sofrimento do Messias não era o fim da história; era o caminho pelo qual a salvação chegaria às nações.

quele que começou o salmo clamando em meio à angústia termina contemplando os confins da terra adorando ao Senhor.

E aquilo que parecia derrota aos olhos dos homens tornou-se, pela obra de Deus, a vitória da redenção.

Não terminou na cruz.

A cruz foi o caminho para a vitória.

Glória Deus!

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

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Não transforme a decepção em distância de Deus


Vladimir Chaves

“Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas.” Mateus 5:41

Não deixe a maldade dos outros decidir quem você vai se tornar. Nem sempre podemos escolher o que fazem conosco, mas podemos escolher o que permitiremos que essas atitudes produzam dentro de nós.

Há momentos em que pessoas que se dizem cristãs podem nos decepcionar, ferir ou até colocar obstáculos em nosso caminho. Porém, a nossa fé não pode estar fundamentada na perfeição das pessoas, mas na fidelidade de Deus. Se alguém falhar conosco, isso não significa que Deus falhou.

Quem realmente confia na justiça de Deus não abandona o caminho por causa das atitudes de alguém. Não permita que a decepção com uma pessoa se transforme em distância de Deus. A pedra colocada no caminho por alguém não precisa se tornar motivo para você parar de caminhar.

Maturidade espiritual também significa aprender a lidar com aquilo que nos feriu sem carregar a ferida para o resto da vida. Mágoas acumuladas pesam no coração e, muitas vezes, machucam mais quem as guarda do que quem as causou.

Jesus nos ensina algo profundo quando fala sobre andar a segunda milha. A primeira pode representar aquilo que somos obrigados a fazer; a segunda revela aquilo que escolhemos fazer. É justamente nessa escolha que o caráter aparece.

Fazer apenas o necessário qualquer pessoa pode fazer. Ir além, quando seria mais fácil desistir, responder com bondade quando recebemos maldade e continuar firmes quando fomos decepcionados são atitudes que revelam crescimento espiritual.

Não permita que o comportamento de alguém determine o seu. Não deixe a injustiça transformar você em uma pessoa amarga. Entregue a Deus aquilo que você não pode resolver e cuide daquilo que está sob o seu controle: seu coração, suas escolhas e sua maneira de caminhar.

Às vezes, a maior prova de maturidade não é vencer quem nos feriu, mas permanecer sendo aquilo que Deus nos chamou para ser, apesar do que fizeram conosco.

A segunda milha não muda necessariamente quem está ao nosso lado; ela revela quem estamos nos tornando diante de Deus.

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Fé Cristã: quando a oração pede uma coisa, mas o voto escolhe outra


Vladimir Chaves

Existe uma contradição que precisa ser encarada com honestidade dentro da igreja: não faz sentido pedir a Deus que transforme as consequências de escolhas que, conscientemente, ajudamos a promover. A fé cristã não pode se limitar às palavras que pronunciamos dentro do templo; ela precisa alcançar nossas decisões, nossos valores e também a maneira como exercemos nossa cidadania.

Imagine alguém que pede à igreja: “Orem pelo meu filho, ele está escravizado pelas drogas”. A igreja ora, jejua e clama pela libertação daquele jovem. Entretanto, essa mesma pessoa apoia politicamente quem defende políticas de legalização das drogas. Há aí uma contradição absurda. Cabe perguntar: as escolhas que faço nas urnas são coerentes com aquilo que peço a Deus em oração?

O mesmo acontece quando alguém reclama da violência que tomou conta das ruas, teme pela segurança dos filhos e lamenta a impunidade, mas apoia políticos e partidos que relativizam a responsabilidade individual do criminoso ou adotam políticas que, na prática, enfraquecem o combate à criminalidade. Não é coerente transformar o criminoso em vítima e, ao mesmo tempo, esperar que Deus proteja a família das consequências de uma sociedade que não responsabiliza adequadamente quem pratica o mal.

Há ainda uma questão particularmente delicada: pais que choram porque uma filha adolescente engravidou e enfrentam todas as dificuldades emocionais, sociais e financeiras decorrentes disso, mas votam em candidatos que defendem projetos políticos e culturais incompatíveis com os valores que desejam transmitir aos próprios filhos. Novamente, a incoerência fala mais alto, e é preciso perguntar: quais valores estamos querendo que sejam ensinados na sociedade e nas instituições de ensino?

Também é contraditório alguém defender apaixonadamente a Bíblia dentro da igreja, julgar constantemente a fé dos irmãos e, ao mesmo tempo, votar em políticos que defendem a restrição da liberdade religiosa ou que tratam a Bíblia como algo que deve ser criminalizado. O cristão não pode exigir respeito pela própria fé e votar em políticos que desejam enfraquecer o direito dos cristãos de professá-la.

Da mesma maneira, quem sofre com o fracasso do casamento, lamenta a destruição da família e sente na própria pele as consequências de uma separação precisa refletir sobre quais concepções de família está ajudando a fortalecer por meio de suas escolhas nas urnas. E, novamente, a incoerência fala mais alto quando escolhe políticos que são contra o casamento tradicional.

E quando alguém reclama da precariedade da saúde, da educação, da corrupção e da má administração dos recursos públicos, mas continua votando em políticos envolvidos em escândalos ou práticas incompatíveis com aquilo que exige dos governantes, surge outra pergunta inevitável: por que toleramos no político aquilo que não toleramos no vizinho?

