Quando lemos Evangelho de Lucas
15:1-7 (A parábola da ovelha perdida), percebemos que o cenário não é muito
diferente dos dias atuais. Jesus está cercado por publicanos e pecadores; gente
ferida, rejeitada, carente de direção. Do outro lado, os religiosos murmuram.
Não suportam ver alguém fora do “padrão” sendo acolhido.
É nesse contexto que nasce a
parábola da ovelha perdida.
O contraste é inevitável
quando olhamos para o fenômeno crescente dos “desigrejados”. Nunca foi tão
comum ver pessoas que chegaram à igreja cheias de sede espiritual, mas que, em
pouco tempo, desistiram. E não desistiram de Deus, desistiram da experiência
religiosa que encontraram.
Muitos não saem por
rebeldia. Saem cansados. Cansados de ambientes onde há mais cobrança do que
cuidado, mais regras do que graça, mais aparência do que verdade.
São pessoas que, como a
ovelha da parábola, já chegam fragilizadas; mas, em vez de encontrar alívio,
recebem fardos ainda mais pesados. São pressionadas a se encaixar rapidamente,
a performar espiritualmente, a corresponder às expectativas que ignoram seus
processos, suas dores e suas limitações.
Isso não reflete o coração
do Pastor da parábola.
O texto mostra que o pastor
percebe a ausência de uma única ovelha. Ele não relativiza, não diz “a maioria
ficou, está tudo bem”. Ele sente a falta. Isso é algo que, muitas vezes, a
estrutura religiosa perdeu: a sensibilidade pelo indivíduo.
Hoje, em muitos contextos,
as pessoas entram e saem sem serem verdadeiramente vistas. Tornam-se números,
estatísticas, ou pior, problemas a serem corrigidos, e não vidas a serem
cuidadas.
Outro ponto marcante é que o
pastor vai atrás da ovelha. Ele não exige que ela volte sozinha. Isso confronta
diretamente uma mentalidade comum: a de que quem se afastou precisa “se
resolver primeiro” para depois retornar.
Mas Jesus mostra o oposto. O
movimento começa no pastor.
Talvez um dos grandes
motivos do crescimento dos desigrejados seja exatamente a ausência desse
movimento. Falta busca. Falta presença. Falta alguém que vá além do púlpito e
alcance o coração.
Além disso, a parábola
revela que, ao encontrar a ovelha, o pastor não a repreende, ele a carrega.
Isso fala de acolhimento, de restauração, de empatia. Em muitos ambientes
atuais, porém, o que se vê é o contrário: pessoas sendo expostas, julgadas ou
tratadas com dureza em momentos de maior fragilidade.
O resultado é previsível:
elas vão embora.
Não porque não querem Deus,
mas porque não encontraram nEle aquilo que a igreja deveria refletir.
O mais preocupante é que,
assim como no tempo de Jesus, ainda há quem critique esse movimento. Há quem
rotule os desigrejados como frios, desviados ou fracos na fé, sem considerar
que muitos apenas não suportaram ambientes espiritualmente adoecidos.
A parábola da ovelha perdida
não apenas consola quem se afastou, ela confronta quem ficou.
Ela nos obriga a perguntar:
estamos mais parecidos com o pastor ou com os que murmuravam?
Se a igreja quiser responder
ao fenômeno dos desigrejados, não será com discursos mais duros, nem com
exigências maiores. Será com retorno ao essencial: o coração de Cristo.
Um coração que vê, que sente
falta, que busca, que acolhe e que celebra a restauração.
Enquanto isso não acontecer,
continuaremos vendo o mesmo cenário: ovelhas saindo silenciosamente… e poucos
dispostos a ir atrás delas.



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