A questão central, portanto, não é simplesmente “em quem o cristão deve votar”. A Bíblia não apresenta uma lista de candidatos modernos nem transforma o voto em um sacramento. O ponto é muito mais profundo: o cristão precisa submeter suas escolhas aos princípios bíblicos que afirma professar.

A contradição também aparece quando o cristão visita orfanatos, hospitais e instituições de acolhimento, ora pelas crianças, pede a Deus que as proteja e se emociona diante do sofrimento infantil, mas, na esfera política, apoia candidatos que defendem o aborto. É preciso ter coerência: não se pode afirmar que toda vida é preciosa diante de Deus quando estamos diante de uma criança já nascida e, ao mesmo tempo, tratar como descartável a vida humana em sua fase mais vulnerável.

Se choramos pela criança que está no hospital, cuidamos do órfão e oramos pelo abandonado, precisamos também refletir seriamente sobre a vida que ainda está no ventre.

Jesus ensinou: “E por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo?” Lucas 6:46

Esse versículo toca diretamente na raiz do problema. Jesus confronta uma fé que reconhece sua autoridade apenas com os lábios, mas não se transforma em obediência. É possível dizer “Senhor, Senhor”, frequentar a igreja, participar de cultos, pedir oração e conhecer versículos e, ainda assim, viver de maneira incoerente com aquilo que se afirma crer.

Tiago também apresenta um princípio contundente:

“Tornai-vos, pois, praticantes da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.” Tiago 1:22

A fé bíblica não termina no discurso. Ela produz comportamento. Se a Palavra orienta nossos valores, esses valores precisam aparecer em nossas escolhas pessoais, familiares, profissionais e também na maneira como avaliamos aqueles que pretendemos colocar no poder.

Isso não significa transformar a igreja em palanque político. Igreja não é comitê eleitoral, pastor não é cabo eleitoral e o púlpito não deve ser transformado em instrumento de propaganda partidária. Mas também não significa que o cristão deva abandonar sua consciência bíblica quando entra na cabine de votação.

O voto é uma decisão de responsabilidade pública. Portanto, o cristão deveria avaliar candidatos e propostas à luz de critérios como verdade, honestidade, responsabilidade, defesa da vida, liberdade religiosa, justiça, responsabilidade fiscal, combate à corrupção, proteção da família e compromisso com o bem comum. Nenhum candidato será perfeito. Não existe político sem defeitos, e nenhum partido representa integralmente os princípios do Evangelho. Por isso, o cristão precisa exercer discernimento.

Não existe coerência em condenar o pecado quando ele está do lado que não apoiamos e justificá-lo quando está do lado que apoiamos. Se a corrupção é errada, continua sendo errada quando praticada pelo nosso candidato. Se a mentira é pecado, continua sendo pecado quando beneficia o nosso grupo político. Se a injustiça é condenável, continua sendo condenável quando favorece aqueles com quem simpatizamos.

O problema começa quando transformamos nossa preferência política em uma espécie de religião. Passamos a defender pessoas em vez de princípios, partidos em vez da verdade e líderes em vez de valores. Nesse momento, deixamos de avaliar a política pela Bíblia e começamos a interpretar a Bíblia pela política.

O cristão precisa recuperar uma coisa fundamental: coerência.

Não basta pedir oração pela família e depois apoiar tudo aquilo que enfraquece os valores que desejamos para ela.

Não basta lamentar a violência e ignorar políticas que promovem a impunidade.

Não basta chorar pelos filhos e permanecer indiferente aos valores que influenciam sua formação.

Não basta defender a Bíblia dentro da igreja e apoiar restrições à liberdade de expressão religiosa.

Não basta reclamar da corrupção e votar repetidamente em corruptos.

Não basta dizer que Deus é o Senhor e colocar nossas convicções políticas acima da Palavra.

A pergunta que o cristão deveria fazer antes de qualquer escolha não é apenas: “Qual político eu gosto?”, mas: “Quais valores estou ajudando a colocar em prática com a minha decisão?”

A oração é indispensável. Mas oração não substitui responsabilidade.

Pedimos a Deus que proteja nossos filhos, mas também precisamos escolher com sabedoria aquilo que defendemos. Pedimos segurança, mas também precisamos refletir sobre justiça e responsabilidade. Pedimos famílias fortes, mas precisamos valorizar o casamento e a formação moral dos filhos. Pedimos governantes honestos, mas precisamos rejeitar a corrupção independentemente de quem a pratique.

A verdadeira fé não é apenas aquilo que dizemos que acreditamos; é aquilo que estamos dispostos a viver quando nossas convicções são colocadas à prova.

O cristão não deve ter princípios apenas da boca para fora. Se afirma seguir Cristo, precisa buscar coerência entre aquilo que professa no templo, aquilo que ensina dentro de casa e aquilo que defende diante da sociedade.

Porque, no final, a pergunta não será apenas se levantamos as mãos no culto, se conhecemos muitos versículos ou se fizemos belas orações. Haverá também uma pergunta muito mais incômoda: nossas escolhas demonstraram que realmente levávamos a sério aquilo que dizíamos crer?

Fé verdadeira não é apenas discurso. Fé verdadeira produz escolhas.

domingo, 23 de agosto de 2026

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